“Ensaio sobre a cegueira”, na versão teatral, é de uma simplicidade aparente. Um palco sem objetos de cena marcantes, figurinos neutros, uma música daquelas que sabemos que conhecemos, mas jamais ouvimos. Aliás, a parceria de Rodrigo Portella com Federico Puppi é daquelas em que imaginamos que os dois se entendem por um olhar.

O livro é a obra-prima de um comunista daqueles que resistiram às circunstâncias da própria história: José Saramago. Não se sabe a origem da cegueira, nem como ou por que ela acontece. E muito menos por que a mulher do médico é a escolhida.
Assim, o Grupo Galpão, que constrói espetáculos grandiosos, escolhe um diretor externo que não lhe dá uma nova roupagem, mas mantém o conceito de um grupo coeso e coerente, com todos interpretando, com o mesmo destaque, os personagens escolhidos na adaptação.
Agora, a forma que Rodrigo Portella escolheu para nos fazer crer que o palco está repleto de pessoas é genial. A montagem oferece três modalidades de participação: um grupo fica com vendas nos olhos, portanto cego durante a maior parte da peça; outro participa com cegueira parcial; e um terceiro acompanha tudo da plateia.


Fui às três. E tive uma das maiores experiências da minha vida.
Na cena em que os cegos, prisioneiros, ficam amarrados a uma corda, esperando o resgate da comida, enquanto os carcereiros riem, me vi como uma pessoa escravizada ou em algum campo de concentração. Um arrepio de pavor, dor, enjoo.
E, quando vi a cena da plateia, percebi que a risada vinha de outro tipo de texto. Uma das maiores cenas da história do teatro para quem participa dela.
E há a mulher do médico, a única que não fica cega. Por que ela? Saramago não nos oferece uma explicação. Ela vê o que os outros não veem, testemunha a degradação humana e carrega o peso de enxergar sem conseguir impedir tudo o que acontece.
E o espectador? Também vê. Ou não, dependendo da experiência que escolheu viver no espetáculo do Grupo Galpão. Quem está de olhos vendados precisa confiar nos outros sentidos; quem tem a visão parcialmente comprometida percebe de outra maneira; quem está na plateia vê o que acontece diante de si. Três posições diferentes diante do mesmo horror.
A mulher do médico vê, posto que não ficou cega. O espectador vê, pois o teatro lhe dá essa possibilidade. Mas nenhum dos dois está a salvo do que vê. É aí que Rodrigo Portella faz uma escolha extraordinária: não se limita a nos contar a história de Saramago. Faz da própria condição de quem assiste parte da experiência teatral.

É essa capacidade de incorporar a plateia que faz do Grupo Galpão e de Rodrigo Portella dois dos maiores nomes do nosso panteão teatral.
O Grupo Galpão reúne Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones. Um elenco de artistas que constrói, junto com Rodrigo Portella, essa experiência teatral em que a participação do espectador é parte essencial do espetáculo.
A montagem já foi reconhecida com o prêmio de Melhor Espetáculo da APCA. Rodrigo Portella recebeu o Shell de Melhor Direção, e o trabalho também foi premiado pela APTR em Produção e com o Prêmio Marília Pêra. Fernanda Vianna concorreu ao Shell de Melhor Atriz, e Federico Puppi, ao de Melhor Música.
A experiência de ver o Grupo Galpão com Rodrigo Portella vai além de ir ao teatro. É, de cara, sacar como o espetáculo não caiu na armadilha de ser literal e está muito longe de se limitar ao dilema de traduzir ou trair. É a capacidade de artistas excepcionais entregarem o que esperamos: a mística da arte, capaz de nos fazer sentir com o coração e a mente.
Serviço:
Teatro Carlos Gomes
Sexta-feira, às 19h
Sábado e domingo, às 17h

