Tontura recorrente costuma ser chamada de “labirintite” no Brasil. Na prática, a maioria desses casos não tem origem no labirinto. Muitas vezes, o problema está no cérebro – e o nome correto é enxaqueca vestibular
Poucos sintomas geram tanta confusão quanto a tontura. Diante de episódios repetidos, é comum o paciente receber o rótulo de “labirintite crônica” e passar anos tratando uma condição que, na verdade, pode ser outra.
Esse erro de diagnóstico não é raro – e tem impacto direto na qualidade de vida, porque leva a tratamentos inadequados e pouca melhora dos sintomas.
O mito da labirintite crônica
A labirintite, no sentido médico estrito, é uma inflamação do labirinto, geralmente de origem infecciosa, que costuma ser aguda e autolimitada. Ou seja, não é uma condição que se arrasta por meses ou anos. Mesmo assim, o termo virou um “guarda-chuva” para descrever praticamente qualquer tipo de tontura.
O resultado é que muitas pessoas convivem com crises recorrentes sem diagnóstico correto.
Na maioria dos casos de tontura persistente, a causa não está no ouvido interno.
A verdadeira causa por trás da tontura
Entre as causas mais comuns de tontura recorrente está a enxaqueca vestibular, uma condição neurológica relacionada à enxaqueca tradicional.
Ela pode se manifestar com vertigem, sensação de desequilíbrio, instabilidade ou cabeça “leve”, muitas vezes sem dor de cabeça associada. Isso é o que mais confunde – tanto pacientes quanto profissionais. Crises podem durar minutos, horas ou até dias e podem ser desencadeadas por estresse, alterações do sono, estímulos visuais ou alimentares.
Por não apresentar o quadro clássico de dor, a enxaqueca vestibular frequentemente passa despercebida.
Diagnóstico certo muda tudo
Diferenciar uma doença do labirinto de uma condição neurológica é fundamental. O tratamento é completamente diferente.
Enquanto problemas do ouvido podem exigir medicamentos específicos ou reabilitação vestibular, a enxaqueca vestibular responde melhor a estratégias neurológicas, incluindo controle de gatilhos, ajuste de hábitos e, em alguns casos, medicação preventiva.
Quando o diagnóstico é correto, o paciente costuma apresentar melhora significativa – muitas vezes após anos de tentativa frustrada com tratamentos inadequados.
Tontura não é tudo igual. E chamar tudo de “labirintite” pode atrasar o cuidado certo.
Entender a causa real é o primeiro passo para recuperar o equilíbrio – no corpo e na vida.
Prof. Dr. Marcelo Zalli
CRM/SC 17.333 | RQE 13.326
Neurologista
Professor Titular de Neurologia na Universidade do Vale do Itajaí
Membro da Brazil Health

