Arte no Rio, um festival entre festivais

Tempo de leitura: 12 min



Começar essa semana no Rio de Janeiro a Art Rio — mas numa edição que parece diferente das outras, com diversas expressões artísticas e eventos celebrando as artes plásticas. É como se um festival de arte invadisse a Baia de Guanabara. Impossível para mim, tendo apenas retornado do Festival de Salzburgo, nao imaginar, nao sonhar como a nossa cidade merecia ter um grande Festival…

Foi numa tarde de verão que eu me despedi do Festival de Salzburgo. Não fosse o calor seco, eu poderia imaginar que estava no Rio de Janeiro. Como? É fácil explicar meu delírio: foi por conta da alegria das pessoas, e de uma mistura que era igualmente inesperada: nem só melômanos em black-tie circulavam pelo Festival, mas também gente despojada, de todas as idades e orçamentos, que assistia aos concertos num telão colocado meio da praça — sem falar nos torcedores de futebol que também viram seu jogo no mesmo espaço, um dia antes.

Essa não foi a primeira vez que Salzburgo e Rio cruzaram-se na minha cabeça. Há uns anos, e por duas vezes, passei mais de um mês por lá, dirigindo uma ópera de Puccini e, depois, outra de Tchaikovsky. As semanas nevadas do inverno fazem a imaginação viajar e eu acabava sempre pensando nas semelhanças entre essas duas cidades tão ligadas ao turismo.

Obviamente, os tamanhos são totalmente diferentes. A pequena cidade austríaca é uma jóia fina, um desses trabalhos de ourivesaria em miniatura; já o Rio é uma metrópole ensolarada à beira mar. Aqui, há muitos filhos ilustres que falam de diversidade de opções culturais, que falam como somos hoje e como fomos nos séculos XIX e XX numa capital empenhada em criar uma identidade cultural para todo um país. Salzburgo pode não ter tido, como as praias cariocas e a sorte de contar com a herança cultural de uma enorme população de origem Africana, mas teve um filho ilustre que marcou o destino da música ocidental para sempre: Mozart, foco daquela cidade austríaca por 365 dias no ano. É sem sombra de dúvida graças a esse filho ilustre que Salzburgo respira música. Quanto ao Rio de Janeiro, a cidade foi e é berço de muito talentos; de grandes músicos, de muitos géneros de música — e de muita liberdade artistica. Não nos faltaria algo para celebrar isso tudo?

Continua após a publicidade

O Festival de Salzburgo fala, a sua maneira, de diversidade — tanto pela mistura de públicos como de estéticas. Enquanto o grande público assistia à tradicional apresentação da peça Jedermann na frente da Catedral, a Rainha Silvia, da Suécia, estava numa récita de Carmen que causou muita polêmica pela visão cênica da coreógrafa argentina. Quando me apresentaram à Rainha (em português, pois ela passou a infância em São Paulo), fiquei tentado a perguntar a opinião dela sobre aquela versão tão iconoclasta da famosa ópera de Bizet; mas acho que não há nada pior do que virar para uma pessoa pública e pedir a opinião dela no meio de um espetáculo. Opiniões são uma forma de intimidade, e em boca fechada não entra mosca nem se arrisca lesa-majestade…

Falando em moscas, quando Cecília Bartoli apareceu para cantar seu solo com harpa no meio do primeiro ato de Il Viaggio a Reims, o mundo pareceu parar; não se escutava um inseto, uma respiração. Bartoli é um prodígio aos 60 anos, que comemorou, aliás, naquele mesmo palco uns poucos dias antes da minha chegada — numa festa com direito a aparições surpresas de outras estrelas. Simples assim, sem mais delongas: o que ela faz com q voz é mais ou menos o que Rossini deve ter pensado quando cunhou o termo Bel Canto. O espetáculo narra as aventuras de uma dezena de pessoas que, sem cavalos para poder partir, estão presas no mesmo hotel. A reunião de tantas estrelas do canto cria um delicioso pastiche irreverente, composto para que as maiores vozes do tempo de Rossini comemorassem uma coroação. A montagem de Viagem para Reims teve assinatura do genial diretor australiano Barry Kosky, o que garantiu que eu terminasse a noite nas nuvens, sem moscas mas com uma pulga atrás da orelha: por que será que nunca foi apresentada essa ópera no Rio? Aparentemente estamos condenados a achar que popularizar é oferecer os mesmo títulos batidos ano após ano… (Imaginem se as escolas de samba apresentassem sempre o mesmo enredo, o mesmo desfile?)

Continua após a publicidade

Se não bastasse a presença de mitos como Bartoli, a manhã seguinte me brindou com um ensaio geral do Requiem de Verdi com a regência do Riccardo Muti. Dei sorte, porque pelo que eu li o grwnde Maestri Napolitano fez apenas uma parte das apresentações e depois cancelou o resto da turnê. Fico pensando se foi uma bolsa que uma infeliz deixou cair bem no silêncio antes do final que acabou derretendo a paciência do maestro. Ele teria toda razão: a minha foi para os infernos com uma russa que insistia em verificar o celular no meio do primeiro ato de outra opera que assisti, Saint-François d’Assise, de Messiaen. Sinceramente o que leva uma alma (de-)penada destas, que não pode ficar 1h sem suas redes, a pensar que gostaria de assistir uma obra monumental (só o coro conta com 150 pessoas!) num espetáculo de 6h de duração? Um espetáculo, aliás, realmente espetacular, onde o encenador italiano Romeo Castelucci coloca em cena humanos e animais — ovelhas, lobos e afins são sua marca registrada. Foi uma dessas coisas que só um dos maiores festivais do mundo poderiam oferecer ao público. Fiquei feliz de assistir pois foi certamente uma oportunidade que só acontece uma vez na vida.

A nota destoante das maravilhas veio, surpreendentemente, de outro ilustre compositor muito associado a Salzburgo: Richard Strauss. Sua deslumbrante e elegante Ariadne em Naxos virou uma comédia de erros na encenação proposta. Eu não gostei mas serei justo em dizer que bem imagino que muitos devem ter gostado da versão “Star Wars” proposta. O problema (para mim) era que, ao colocar mais essa camada de humor, o diretor simplesmente não confiou no genial e sofisticado humor original — o que Strauss e Hofmannsthal fizeram, já era de bom tamanho. A orquestra era espetacular, a regência linda e os cantores excelentes; por isso mesmo não mereciam estar vestidos como uma árvore queimada, um marshmallow gigante ou a Frozen desbotada. O duro mesmo foi ver a pobre Ariadne, que deveria estar sozinha e abandonada, ter de desviar de uns bailarinos que mais pareciam um pirulito natalino derretido para conseguir cantar. Fui mau? O espetáculo mereceu.

Continua após a publicidade

Quanto a nós…acho que mereceríamos ter um Festival assim, de alto nível artístico ao mesmo tempo que cobrindo varias formas de expressão artística, para estimular que todos os públicos viessem descobrir algo além da cultura de massa. O Rio de Janeiro que eu gostaria de ver no futuro não precisa reviver aquele antigo mito de ‘Bela Cap’, de capital cultural do país, mas seria bom imaginar que veremos, nos próximos anos, (re)surgir uma cidade ainda mais internacional e cosmopolita. Minha parte nesse ideal tem sido desempenhar o papel do chato que há uns anos cutuca amigos da dança e do teatro com uma idéia: precisamos ter no Rio um grande festival internacional de artes cénicas. Ópera, dança e teatro não são exatamente a Madonna ou a Lady Gaga no imaginário geral — embora seus shows estejam repletos de referência às três — mas depois do sucesso dos shows na praia de copacabana, acho que não seria muito delírio utópico pensar que o Rio poderia acolher algum grande evento de artes cênicas.

Fiquei mais animado recentemente, ao perceber que estamos num bom caminho para chegar nesse clima de festival e de diversidade géneros: além a Arte Rio que ocupa a Mariana da Glória até dia 20 de setembro, há, além d muito teatro espalhado por toda cidade, algo especial de dança na Barra e ópera jovem no Municipal. Nesta mesma semana, entre 17 e 19 de setembro, o bailarino Thiago Soares traz sua versão balé de Carmen, no Teatro Multiplan, com uma participação especialissima da primeira bailarina do San Francisco Ballet, Sasha de Sola. Já o velho bom Theatro Municipal se transforma em usina de talentos, com espetáculos assinados e criados por novos talentos na ópera, — jovens encenadores, figurinistas, cenógrafos etc. Esse importante ponte entre a escola e a vida profissional começou semana passada, com o coro e orquestra da casa participando de uma Cavalleria Rusticana ambientada mais próxima da nossa realidade, numa Minas Gerais cheia de cores e símbolos de religião; agora segue com cenas de uma das obras mais fortes do barroco, A Coroação de Poppea (sobre o poder e a política na antiga Roma), de Monteverdi, e uma deliciosa comédia do Bel Canto, Il Campanello di Notte (sobre uma famaceutico que nao consegue. Consumar noite nupcial por conta da sineta noturna que nao o deixa em paz), de Donizetti. No elenco, diversos jovens cantores que andam despontando na ultima década e que vale a pena conhecer.

Continua após a publicidade

Assim, meu lado ‘influencer da ópera’ retorna a essa coluna celebrando o tremendo acerto para a cultura do Rio que esta ‘guinada’ de diversidade cultural pode significar: estaremos no caminho de um sonhado Festival Internacional, à altura do perfil que a cidade merece? Nós que fazemos arte das mais diferente vertentes — e em especial a ópera, música (dita)erudita e balé clássico, tão perseguidos pela fama injusta de ‘elitismo’ —, que buscamos acesso e estímulo, pedimos passagem!

André Heller-Lopes,
Encenador de ópera e produtor cultural, duas vezes Diretor Artístico do Municipal do Rio, é Professor da Escola de Música da UFRJ.



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/andre-heller-lopes/arte-no-rio-um-festival-entre-festivais/

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *