As chamadas “terras raras” voltaram ao centro do debate internacional após entrarem na pauta do Congresso Nacional e das discussões entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Apesar do nome, esses elementos não são exatamente “terras” e tampouco tão “raros” na natureza. Ainda assim, se tornaram estratégicos para a indústria tecnológica e para a disputa econômica entre potências globais.
O Brasil aparece como peça-chave nesse cenário por possuir a segunda maior reserva mundial desses minerais, fundamentais para a produção de celulares, carros elétricos, turbinas eólicas, chips, equipamentos militares e diversas tecnologias de ponta.
Especialistas definem as terras raras como as “vitaminas da indústria tecnológica”, já que pequenas quantidades desses elementos são suficientes para garantir eficiência, potência e desempenho em equipamentos modernos.
“Esses elementos funcionam como vitaminas da indústria tecnológica”, apontam pesquisadores do setor, destacando que materiais como neodímio, praseodímio e disprósio são essenciais para motores elétricos, baterias e dispositivos eletrônicos.
O que são terras raras?
As terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos da Tabela Periódica, formado pelos 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio.
O geólogo Alexandre Magno Rocha, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), explica que esses elementos possuem comportamentos químicos muito parecidos, o que dificulta sua separação industrial.
“As terras raras são uma família com uma característica curiosa: todos parecem irmãos gêmeos. Vivem juntos nas rochas e se comportam de forma tão parecida que a própria natureza tem dificuldade de separá-los — e a indústria também”, afirmou.
Segundo especialistas, justamente essa dificuldade de separação é o que torna o processamento extremamente caro e tecnológico. Por que elas são tão importantes? As terras raras estão presentes em diversos itens do cotidiano, mesmo que muitas pessoas nunca tenham ouvido falar delas.
Esses minerais são utilizados em: celulares;
computadores;
motores de carros elétricos;
turbinas de energia eólica;
equipamentos médicos;
sistemas militares;
baterias;
chips e semicondutores.
Sem esses elementos, muitas tecnologias modernas simplesmente perderiam eficiência ou deixariam de funcionar. O grande desafio: separar os minerais O maior gargalo da indústria de terras raras está justamente na etapa de separação química.
Segundo Ysrael Marrero Vera, pesquisador do CETEM/MCTI, o processo exige dezenas ou até centenas de etapas químicas para atingir a pureza necessária. “O problema é que essa seletividade é pequena. Ou seja, o reagente não separa perfeitamente um elemento do outro de uma vez só.
Por isso, a separação precisa ser repetida muitas vezes, em dezenas ou até centenas de etapas, até atingir a pureza necessária”, explicou. Em alguns casos, elementos considerados mais raros e pesados podem atingir valores superiores a US$ 15 mil por quilo. Terras raras leves e pesadas No mercado internacional, as jazidas são avaliadas não apenas pela quantidade de terras raras, mas também pelo tipo encontrado.
As chamadas “leves”, como lantânio, cério e neodímio, são mais abundantes. Já as “pesadas”, como disprósio, térbio e lutécio, possuem maior valor estratégico por serem fundamentais para tecnologias mais avançadas e mais difíceis de serem isoladas. Impacto ambiental preocupa especialistas A exploração das terras raras também levanta alertas ambientais importantes. O principal problema não está apenas na mineração, mas principalmente nas etapas químicas necessárias para refinar os materiais.
Entre os principais impactos ambientais estão:
Geração de resíduos radioativos;
uso de substâncias tóxicas;
consumo elevado de água e energia;
contaminação ambiental;
desmatamento.
Além disso, alguns minerais utilizados no processo contêm tório e urânio, exigindo controle radiológico rigoroso.
Por que o Brasil é estratégico?
O Brasil reúne condições geológicas consideradas raras pelos especialistas. Regiões como Minas Gerais e Goiás concentram grandes reservas formadas por antigas atividades vulcânicas e processos geológicos que ocorreram ao longo de milhões de anos. Segundo o professor Caetano Juliani, da USP, o chamado Cinturão de Araxá-Catalão é considerado uma das maiores faixas contínuas de terras raras pesadas fora da China.
Além disso, pesquisadores apontam que o país possui reservas em argilas iônicas, consideradas mais fáceis e baratas de explorar. “Nelas, as terras raras não formaram um cristal duro. Elas ficam apenas ‘grudadas’ na superfície da argila. É como se estivessem presas por um ímã fraco”, explicou o pesquisador Fernando Landgraf, da Poli-USP.
O Brasil ainda depende de tecnologia estrangeira Apesar da riqueza mineral, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para transformar o minério em produtos industrializados. Hoje, a China domina cerca de 90% do processamento mundial de terras raras e concentra a maior parte das refinarias.
“O Brasil domina o primeiro capítulo da história — encontrar o minério. O desafio agora é escrever os capítulos seguintes: a química fina, a purificação e a industrialização que transformam rocha em tecnologia e tecnologia em soberania”, afirmou Alexandre Magno Rocha.
O professor Emiliano Castro de Oliveira, da Unifesp, reforçou que o país ainda não possui estrutura industrial suficiente para competir nesse setor.
“A gente tem capacidade de mineração, mas não tem indústria de processamento. O Brasil não dispõe do segundo e do terceiro estágio: não temos como processar nem como aplicar em larga escala”, destacou.
A “guerra fria” das terras raras O domínio chinês sobre o setor transformou as terras raras em peça estratégica da disputa comercial entre China e Estados Unidos. Hoje, países ocidentais dependem das refinarias chinesas para produzir componentes tecnológicos essenciais.
“O problema atual não está relacionado à escassez física, e sim à restrição dos países que conseguem produzir”, explicou Emiliano Castro de Oliveira.
Diante disso, os Estados Unidos buscam ampliar parcerias com países como o Brasil para reduzir a dependência da China. Já o governo brasileiro defende que o país deixe de ser apenas exportador de matéria-prima e passe a desenvolver tecnologia própria.
“O Brasil domina o primeiro capítulo da história — encontrar o minério. O desafio agora é o valor agregado. Não queremos apenas exportar pedras; queremos produzir o ímã e o chip aqui”, afirmou Alexandre Magno Rocha.
Congresso discute política nacional para minerais críticos Em meio ao crescimento da disputa internacional, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência a criação da Política Nacional para a Exploração de Minerais Críticos.
A proposta prevê um fundo de até R$ 5 bilhões para incentivar empresas que tragam tecnologia de transformação e processamento para o Brasil. A ideia do governo é ampliar a participação brasileira na cadeia industrial e reduzir a dependência tecnológica externa.

