Mais do que um embate entre duas correntes do catolicismo, “Dois Papas”, de Anthony McCarten, é o encontro entre duas personalidades e duas maneiras de ver o mundo. Bento XVI, herdeiro da tradição beneditina e intelectual apaixonado pela música erudita, representa a preservação da doutrina. Jorge Bergoglio, jesuíta, amante do futebol, educador e missionário, traduz uma Igreja voltada para o diálogo e para a ação. Mais do que discutir os destinos da Igreja, a peça coloca em cena uma questão universal: qual é o papel de um homem, um simples mortal, escolhido para representar Deus na Terra?
A força da dramaturgia está justamente em humanizar essas figuras históricas. As dúvidas, os medos e as fragilidades dos dois papas nunca permanecem apenas no plano pessoal, mas refletem a responsabilidade de conduzir milhões de fiéis. O texto transforma diferenças de pensamento em um profundo exercício de escuta, mostrando que o bem da comunidade deve prevalecer sobre os desejos individuais.
A direção de Munir Kanaan conduz esse delicado equilíbrio sem tomar partido. Celso Frateschi interpreta um Francisco caloroso, espontâneo e acolhedor, enquanto Zécarlos Machado constrói um Bento XVI formal, contido e angustiado pelo peso da missão. Ao lado deles, Carol Godoy e Eliana Guttman ampliam esse universo ao representar, com sensibilidade, as mulheres que acompanham os protagonistas.


A encenação aposta na simplicidade para potencializar a palavra. O cenário branco, as projeções, a iluminação e a movimentação dos atores criam um espaço simbólico de purificação e reflexão, aproximando o público da intimidade dos personagens.
Bem diferente da versão cinematográfica, Dois Papas encontra no teatro a força do diálogo. As conversas entre Bento e Francisco — e de cada um com sua respectiva freira — revelam angústias que jamais são apenas individuais. Ao final, as dúvidas daqueles dois homens tornam-se também as nossas. É justamente nesse compartilhamento que renovamos nossa fé no teatro.



Conversamos com Zécarlos Machado, que interpreta Bento XVI, sobre os mais de 50 anos de carreira, a construção do personagem e a força da interpretação, independentemente do palco, da televisão ou do cinema.
1 – Ao completar mais de 50 anos de carreira, qual foi a experiência mais marcante da sua trajetória e que mais transformou você como ator e como pessoa?
Aprendi que o teatro é transformador por natureza. Trabalhar com autores como Oduvaldo Vianna Filho, Jorge Andrade, Plínio Marcos, Shakespeare, Molière e Bernard Shaw significou mergulhar profundamente na condição humana, e cada personagem acabou me transformando como ator e como pessoa. Se tivesse de destacar um trabalho, seria “Rastro Atrás”, de Jorge Andrade, dirigido por Eduardo Tolentino. Interpretar Vicente na fase adulta, enquanto meu filho, Tony Giusti, fazia o mesmo personagem na infância, foi uma experiência artística e afetiva inesquecível. No cinema, “Ação entre Amigos”, de Beto Brant, abriu um novo caminho na minha carreira e, na televisão, “Sessão de Terapia”, dirigida por Selton Mello, mostrou como a arte pode provocar reflexão e transformar a vida das pessoas. No fim, cada espetáculo, filme ou série deixou uma marca e ajudou a construir quem sou hoje.
2 – Você já interpretou personagens ligados à fé. O que essas experiências trouxeram para a construção do Papa Bento XVI?
Interpretar Abraão, em Gênesis, foi um dos trabalhos que mais exigiram preparação. O personagem demandou um mergulho na Bíblia, na teologia e na história das religiões. Ao longo da carreira, também vivi líderes religiosos em “Eu Receberia as Piores Notícias dos Teus Lindos Lábios” e “Apocalipse”, experiências fundamentais para construir Bento XVI. Além da pesquisa sobre o Vaticano, dos escritos do pontífice e de sua atuação à frente da Igreja Católica, a composição exigiu retratar um homem idoso, fragilizado pela saúde, mas de enorme densidade intelectual. Como acontece com todo personagem, essa construção nasceu da pesquisa, da observação e de muito trabalho.
3 – Entre teatro, cinema e televisão, onde você se sente mais à vontade? E qual personagem ainda sonha interpretar?
Tenho procurado conduzir minha carreira de forma aberta ao que a vida apresenta, e isso tem dado bons resultados. Hoje, tenho o privilégio de fazer os trabalhos em que acredito, conciliando o teatro com o cinema. Recentemente, participei de “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, vencedor de quatro Kikitos no Festival de Gramado, e de “A Conspiração Condor”, de André Sturm. Neste momento, meu principal foco é a trajetória de “Dois Papas”, que ainda tem um longo caminho pela frente. Quanto aos próximos personagens, prefiro não fazer planos rígidos. Acredito que cada trabalho chega no momento certo e dialoga com o artista e o ser humano que procuro ser.
4 – Depois de “Dois Papas”, o público costuma conversar com você sobre religião, espiritualidade ou questões de fé? O que mais aparece nesses encontros?
Os debates depois das apresentações costumam abordar temas muito variados. O público demonstra interesse pelas questões históricas e políticas do Vaticano, pelo momento vivido pela Igreja Católica durante a renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco, além de aspectos ligados à fé e ao processo de criação do espetáculo. A peça também desperta curiosidade por revelar facetas menos conhecidas dos dois papas, apresentando-os de forma mais humana e cotidiana. Esse olhar aproxima o público dessas figuras históricas e amplia a compreensão sobre suas personalidades e os desafios enfrentados pela Igreja naquele período. É muito interessante perceber como o espetáculo estimula o diálogo e faz com que as pessoas saiam do teatro querendo aprofundar essas reflexões.
5 – Depois de 50 anos de carreira, o que faz você aceitar um novo personagem? O que um papel precisa ter para despertar seu entusiasmo?
Antes de pensar no personagem, o que me atrai é o próprio projeto. Pergunto se a história merece ser contada, quais questões ela levanta e por que é importante naquele momento. A qualidade da dramaturgia e a relevância dos temas são o ponto de partida. Depois, o personagem ganha importância por ser o responsável por dar vida a essa narrativa. Outro aspecto fundamental é o processo de criação. Gosto de trabalhar com um elenco disposto a pesquisar, experimentar, discutir e construir o espetáculo coletivamente. Fazer teatro exige muito trabalho, mas também prazer, curiosidade e entrega. Quando há esse desejo compartilhado de investigar um texto e transformá-lo em cena, o processo se torna tão importante quanto o resultado final.
SERVIÇO:
Teatro TotalEnergies (antigo Teatro Adolpho Bloch, Rua do Russel, 804, Glória)
Até 5 de julho
Sexta e sábado, às 20h; domingo, às 14h (excepcionalmente, por causa do jogo Brasil X Noruega). Sessão extra: sábado (4/7), às 16h.


