40% da arrecadação: operação da PF mostra que a internet é um grande negócio para o tráfico

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Preso. Lucas Santos Nepomuceno, filho do traficante Marcinho VP e irmão do rapper Oruam, chega sob escolta à sede da Polícia Federal: quadrilha escolhe as empresas que vendem sinal de internet — Foto: Gabriel de Paiva


A Polícia Federal prendeu ontem 20 pessoas em uma operação contra um esquema de fornecimento de internet controlado pelo Comando Vermelho (CV). Batizada de Operação Backbone, a ação expôs a dimensão de um negócio lucrativo para a facção, já que a receita com a prestação do serviço chegou a representar mais de 40% da arrecadação da organização criminosa em um dos seus principais quartéis-generais: o Complexo da Penha. Entre os presos estão parentes do rapper Oruam e do pai dele, um dos principais chefes do CV, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, além do vereador Fábio Silva (Podemos), apontado como dono e beneficiário de provedores de internet investigados.

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O esquema, que se espalha pelo estado e não se restringe às comunidades dominadas pelo CV, funciona por meio da imposição de um monopólio. Segundo as investigações, apenas provedores autorizados pelo tráfico podem operar nos territórios controlados pelo grupo, mediante o pagamento de uma “tarifa” mensal. Os concorrentes que não se submetem às regras impostas pela facção têm cabos de sua rede cortados e caixas de distribuição incendiadas.

A operação de ontem foi mais uma a revelar a suposta infiltração do crime organizado na política fluminense. O vereador Fábio Silva é suspeito de integrar o esquema como proprietário de provedores de internet ligados ao CV. Ele foi detido em Londrina, no Paraná.

Em seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio, Fábio Silva se apresenta, no site oficial da Casa, como empresário e gestor comunitário da Zona Norte. Sua biografia destaca a atuação como embaixador do projeto Onda Carioca, no Complexo do Chapadão.

Investigado. O vereador Fábio Silva (Podemos) em sua diplomação em 2024: PF diz que ele é dono de provedores de internet ligados ao CV — Foto: Gabriel de Paiva

No pleito em que conquistou uma vaga na Câmara, o parlamentar declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 1.618.612. Entre os bens informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estão participações societárias, dinheiro em espécie, crédito da venda de cotas de uma empresa, uma joia e um objeto de arte recebido de herança.

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O GLOBO procurou o gabinete do vereador, mas não obteve resposta. Desde setembro do ano passado, a Polícia Federal prendeu três deputados estaduais do Rio — dois deles respondem por ligação com o CV e um é investigado por fraudes em contratos na área da Educação —, além do deputado estadual eleito Márcio Canella, suspeito de lavagem de dinheiro. Todos negam as acusações.

Também foram presos ontem Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, mulher de Marcinho VP e mãe de Oruam, e Lucas Santos Nepomuceno, filho do casal e irmão do artista. Não é a primeira vez que Márcia e Lucas são investigados. Em abril, os dois foram alvos de uma operação da Polícia Civil por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro do CV. Márcia, que já tinha sido apontada antes como o elo entre traficantes presos e integrantes da facção soltos, nega ter vínculos com as empresas investigadas. Lucas, conhecido como Lucca, é suspeito de administrar recursos financeiros e lavar o dinheiro do grupo, segundo apurações.

Mesmo preso há quase três décadas e hoje em uma penitenciária federal, Marcinho VP continua a controlar atividades empresariais exploradas nos territórios dominados pelo CV, de acordo com a investigação. Os agentes federais descobriram que os lucros dos negócios ilegais chegavam à família dele por meio de empresas fantasmas arrecadadoras, operadores financeiros e contas de passagem, usados para dificultar a identificação da origem dos recursos.

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A PF afirmou ainda que os valores obtidos eram “dissimulados” em produtoras de eventos, empresas de publicidade e em imóveis de alto padrão, comprados com dinheiro vivo, além de aplicações em criptoativos. Na operação de ontem, os agentes estiveram em casas de alto luxo. Em uma delas, foram apreendidos quatro relógios da marca Rolex e grande quantidade de dinheiro em espécie. A PF não informou a quem pertencem os bens.

A investigação conseguiu ter acesso a registros contábeis da própria facção que permitiram dimensionar os lucros obtidos com o negócio. A exploração da internet se tornou uma das principais fontes de receita da quadrilha e tem motivado as guerras por expansão de territórios, já que cada comunidade dominada representa uma base de clientes e uma nova frente de arrecadação.

A Backbone focou o grupo que atua nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. Os investigadores identificaram 42 empresas usadas no esquema nessa região, entre provedores de internet, um escritório de contabilidade e firmas de fachada utilizadas para lavar o dinheiro da organização criminosa. Diante da investigação, o Supremo Tribunal Federal determinou as prisões e o bloqueio de R$ 558 milhões em bens e valores, além da suspensão das atividades econômicas das empresas citadas.

Luxo. Dinheiro e relógios de grife apreendidos durante a operação: Justiça determinou o bloqueio de R$ 558 milhões em bens — Foto: Divulgação/PF
Luxo. Dinheiro e relógios de grife apreendidos durante a operação: Justiça determinou o bloqueio de R$ 558 milhões em bens — Foto: Divulgação/PF

De acordo com a PF, os investigados poderão responder pelo crime de domínio social estruturado, quando grupos empregam violência, grave ameaça e coação para impor controle territorial. Eles também poderão ser autuados por extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública, interrupção de serviço telemático, desenvolvimento clandestino de telecomunicações e lavagem de dinheiro, além de outros crimes que possam ser identificados no decorrer das apurações.

Além dos 20 capturados ontem, três pessoas que tiveram a prisão preventiva decretada não foram encontradas pela PF. Na operação, foram apreendidos 14 veículos de luxo, 30 celulares, joias, seis armas e R$ 753 mil em espécie, além de dólares e euros.

Em nota, a corporação informou que vai pedir à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para interditar os serviços prestados pelas empresas investigadas. A Conexis Brasil Digital, sindicato que representa as maiores operadoras de internet do país, como Vivo, Claro e TIM, afirmou que não comenta operações policiais, mas ressaltou que as restrições impostas a empresas prestadoras de serviços vêm ganhando espaço e impactando o fornecimento e a qualidade dos atendimentos, “além de colocar sob ameaça a integridade das equipes das operadoras”.

“O setor defende uma ação coordenada de segurança pública envolvendo o Judiciário, o Legislativo e o Executivo, nos níveis federal, estadual e municipal, para garantir que as empresas, de forma livre e segura, possam oferecer suas soluções”, diz a nota.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/10/20/40percent-da-arrecadacao-operacao-da-pf-mostra-que-a-internet-e-um-grande-negocio-para-o-trafico.ghtml

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