A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou nesta terça-feira (15/09) o que classificou como “espetacularização” da sessão que analisa o relatório da Polícia Federal sobre mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Durante o julgamento, a ministra pediu desculpas à população e lamentou o clima de tensão que marcou os debates na Corte.
“Eu peço desculpas ao povo brasileiro. Eu queria ter sido melhor em poder ter ajudado a acalmar as coisas, mas eu não consegui. Houve uma espetacularização desse caso e dessa sessão”, afirmou.
Confira trechos do pronunciamento da ministra:
“Eu tinha sobre a questão, e eu estou nesta sessão, como talvez muitos de meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza.
Hoje, um dos colegas me dizia, se eu estava aflita com alguma coisa. Eu disse: eu estou triste. Não apenas pelo tema que nos traz aqui, que teria sido aquele a ser decidido, mas porque o Supremo Tribunal Federal, guarda da Constituição, por determinação nela expressa, provocou, acho, um mal-estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros nesses últimos dias.
Eu me sinto, e estou falando apenas por mim — quem fala pelo Supremo é Vossa Excelência, presidente —, eu me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de, num momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarmos todos voltados a questões do Supremo, que são questões processuais em parte, com muita expressão e com questões graves mesmo, mas nós não garantimos o rigor e a serenidade que no meu papel de cidadã e juíza eu deveria ter ajudado a promover.”
“Para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade, acho, e essa é a minha percepção. Acho que nós mesmos, neste Supremo, inebriamos o sentimento de justiça da cidadania brasileira nesses últimos dias.
Eu, esses dias, dizia a um dos colegas: conversei com o ministro Alexandre de Moraes várias vezes, conversei com o ministro André, conversei com alguns com Vossa Excelência. Me ligam relações de amizade a alguns, de coleguismo a outros, mas eu dizia que eu bebi da lição de Clarice Lispector: “Eu não me perdi, mas experimentei a perdição”, neste sentido de que o brasileiro está preocupado, ocupado, focado em ver qual é a eleição geral, qual é o seu destino que eles querem, o único assunto que eu via, nos lugares onde eu entrava, uma farmácia, uma padaria ou nos telejornais, era sempre o que estava acontecendo aqui e que não era um quadro bonito.
Sessão histórica
O STF analisa um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens e outros registros apontados pela investigação como indícios de uma relação próxima entre Moraes e Vorcaro. Antes de decidir se o material pode levar à abertura de uma investigação, os ministros discutem um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para anular o relatório.
A PGR argumenta que o documento foi produzido por determinação do ministro André Mendonça sem solicitação prévia do Ministério Público ou da própria Polícia Federal e sem análise prévia do plenário da Corte.
A sessão ocorre em meio a divergências entre ministros sobre o acesso às provas, a condução das investigações e os desdobramentos do caso. Na segunda-feira (14), a Polícia Federal informou ter enviado cópias dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro aos gabinetes dos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes.
Também na segunda, André Mendonça retirou o sigilo de um processo que reúne informações sobre a rede de pagamentos envolvendo Vorcaro e o Banco Master.
