- Aprendizado a partir dos erros das UPPs
- ‘Não existe receita de bolo’ em territórios ocupados
- Aprendizado melhor pensado a partir da base
- Cobrança e participação da sociedade na Educação
- Integração público-privada nas unidades médicas
- Alerta para ‘pandemia’ de acidentes de trânsito
- Sociedade civil pautando o debate político
A retomada dos territórios ocupados pelo tráfico e pela milícia; o investimento reforçado em educação básica com ênfase no ensino em tempo integral e a realização de parcerias público-privadas na saúde foram os principais temas abordados ontem no fórum “Conversas para um Rio de futuro”, realização da Band e da BandNews em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) — uma preparação para as eleições 2026.
O resultado das discussões será transformado num documento a ser utilizado nas sabatinas realizadas pela emissora com os candidatos ao governo do Rio. O fórum tem parceria editorial do TEMPO REAL.
Ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio e consultor em segurança pública, o capitão Rodrigo Pimentel destacou os números alarmantes que mostram cerca de quatro milhões de pessoas no Estado do Rio vivendo em áreas dominadas pelas milícias e pelos traficantes.
“A cartilha de segurança pública do governo federal fala em seguir o dinheiro, policiar rodovias, cuidar da questão prisional e investigar os homicídios para combater a violência. Mas deixa de lado um ponto que considero fundamental: a reocupação dos territórios dominados pelos bandidos, Hoje, a venda de droga é somente uma fração dos lucros obtidos por eles, que exploram serviços, extorquem moradores. Quando se fala em seguir o dinheiro dos bandidos, por exemplo, é preciso lembrar que a origem dele está no território. É onde tudo começa”, diz o caveira.
Aprendizado a partir dos erros das UPPs
O delegado Fabrício Oliveira, da Coordenadoria Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a tropa de elite da Polícia Civil, concorda com Pimentel e vai além. Segundo ele, é preciso um novo projeto como o das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), em que as autoridades aprendam com os erros ocorridos antes, num projeto celebrado no início e arruinado no final.
“Por exemplo, avisar das operações policiais, como feito antes, é um erro. Houve uma metástase da criminalidade, que se transferiu para outras regiões do estado, lá se instalou e depois voltou. As autoridades permitiram aos criminosos escolher o momento do confronto. Se abrir mão de utilizar a força, o estado é obrigado a aceitar a barbárie”, comentou ele, lembrando ainda que o Estado precisa ser mais ágil: “Enquanto esperamos licitações para uso de drones que demoram, temos relatos de bandidos do TCP (Terceiro Comando Puro) e CV (Comando Vermelho) participando da guerra da Ucrânia (como mercenários) e voltando com conhecimento para usar esses equipamentos para lançar explosivos”.
‘Não existe receita de bolo’ em territórios ocupados
Diretora-presidente da Instituto de Segurança Pública, Bárbara Caballero acrescenta que “não existe receita de bolo” quando se trata de territórios ocupados pelos bandidos. Ela diz que é necessário um estudo caso a caso, e defende que as estatísticas precisam ser analisadas além dos número.
“Em muitos lugares, onde os bandidos dominam, existe a subnotificação. Às vezes, os números estão baixos, mas a sensação de insegurança está lá no alto”, comenta.
Rodrigo Pimentel cobra também uma participação mais efetiva do Judiciário no combate ao crime:
“No mundo real, só fica preso por um bom tempo quem está condenado a mais de oito anos de prisão. Estados como o Piauí, que dobrou o número de presos, estão nadando de braçada na questão da segurança”, diz.
Fabrício Oliveira corrobora o discurso e diz que o estado prende pouco e prende mal.
“Bandidos de outros estados vieram se refugiar aqui. Estão espalhados para os complexos. O Rio de Janeiro tem que se tornar um lugar péssimo pra eles. Tem que acontecer o contrário. Os bandidos daqui é que têm que ter medo de ficar no Rio”, defende.
Aprendizado melhor pensado a partir da base
Já durante o debate no painel Educação, a presidente do Instituto Salto, Cláudia Costin, disse que o Estado precisa olhar com mais carinho para a base do sistema educacional. Normalmente, os governos estaduais tomam para si a responsabilidade do chamado ensino médio, com o fundamental sendo cuidado pelos municípios.
“Vários estados, como Ceará, Goiás e Paraná, passaram a apoiar aos municípios na questão do ensino. Os alunos chegam ao ensino médio com dificuldades graves em matérias como Português e Matemática. Sem uma base, fica difícil evoluir. Também defendo o avanço cada vez maior em direção ao ensino em tempo integral. Países como os Estados Unidos mantém o aluno na escola por períodos de sete horas. Em países da Ásia, esse período chega a nove horas”, relata a educadora, uma das maiores especialistas do tema no país.
Cobrança e participação da sociedade na Educação
A diretora-executiva do Movimento EducAção Rio, Carla Jucá, diz que é necessária a participação da sociedade, cobrando do governo melhorias na educação.
“Em 2009, estávamos, como hoje, no penúltimo lugar de avaliação entre todos os estados brasileiros. Com um bom projeto e seriedade, chegamos ao quarto lugar em 2013. Mas não houve continuidade. Recursos não são o problema. A questão está na gestão. Somos o único estado que regrediu”, lamenta.
O gerente de Educação Básica da Firjan SESI, Vinicius Mano, diz que a entidade começou a articular a educação básica com a educação profissional desde 2010, obtendo bons resultados.
“Nossa preocupação é formar alunos que sejam criativos e inovadores”, descreve.
Cláudia Costin chamou a atenção ainda para o que considera uma “ilusão fofa”, de maximizar o tempo livre das crianças em detrimento da escola.
“Que se faça a alfabetização de forma lúdica. Brincar com intencionalidade pedagógica. Num mundo cada vez mais digital, em que se fala de empreendedorismo, é preciso estimular o jovem a empreender sua própria vida, com aulas mais discutidas, interessantes”, avalia.
Carla Jucá alerta ainda para a necessidade de avaliação constante do sistema educacional.
“É preciso entender o aluno como ele é. As avaliações precisam ser bimestrais, trimestrais no máximo, para identificar o que não está funcionando e encaminhar o aluno para uma recomposição em tempo hábil”, sugere.
Para Vinicius Mano, a conexão com o mundo real é outro ponto a ser analisado com atenção.
“Temos um debate: a educação profissional de alguma forma afasta o aluno do caminho acadêmico? Não! A educação profissional mostra a aplicação prática do que ele aprendeu”, explica.
Integração público-privada nas unidades médicas
Durante o debate no painel Saúde, chamou a atenção a necessidade de integração entre as esferas pública e privada. A presidente do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, Fernanda Freire Tovar-Moll, diz que tem parcerias em mais de 80 países, trocando informações e pesquisas com profissionais das áreas pública e privada. Um desses exemplos é a pesquisa sobre os efeitos da Zika em doenças neurológicas.
“Concluímos que houve diferenças nas alterações de crianças afetadas no Nordeste e no Sudeste, provavelmente devido a presença de uma toxina ligada ao período de seca. Acompanhamos vários casos ao longo de dez anos, monitorando sintomas não tão aparentes quanto a microcefalia, mas que podem se manifestar ao longo do desenvolvimento da criança”, exemplifica.
A médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo, célebre por sua atuação na Fiocruz e na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), afirma que as oportunidades estão prontas para serem aproveitadas:
“O Rio é um celeiro de conhecimento e infraestrutura. Pode ser um exemplo para o país. É dono da maior rede de hospitais federais do país, tem o Instituto Nacional do Câncer e outros. O que falta é interlocução das autoridades, que há muito não existe”, diz a médica, que chama atenção também para os cuidados com saúde básica e a questão do saneamento básico: “Vi essa semana que nasceram golfinhos na Baía de Guanabara. Isso é uma esperança de futuro, porque a questão da poluição pode ser combatida. E a saúde passa pela questão do saneamento”.

Alerta para ‘pandemia’ de acidentes de trânsito
Diretor Médico do Hospital Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o infectologista Alberto Chebabo também destacou a importância das parcerias público-privadas na saúde. Ele lembrou que em sua unidade foi feito um esforço hercúleo que permitiu o funcionamento de cem leitos de UTI durante a pandemia.
“Os recursos existem. Precisam ser bem utilizados”, analisa o médico, que chamou a atenção para um dado que considera alarmante: o aumento do número de acidentes de trânsito envolvendo ciclistas e motociclistas: “Chegou ao ponto de no Hospital Miguel Couto haver 94 pessoas esperando cirurgias. Temos traumas encefálicos, mutilações. E isso requisita mais leitos para a ortopedia, enquanto retira de pessoas com infarto, por exemplo. É uma das questões em que a saúde e a segurança pública se confundem, que precisam ser pensadas juntas”.
Sociedade civil pautando o debate político
O diretor-geral de conteúdo do Grupo Bandeirantes, Rodolfo Schneider, diz que o fórum é importante para que a sociedade possa ser mais participativa no processo eleitoral.
“É a chance de pautar o debate. Trazemos cabeças pensantes para identificar problemas e oferecer soluções em busca de um projeto de estado, não um projeto apenas de governo, como se corre o risco, devido à polarização política”, analisa Rodolfo.
Com informações da fonte
https://temporealrj.com/band-debate-eleicoes-2026/

