Dia de Santo Antônio: o Santo narra a sua própria procissão

Tempo de leitura: 6 min


A procissão começou a andar e aquilo significava que o meu suplício ia começar. Claro que era um sacrifício infinitamente menor do que aquele do monte Calvário, mas não deixava de ser difícil para mim, um simples santo da igreja católica.

Anualmente, sempre na mesma data, 13 de junho. Há anos era a mesma coisa. Dia do padroeiro da cidade: eu, Santo Antônio. Para a maioria da população, era dia santo. Para uns poucos ateus, era apenas um feriado a mais.

Ao longo do tempo, os padres mudavam, as beatas idosas eram substituídas por outras mais novas, mas ninguém se lembrava de trocar o horário da procissão. Poderia ser ao entardecer, ou quiçá no início da noite. Sem dúvida, sob uma brisa fresca e o luar substituindo o sol abrasador, a procissão noturna seria mais agradável. Todos ganhariam. E, entre esses todos, eu, o homenageado, sendo o mais velho entre os presentes, seria o mais beneficiado. Afinal, no alto do andor, a minha cabeça de madeira policromada é a que mais recebe os inclementes raios solares.

Outra coisa que me incomoda e deixa enjoado é o balançar do andor. Apesar de estarmos no interior, muito longe do litoral, aquele andor sempre balançou como uma jangada em mar revolto. Será que nunca passou pela cabeça de nenhum cristão daquela cidade que os seis carregadores da charola deveriam ser da mesma estatura, com os ombros nivelados, facilitando a minha vida numa caminhada mais suave e uniforme? Nunca, em tempo algum, e olhem que estou nesta procissão há muito mais de meio século, alguém se preocupou em amenizar o meu balançado. Aliás, não poucas vezes eu tive a impressão de que o povo que me acompanha fica muito mais ligado nas cantorias sacras e nas músicas da banda de música municipal do que neste pobre coitado se jogando de um lado para o outro, sob estas vestes quentes como o diabo. Cruzes, Senhor, me perdoe, pois falei o nome daquele anjo perdido. Foi um lamentável descuido. Deve ter sido efeito do sol nos meus miolos.

Vejam que ainda não contei da preparação do evento, quando umas mãos desconhecidas me tiram do meu nicho na igreja, onde fico quietinho o ano inteiro, e me limpam com uma bucha molhada e áspera, e depois me vestem com roupas novas cujas costuras recentes me pinicam o corpo inteiro. Mas vou deixar de lamúrias, pois, realmente, eu fico feliz com o carinho que me devotam e pela oportunidade de ver as novidades da cidade, que continua pequena, mas a cada ano mais bonita.

O cortejo evoluiu e já percorremos toda a rua do Correio. Adentramos na rua do Matadouro. Sei que essas ruas agora têm nomes de falecidos políticos, mas todo mundo continua a chamá-las pelos antigos nomes. Por que insistem em mudar os nomes consagrados pelo uso?

Mas deixemos essas digressões urbanistas e voltemos a nos concentrar na nossa procissão, que já dobramos a esquina do galpão do Gerador de Luz e na curva – ô povo sem noção! -,

justamente na curva resolveram trocar os cansados carregadores do andor por um novo sexteto, e quase que me jogaram nos paralelepípedos do calçamento. Desta vez, escapei por pouco, porque o balançado foi pior do que aqueles das tradicionais barcas do parque de diversões montado no oitão da igreja.

Agora, já estamos no meio da avenida do Cinema (que, dizem, vai falir por conta de um tal Netflix), sem dúvida a mais bonita da cidade e já sou capaz de prever o que vai acontecer ao seu final: alguns rapazes vão se levantar das suas mesas no bar da praça do Comércio, e virão para a porta do estabelecimento fingindo me prestigiar. Na verdade, vão olhar para as namoradas na procissão, no que serão retribuídos pelos olhares furtivos das belas moçoilas desta abençoada cidade, que até meu nome tem: Riacho de Santo Antônio. Não me zango com isso. Entendo que faz parte do meu trabalho de casamenteiro.

Ufa, já estamos retornando e, próximos da nossa igreja, ouvimos os sinos badalando ao anunciar o fim de mais uma procissão em minha homenagem. Reconheço que estou ficando um chato questionador. Deve ser coisa da idade. Confesso, todavia, que reclamo, mas na verdade adoro tudo isso.

Logo irei descansar e apesar dessas rabugices estarei feliz com a demonstração de carinho desse povo ordeiro. A procissão é programada e realizada com tanto desvelo e fé que, acredito, ali o único pecador sou eu, que fico egoisticamente me lamentando ao invés de agradecer a todos os fiéis e, principalmente, reconhecer o árduo trabalho dos meus carregadores anônimos.

Hoje, ao voltar para o meu nicho na igreja, como faço todos os anos, sei que esquecerei os contratempos do dia e rezarei rogando aos céus proteção divina para esse povo bom e querido, que me faz pecar pelo orgulho que tenho dele.

E, ao apagarem as luzes da igreja, mais uma vez dormirei sonhando com a procissão do próximo dia 13 de junho.



Com informações da fonte
https://temporealrj.com/dia-de-santo-antonio-narra-sua-propria-procissao/

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *