A disputa pela Presidência da República esquentou de vez. Duas pesquisas divulgadas no mesmo dia mostram Lula e Flávio Bolsonaro embolados — mas chegam a resultados diferentes sobre quem estaria na frente em um eventual segundo turno.
No Datafolha, divulgado nesta sexta-feira (21), Lula aparece numericamente à frente, com 47% das intenções de voto contra 43% de Flávio Bolsonaro. A diferença de quatro pontos está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, configurando empate técnico.
Mas o levantamento do Veritá, divulgado também na sexta-feira, apresentou o cenário inverso. Flávio Bolsonaro aparece com 47,3%, contra 42% de Lula, abrindo 5,3 pontos de vantagem sobre o presidente.
Ou seja: em um mesmo dia, um instituto aponta Lula numericamente à frente e o outro coloca Flávio na liderança.A fotografia é diferente, mas a mensagem é a mesma: a disputa está apertando.
Pesquisadores veem aproximação
Os números reforçam a avaliação de pesquisadores ouvidos durante o 25º Fórum Lide Empresarial, no Rio de Janeiro.
Para Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, Flávio vive um momento de aproximação com Lula, e novas sondagens podem voltar a registrar empate técnico entre os dois. Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, considera que Lula ainda parte de uma posição mais favorável, mas reconhece que a eleição está competitiva.
E há outro dado que chama atenção: no primeiro turno, o Veritá coloca os dois praticamente empatados. Lula tem 39,3% e Flávio, 39,1% — uma diferença de apenas 0,2 ponto percentual.
A polarização, portanto, continua dominante, enquanto os demais candidatos aparecem bem atrás.
Rejeição pode ser a chave da eleição
Para os pesquisadores, a eleição pode ser decidida menos pela paixão por propostas e mais pela rejeição ao adversário.
Andrei Roman avalia que o voto de rejeição ganhou cada vez mais peso na política brasileira e pode novamente ser determinante em 2026. Murilo Hidalgo também chama atenção para o impacto de denúncias e escândalos, que podem mudar rapidamente o humor do eleitorado.
Nesse cenário, não basta crescer: será preciso evitar que o adversário transforme seus problemas em rejeição eleitoral.
Corrupção vira munição dos dois lados
A corrupção aparece como uma das principais armas de desconstrução dos candidatos.
Segundo Roman, o tema historicamente mobiliza o eleitorado bolsonarista contra Lula. Ao mesmo tempo, o escândalo envolvendo o Banco Master aparece como um dos pontos de pressão sobre Flávio.
Hidalgo critica o excesso de ataques e afirma que as campanhas estão dando mais espaço às denúncias do que às propostas capazes de enfrentar os problemas concretos da população.
Segurança pode mudar o jogo
A criminalidade também aparece no radar dos pesquisadores.
Roman chama atenção para o avanço das facções criminosas no Nordeste e avalia que episódios de grande repercussão na área da segurança podem aumentar a pressão por políticas mais duras e alterar a percepção dos eleitores.
Em uma disputa tão apertada, uma crise de segurança pode valer pontos preciosos — e mudar o rumo da eleição.
O bolso do eleitor pode decidir
A economia é outro fator com potencial para virar a balança.
Hidalgo destaca que preço dos alimentos, endividamento das famílias e situação econômica do país serão fundamentais nos meses que antecedem a votação. Como candidato à continuidade do governo, Lula tende a ser mais diretamente cobrado pelo desempenho da economia.
Por outro lado, o presidente mantém uma vantagem em temas sociais, com medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o Desenrola citadas como fatores que ajudaram na recuperação de espaço no Sudeste.
Sudeste pode virar fiel da balança
O mapa regional também será decisivo.
Segundo Roman, Lula enfrenta uma deterioração no Nordeste em relação a ciclos eleitorais anteriores e tenta compensar esse movimento com recuperação no Sudeste, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
É justamente aí que a disputa pode ganhar contornos ainda mais apertados.
Terceira via continua sem espaço
Enquanto Lula e Flávio concentram praticamente todo o protagonismo, os candidatos que tentam escapar da polarização continuam com dificuldade para crescer.
No primeiro turno do Veritá, Pablo Marçal aparece com 5,2%; Renan Santos, com 3,8%; Ronaldo Caiado, com 3,3%; e Augusto Cury, com 2,2%.
Os números mostram que, por enquanto, a eleição continua girando em torno de dois polos.
Tudo pode mudar até outubro
Os pesquisadores fazem uma ressalva importante: a eleição ainda está longe de estar decidida.
Novos escândalos, denúncias, crises econômicas ou acontecimentos de grande repercussão podem mudar rapidamente a corrida. Para Hidalgo, o vencedor será aquele que conseguir chegar à semana decisiva sem carregar uma “nuvem negra” sobre sua candidatura.
Metodologia
O Datafolha ouviu 2.058 eleitores em todo o país entre os dias 18 e 20 de agosto, com margem de erro de 2 pontos percentuais, intervalo de confiança de 95%, e registrou a pesquisa no TSE sob o número BR-04496/2026. Já o Veritá entrevistou 3.840 eleitores entre 16 e 20 de agosto, também em todo o território nacional, com margem de erro de 2 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%. O levantamento foi realizado com recursos próprios do instituto e está registrado no TSE sob o protocolo BR-04006/2026.
