A promessa de uma cidade mais bem cuidada esbarra na realidade exposta dentro da própria Câmara do Rio. Durante audiência da Comissão de Finanças sobre a LDO 2027, vereadores fizeram um raio-x incômodo: falta de planejamento, obras mal executadas, coleta irregular e até equipamentos públicos sendo usados pelo crime.
A vereadora Rosa Fernandes foi direta ao apontar o que considera um dos principais gargalos da gestão: “Eu sinto falta de planejamento, uma proposta específica da prefeitura para cada região, ainda mais que a Conservação tem um dos maiores orçamentos da cidade.”
Ela ainda citou casos concretos que ilustram o problema: “Temos que cuidar de outras vias importantes, como a Estrada do Quitungo. Ela passou por obras que começaram e não foram concluídas. A pista ficou pior do que estava.”
Em Cordovil, a crítica foi ainda mais básica:
“Também temos um problema de coleta de lixo ineficiente.”
Do outro lado, o secretário de Conservação, Diego Vaz, reconheceu limitações no modelo atual e prometeu mudanças: “Estamos desenvolvendo um trabalho para conservar a cidade por ‘manchas’, pela concentração de pessoas em cada região.”
Apesar da promessa de um “salto de conservação” em 2027, a realidade traz entraves: o programa Asfalto Liso está paralisado por decisão judicial após suspeitas de irregularidades — e a meta de pavimentação já não deve ser cumprida, como ele mesmo admitiu.
Os buracos nas ruas também entraram na mira. O vereador Flávio Valle apontou diretamente um dos responsáveis: “É só andar na Voluntários da Pátria e na São Clemente para ver que estão bons só os trechos que não têm tampões.”
E completou, cobrando ação conjunta: “A Casa Legislativa deve se juntar com o Executivo para encontrar uma solução para esse problema dos buracos causados por concessionárias.”
Na limpeza urbana, apesar do discurso de modernização, os desafios seguem aparecendo. O vereador Leniel Borel fez um alerta grave sobre o uso indevido de equipamentos públicos: “Eles estão sendo colocados como barricadas em algumas comunidades. Vemos um equipamento público ser utilizado para impedir o direito de ir e vir do cidadão.”
Já o vereador Welington Dias cobrou avanço na coleta seletiva: “Que medidas a Comlurb pretende implementar para aumentar a coleta seletiva, tendo em vista que a quantidade é muito menor do que o total de resíduos?”
Mesmo com elogios pontuais, como o do vereador Rodrigo Vizeu à busca por soluções da Comlurb, o próprio parlamentar reforçou que o problema também passa pelo comportamento da população: “A sociedade tem que ajudar. Vemos muitos gastos que poderiam ser evitados.”
Fora do discurso oficial, a cobrança veio ainda mais forte da sociedade civil. Um ex-gari denunciou precariedade estrutural e falta de investimento: “Há problemas na qualidade estrutural da gerência e nas condições de trabalho, além da falta de concurso público.”
Enquanto isso, os números da LDO indicam pressão nas contas: arrecadação abaixo da meta e execução de despesas aquém do previsto. No papel, a prefeitura promete eficiência e modernização. Na prática, o retrato traçado pelos vereadores é outro — uma cidade ainda marcada por buracos, lixo acumulado, obras inacabadas e serviços que não chegam onde mais precisam.

