Expansão do Comando Vermelho em Paraty afeta moradores, comércio e pontos turísticos

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Pichação em alusão ao Comando Vermelho em Paraty — Foto: Gabriel de Paiva


A tarde chuvosa no dia 23 de janeiro manteve vazia a Praça da Paz, em Paraty, na região da Costa Verde. O local abriga a primeira pista de skate da cidade, inaugurada em 2016, um parquinho e uma quadra de futebol cercada por alambrado. Apenas urubus estavam presentes no local, onde a grama alta completava o cenário de abandono. Segundo moradores mais antigos, a praça está cada vez mais distante da paz citada no nome. Ao redor dela, o tráfico de drogas se expande há mais de 15 anos em dois bairros caiçaras, expostos à violência e à marginalização do município considerado Patrimônio Mundial pela Unesco.

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Distantes 13 minutos a pé do Centro Histórico de Paraty, as comunidades da Ilha das Cobras e Mangueira, também vizinhas do aeroporto, são separadas apenas pela Rua Central — entre os moradores, a referência dela é uma tenda de açaí, montada em frente à praça. Ambas começaram a ser invadidas por facções entre 2010 e 2011, período em que as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) eram implementadas em favelas da capital fluminense dominadas pelo tráfico. Nesse período, o Comando Vermelho atuava na Ilha, enquanto o Terceiro Comando Puro ocupava a Mangueira.

Os confrontos entre esses grupos eram rotina, como conta Alice (nome fictício), caiçara da Mangueira. Ela diz ter perdido ao menos 20 amigos nessa época, todos entre 13 e 18 anos, envolvidos com uma das facções. Um dos mais novos, segundo ela, foi morto num mercado do bairro. Dias antes, ele havia confidenciado o desejo de deixar o crime, mas ainda não tinha dinheiro suficiente para isso, principalmente porque precisaria abandonar a cidade sozinho.

— Minha casa vivia cheia de amigos. Ela foi se esvaziando, não sobrou ninguém. As pessoas acham que Paraty se resume ao Centro Histórico, às praias e ilhas, mas ninguém sabe o que acontece do outro lado. Quando você chega à praça (da Paz), percebe que o clima muda. Existe um silêncio, um vazio, é muito triste. Eu guardo um monte de histórias desse lugar, acompanhei a mudança, vi muita gente morrer. Já fiquei presa em tiroteio enquanto ia para a escola, encontrei gente morta pelo chão — afirma a jovem.

Em 2021, o Comando Vermelho tomou o controle da Mangueira com o assassinato de chefes da facção rival. A mudança na gestão gerou uma série de expulsões de moradores, incluindo Alice e sua família. Há três anos, eles foram obrigados a deixar a casa onde moravam, além de terem perdido um pequeno comércio que mantinham por lá.

— Eles chegaram armados, nos deram 24 horas para ir embora. Saímos com a roupa do corpo e nossos cachorros. Foi muito duro. Imagina deixar a casa que você lutou a vida toda para construir. A gente não pode mais voltar, mas, mesmo que pudéssemos, não voltaríamos, não sabemos o que pode acontecer. Mas é meu bairro, é onde eu nasci, fiz amigos. A tristeza maior é saber que não precisava ter chegado a esse ponto. Não há políticas públicas voltadas para nós. É só esquecimento — completa.

Pichação em alusão ao Comando Vermelho em Paraty — Foto: Gabriel de Paiva

As expulsões continuam a acontecer na cidade, que já é majoritariamente dominada pelo Comando Vermelho. A 167ª DP investiga uma que aconteceu no final do ano passado, no Morro do Ditão, localizado na Rodovia Rio-Santos e distante cerca de 8 quilômetros do centro de Paraty. Traficantes ameaçaram a moradora da casa com uma arma, acusando-a de ser informante.

Também morador da Mangueira, Jorge (nome fictício) relata que o bairro piorou muito nos últimos anos, principalmente pelo aumento da venda de drogas nas ruas internas. Ele descreve os traficantes reforçando que a maioria é adolescente — no ano passado, 48 menores foram apreendidos em flagrante na cidade; em 2024, foram 28, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). Preocupado com essa situação, ele decidiu mandar os filhos para outro estado.

— Está muito ruim morar aqui. O tráfico está tomando tudo. Eu até evito passar por algumas ruas, e olha que eu conheço todo mundo. Canso de ver carro de bacana entrando aqui, tudo para o pessoal comprar droga. Gastam R$ 500, R$ 600 de uma vez só. Estava com medo de que meus filhos se envolvessem ou que acontecesse alguma coisa contra eles. Achei melhor mandá-los para outro estado, onde também tenho família — explica.

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Sob anonimato, um policial civil da região explica que o Comando Vermelho, agora estabilizado em Paraty, ampliou a exploração das atividades econômicas nos bairros, assim como acontece na capital. A presença dessa facção também afeta o funcionamento de serviços básicos de algumas localidades, como no Condado, distante cerca de cinco quilômetros do centro. Um professor da rede pública comenta que, nessa comunidade, ônibus municipais já não acessam mais o interior, mantendo circulação apenas na rua principal.

Recentemente, a atuação dessa facção ultrapassou as comunidades e chegou a áreas turísticas da Praia do Sono e Trindade, conhecidas pela cultura “hippie”. Notícias locais dão conta de que traficantes estariam extorquindo barqueiros e donos de estacionamento, além de cobrar indevidamente turistas por acesso aos locais. A situação foi resolvida pelos próprios caiçaras, que se impuseram aos criminosos, com quem tinham parentesco.

Na 167ª DP, há ao menos seis investigações sobre a exploração territorial do Comando Vermelho na região. No entanto, agentes expõem dificuldades para concluí-las, principalmente pela falta de depoimentos. Os crimes já registrados envolvem as localidades de Paraty-Mirim — onde traficantes estariam cobrando percentual na venda de terrenos e imóveis —, Costeira, Ponta Negra, Praia de Cajaíba, Juatinga e Calhau. Há também suspeita de extorsão a empresas de turismo no Cais de Paraty, de onde partem escunas de passeio. Já no Centro Histórico, marco turístico, ainda não há denúncias.

A exposição desses crimes motivou uma reunião pública na Câmara Municipal no dia 19. Entre os temas, estavam reclamações sobre a falta de um posto de polícia comunitária em Trindade, a ausência de atuação do ICMBio, responsável por reservas ambientais em Paraty, e a violência do tráfico. Presente nesse encontro, o prefeito Zezé (Republicanos) lamentou a falta de um juiz no município, enquanto o comandante da Segunda Companhia Independente de Polícia Militar, tenente-coronel Lourival Belitardo, localizada na Ilha das Cobras, anunciou reforço de 90 agentes a partir de março.

Além de narrarem a violência em Paraty, Alice e Jorge também apontam outros problemas da cidade, como a alta nos aluguéis.

— Um casa de dois quartos custa mais de R$ 2 mil por mês. Se consideramos que a maioria ganha só um salário mínimo, percebemos que é inviável a vida por aqui. Nós, paratienses, não temos acesso aos equipamentos culturais da cidade, ninguém frequenta o Centro Histórico por lazer, mas somos nós que fazemos com que funcione. Vivemos do lado de cá, à margem — diz Alice.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/02/09/expansao-do-comando-vermelho-em-paraty-afeta-moradores-comercio-e-pontos-turisticos.ghtml

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