A terceira fase da Operação Vectura Corrupta, deflagrada pela Polícia Civil de São Paulo e pelo Ministério Público nesta quinta-feira (17), revela diferentes frentes de atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no estado de São Paulo. Segundo a corporação, os esquemas envolvem financiamento de campanhas eleitorais, empresas de transporte, refinarias usadas para o processamento de drogas, a criação de uma organização não governamental (ONG) com atuação em diversos municípios, o uso da área da saúde e a comercialização de cocaína.
‘Sintonia dos Gravatas’: operação contra Milton Leite também mira advogados suspeitos de atuar para o PCC
PCC teria controle de 12 das 22 empresas de ônibus de SP, aponta investigação; Milton Leite é citado como operador
A operação tem entre os alvos o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil). Segundo a investigação, ele seria o responsável direto pela operação da Transwolff, empresa de transporte atribuída ao PCC. O despacho, assinado pelo desembargador Sérgio Ribas, não aponta ligação dele com os demais braços de atuação da facção.
A ação também investiga a atuação da chamada “Sintonia dos Gravatas”, setor do PCC responsável por questões jurídicas da facção. As informações constam de decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que determinou a prisão temporária de 13 investigados. Veja abaixo quem são eles.
O documento é resultado de um pedido do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em investigação que é um desdobramento da Operação Decurio.
Segundo a polícia, mensagens obtidas durante a operação revelam discussões sobre aportes financeiros para as campanhas eleitorais de Danilo Morgado e José Ronaldo Alves de Sales. As conversas indicam que membros da facção participavam da definição e da interrupção dos repasses, além de articularem apoio político aos candidatos.
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A corporação identificou ainda interlocução entre integrantes do grupo, advogados e empresários, além de indícios de uma possível influência da organização sobre integrantes do Poder Legislativo.
PCC no controle de empresas de ônibus
A investigação aponta que o PCC teria controle, em tese, de 12 das 22 empresas de transporte coletivo de São Paulo. A partir de mensagens, documentos e dados financeiros, os investigadores identificaram possíveis vínculos entre as empresas e integrantes da facção.
Milton Leite é citado no despacho como responsável direto pela operação de empresas atribuídas ao PCC. Policiais militares também teriam afirmado, em procedimento na Justiça Militar, que ele seria o dono de fato da Transwolff. Ao GLOBO, ele negou ser dono da empresa e disse que se apresentará às autoridades em até 24 horas.
Leite afirmou por telefone que está “viajando” e que foi “surpreendido com o mandado de prisão”, que foi recebido por sua advogada. Ele não informou a cidade onde está.
— Nego veementemente qualquer acusação, não sou dono da empresa, só tinha relação porque era próximo lá. Não tenho nada a ver com PCC, nunca encontrei esse pessoal na vida. Não havia sido intimado a depor, e fui surpreendido com o mandado de prisão. Minha advogada esta em São Paulo e recebeu a intimação. Não estou em São Paulo, eu estou viajando mesmo, não vou falar a cidade para não virem me buscar. Eu preciso de 24 horas para organizar a defesa — falou.
Entre as empresas investigadas estão Translider, A2 Transportes e Transbellaflor. José Daniel Satilite e Claudionor Sabino Tomaz são apontados como possíveis “laranjas” em negócios do setor, enquanto o empresário Paulo Siqueira Korek Farias teria mantido influência sobre a Translider mesmo após deixar formalmente a sociedade. Em uma das conversas, ele teria tratado da venda de 63 ônibus por R$ 1,26 milhão, com previsão de pagamento de comissões a José Daniel e outros envolvidos.
A investigação também aponta negociações em Cubatão, Leme, São Vicente e Itanhaém. Nesta última, foram identificadas conversas sobre uma tentativa de direcionar uma licitação, com parte dos valores destinada, segundo a polícia, ao pagamento de vantagens indevidas e à organização criminosa.
Refinaria e tráfico de cocaína
A investigação também identificou indícios de envolvimento dos investigados com a comercialização de drogas e com a aquisição de uma refinaria. Em diálogos atribuídos a Claudionor, os investigadores encontraram referências à negociação de aproximadamente 200 quilos de pasta-base de cocaína, mencionada nas conversas pela expressão “óleo para produzir ouro branco”. As mensagens também tratariam de negociações envolvendo armas, incluindo fuzis, e coletes balísticos.
Em outro núcleo da investigação, a polícia identificou conversas entre José Daniel e Edivânia Arruda Botelho Alves, que teria repassado mensagens de Marlon enquanto ele estava preso. Em cartas e recados, Marlon cobraria sua participação financeira na aquisição da refinaria Fanal e mencionaria a atuação do advogado Milton Mello Milreu nas negociações.
Segundo a investigação, José Daniel teria atuado como “laranja” na aquisição da empresa, avaliada em aproximadamente R$ 40 milhões. Para a corporação, o valor seria incompatível com a capacidade econômica atribuída a ele.
ONG e área da saúde
A investigação também aponta o uso da área da saúde como uma das frentes de atuação da organização criminosa. De acordo com a polícia, José Daniel teria discutido a criação de uma organização não governamental (ONG). Posteriormente, os investigadores identificaram a Associação das Crianças Excepcionais de Nova Iguaçu (Aceni), entidade do Rio de Janeiro com atuação em diversos municípios de São Paulo, na qual José Daniel figuraria como conselheiro.
Para a corporação, a estrutura poderia reproduzir um modelo de atuação já empregado pelo grupo criminoso, utilizando uma organização da área da saúde como parte de sua estratégia de atuação.
Quem são os 13 investigados
Carla de Paula Muller: esposa de Antônio José Muller Junior, o “Granada”, apontado como líder do PCC e preso em Brasília. Segundo a investigação, transmitia recados da facção a ele e atuava na exploração do transporte público. É interlocutora de José Daniel Satilite.
Cícero José dos Santos: advogado apontado como integrante do PCC. Segundo a investigação, teria usado o escritório como local de reuniões de integrantes da facção e a conta bancária do escritório para receber valores de empresas investigadas. É interlocutor de José Daniel.
Danilo Marco Morgado Silva: candidato derrotado à Prefeitura de Praia Grande em 2024 e atualmente candidato a deputado estadual. Já havia sido alvo da Operação Decurio. A investigação aponta vínculos com o PCC e indícios de financiamento de sua campanha à prefeitura pela organização.
Edivania Arruda Botelho Alves, a “Lalinha”: segundo a investigação, fazia a ponte para transmitir mensagens de integrantes do PCC presos na Penitenciária de Presidente Bernardes.
Edson Antonio de Souza, o “Peru”: apontado como intermediário de interesses do PCC em procedimentos de licitação em diferentes municípios.
Eduardo Medeiros, o “Galo”: integrante do PCC, advogado de José Daniel e dono de empresas de transporte. Segundo a investigação, atuava com integrantes da facção no setor de transportes e em licitações.
José Ronaldo Alves de Sales: atua nos meios político e de transportes. Segundo a investigação, fazia a ligação entre integrantes do PCC e políticos e participava de articulações em licitações. Atuava com José Daniel e Eduardo Medeiros.
Julio Salvador Filho: diretor da A2 Transportes e interlocutor de José Daniel. Segundo a investigação, decidia com Paulo Korek sobre a liberação de pagamentos a José Daniel e Claudionor, apontados como “laranjas”.
Levi dos Santos Oliveira: ex-presidente da SPTrans. Segundo a investigação, manteve encontros periódicos com integrantes do grupo para tratar de interesses relacionados às empresas de transporte, especialmente após a Operação Fim da Linha, do MPSP.
Milton Leite da Silva: ex-vereador de São Paulo. É citado pela investigação como responsável direto pela operação de algumas empresas atribuídas ao PCC. Policiais militares também teriam afirmado, em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, que ele seria o dono de fato da Transwolff.
Milton Mello Milreu: advogado apontado como integrante do PCC. Segundo a investigação, realizava pagamentos periódicos a José Daniel e atuava na captação de empresas para a organização, incluindo negociações envolvendo a Usina Campo Limpo e a refinaria Fanal.
Paulo Sirqueira Korek Farias: empresário e gestor de empresas de transporte, como Translider e A2. A investigação o aponta como responsável por administrar interesses do crime organizado no setor. Também é presidente do Esporte Clube Água Santa.
Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira: empresário apontado como braço direito de Milton Mello Milreu. Segundo a investigação, atuava como intermediário entre o advogado e integrantes do PCC e aparece em diálogos participando de atividades atribuídas à organização.
Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/09/17/do-narcotrafico-ao-financiamento-eleitoral-transporte-e-saude-as-frentes-de-atuacao-do-pcc-reveladas-pela-policia-em-sp.ghtml
Do narcotráfico ao financiamento eleitoral, transporte e saúde: as frentes de atuação do PCC reveladas pela polícia em SP
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