Por Jefferson Lemos*
De “Choque de Ordem”, lançado por Eduardo Paes em 2009, à Operação Verão 2025/2026, encerrada há poucos meses, a Prefeitura do Rio coleciona operações para tentar organizar a orla. Agora, sob o comando de Eduardo Cavaliere, a aposta da vez é a “Tolerância Zero”. Mudam os nomes, mudam os slogans, mas o roteiro parece ser sempre o mesmo: grandes ações de impacto, forte divulgação e a promessa de que, desta vez, a desordem será definitivamente controlada.
O roteiro é mais manjado que final de novela: o calçadão aperta, moradores reclamam, turistas são assaltados e, num passe de mágica, as viaturas aparecem com giroflex ligado na Avenida Atlântica. Agentes marchando na areia, caixas de som apreendidas, discursos inflamados nas redes sociais e promessa de ordem. Lindo na tela do celular, mas pouco eficaz se não vier acompanhado de fiscalização permanente. O carioca já cansou de assistir ao eterno “enxugar gelo”.
A fórmula se repete há quase duas décadas. Em 2025, a gestão Eduardo Paes publicou um decreto reorganizando as regras da orla e endurecendo a fiscalização. Vieram operações, apreensões e protestos de trabalhadores da praia e ambulantes. Depois, a Operação Verão 2025/2026. Agora, surge a “Tolerância Zero”. O problema é que nenhuma dessas iniciativas conseguiu romper o ciclo do velho jogo de gato e rato: a fiscalização aperta durante a operação e a irregularidade volta quando o efetivo diminui.
O preço dessa descontinuidade foi alto. O que antes era visto como desordem urbana passou a conviver com denúncias e investigações sobre a atuação de grupos criminosos na economia informal da orla, incluindo extorsão de barraqueiros, exploração do comércio irregular e disputa pelo controle de pontos em áreas públicas. Enquanto o poder público atua por ondas, quem vive da ilegalidade aprende a esperar a maré baixar.
O anúncio de fiscalização 24 horas e de 69 pontos de bloqueio tenta transmitir a imagem de uma prefeitura implacável. Mas o verdadeiro desafio nunca foi lançar uma nova operação, e sim manter o ordenamento como política permanente. Se a “Tolerância Zero” repetir a lógica das anteriores, será apenas mais um capítulo de uma história que o carioca conhece de cor: muda o nome da operação, mas o filme continua o mesmo.
- *Jefferson Lemos é jornalista e comentarista político

