Um levantamento sobre os pagamentos realizados pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio (SES-RJ) e pela Fundação Saúde, entre abril e maio de 2026, escancara que uma velha prática continua firme: milhões sendo liberados por meio dos chamados Termos de Ajuste de Contas (TACs).
Na prática, o TAC é o “acerto depois”. O governo reconhece e paga serviços já prestados — mas sem contrato vigente. Embora seja previsto para situações excepcionais, o mecanismo virou rotina e é frequentemente apontado por órgãos de controle como sinal de falhas graves de planejamento.
Só em dois meses, foram R$ 14.638.983,35 pagos nesse formato.
A maior fatia ficou com a Eco Rio Comércio e Serviços Ltda. (Eco Rio Facilities), que recebeu R$ 7.454.733,08 por apoio hospitalar — mais da metade de todo o valor pago via TAC no período.
Empresa já apareceu em investigação
Documentos públicos indicam que a empresa tem como sócio-administrador Luiz Cláudio Babo Torres. O nome dele já foi alvo de investigações do Ministério Público e da Polícia Civil do Distrito Federal na Operação Falso Negativo, em 2020, que apurou suspeitas de irregularidades na compra de testes de Covid-19.
Na época, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra o empresário no Rio, além de diligências em empresas ligadas a ele. As investigações apontavam suspeitas de superfaturamento e outras irregularidades, com prejuízo estimado em cerca de R$ 30 milhões.
Importante: ter sido alvo de buscas não significa condenação, sendo garantido o direito à ampla defesa e ao contraditório.
Endereço levanta dúvida
Dados cadastrais indicam que a sede da empresa fica em Nova Iguaçu. Imagens disponíveis em serviços de geolocalização mostram um imóvel residencial no endereço informado — o mesmo vinculado à empresa que recebeu mais de R$ 7,4 milhões em apenas dois meses.
O ‘pacote’ do jeitinho
Além da Eco Rio, outros pagamentos via TAC chamam atenção:
- Bravo Assessoria e Serviços: R$ 4.364.285,45
- Serviços laboratoriais (Blessing, Palmar, Santa Ana e Biomega): R$ 1.317.684,94
- Outros fornecedores: R$ 1.501.279,88
Somados, os TACs chegam perto de R$ 15 milhões no bimestre.
R$ 55 milhões movimentados
No total, SES-RJ e Fundação Saúde movimentaram R$ 54.975.169,82 entre abril e maio, incluindo TACs, contratos e atas de registro de preços.
Os dados mostram que, mesmo com a troca de comando, a dependência de mecanismos emergenciais continua. Especialistas em gestão pública apontam que o uso frequente de TACs pode reduzir transparência e competitividade, além de indicar falhas na programação de contratos.
No fim, o que deveria ser exceção virou regra — e mais de R$ 14,6 milhões foram pagos no improviso em apenas dois meses, reacendendo dúvidas sobre o planejamento da saúde estadual.
Procurada, a Secretaria de Saúde não se manifestou até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

