Durante a semana de pré-abertura da Bienal, Veneza passa a operar como um centro gravitacional da arte contemporânea. Os vaporetos circulam lotados de artistas, curadores, colecionadores e jornalistas carregando catálogos debaixo do braço. Conversas sobre pavilhões atravessam restaurantes, filas, pontes e corredores de hotéis.
Foi nesse ambiente que visitei a edição de 2026, concebida pela curadora camaronesa Koyo Kouoh, morta um ano antes da abertura. Primeira mulher africana convidada a dirigir artisticamente a Bienal de Veneza, Kouoh deixou estruturado o conceito desta edição, posteriormente desenvolvido por sua equipe curatorial. Entre os profissionais responsáveis por levar o projeto adiante está a brasileira Diane Lima, além de curadores e pesquisadores que colaboravam diretamente com Kouoh na construção da mostra.
Esta foi minha quarta ou quinta ida à Bienal de Veneza. E talvez nunca tenha sentido de maneira tão evidente o impacto provocado pelo excesso de imagens, sons, vídeos, instalações e discursos concentrados num mesmo espaço.
Vi trabalhos muito fortes, a exemplo do pavilhão de Veneza. A proposta partia de algo extremamente simples: moradores da cidade apresentavam objetos pessoais acompanhados de suas histórias. A montagem privilegiou temas como memória, pertencimento e vida cotidiana. Havia ali uma humanidade muito poderosa.
O pavilhão da Espanha também ficou na minha cabeça. Uma instalação genial construída a partir de milhares de cartões-postais criava uma espécie de arquivo sentimental da civilização. Família real, festas populares, lembranças turísticas, paisagens, pequenos acontecimentos domésticos. Uma síntese da experiência humana através daqueles fragmentos de imagem.
Também me impressionaram os pavilhões da Arábia Saudita, da Índia, do Japão, da China e da Argentina. Muitos trabalhos pareciam interessados em instaurar outra relação com o tempo, a permanência e a imersão. No caso da artista saudita que organizou quase 19 mil pedras numeradas para construir um grande mosaico, o que me surpreendeu foi a dimensão do gesto e da dedicação obsessiva a uma única ideia.
No entanto, em determinado momento da visita, passei a perceber uma sensação de saturação. Não estou falando da qualidade dos trabalhos, vi artistas extraordinários. A questão era outra. Existe um ponto em que a quantidade de obras, vídeos, sons, textos e estímulos começa a comprometer a própria capacidade de absorção do visitante.
Saí algumas vezes dos pavilhões centrais com a sensação de que meu cérebro já não conseguia processar o que eu estava vendo. E talvez exista aí um retrato bastante preciso do nosso tempo. Porque a sensação de fragmentação que atravessa a Bienal hoje não nasce apenas das escolhas curatoriais, ela também reflete a maneira como passamos a experimentar o mundo contemporâneo: de forma contínua, acelerada, sobreposta e dispersa.
A Bienal parece absorver a mesma lógica de excesso que hoje orienta a vida. Vivemos mergulhados numa sucessão de imagens, informações, tragédias, opiniões, vídeos e outros estímulos visuais. Tudo chega ao mesmo tempo e exige atenção imediata. Tudo nos parece urgente. E, em Veneza, isso se dá também no campo da arte.
Os grandes núcleos curatoriais tentam dar conta simultaneamente de guerras, migrações, colonialismo, crise ambiental, espiritualidade, tecnologia, violência, memória e deslocamentos históricos. É compreensível que seja assim, a Bienal de Veneza continua sendo uma vitrine global das tensões do presente.
Mas caminhar durante horas e dias por esse acúmulo contínuo de imagens acaba produzindo um desgaste perceptivo. Chega um ponto em que o olhar perde profundidade. Você continua vendo obras, lendo textos, ouvindo sons, mas já não elabora na mesma intensidade. A experiência deixa de ser contemplativa e passa a ser afetada por uma certa fadiga visual.
Não por acaso, me sinto tão atraído pelas mostras paralelas espalhadas pela cidade. A impressão que tenho é de que esses espaços, fora dos eixos centrais da Bienal, ainda preservam algo que às vezes se perde nos grandes pavilhões: a possibilidade de permanência diante da obra. São percursos mais livres, com mais respiro, que escapam um pouco da lógica monumental e acumulativa dos pavilhões centrais. É nesses intervalos que a arte consegue recuperar algo fundamental: a capacidade de desacelerar o olhar.
No fim, a sensação que ficou foi de uma tentativa de compreender o mundo num momento em que o excesso de informação afeta nossa capacidade de sentir, de lembrar e elaborar. Talvez por isso alguns dos trabalhos que mais permaneceram comigo tenham sido justamente aqueles que pediam silêncio, pausa e tempo.

