- Morador relata mudanças na restinga ao longo dos anos
- Queimadas, lixo e retirada de materiais
- Violência também aparece no relato
- Defesa de uma brigada de incêndio permanente
- MARAEY como possível aliado da preservação
- Geração de empregos é prioridade para Zacarias
- Futuro da pesca artesanal preocupa moradores
- Relação com a empresa e licenciamento
- Restinga no centro do debate
Nascido na comunidade e descendente de família que vive há mais de 150 anos na região, Washington Costa defende que empreendimento pode ajudar a proteger a restinga, gerar empregos e fortalecer a pesca artesanal
A Restinga de Maricá voltou ao centro das discussões nos últimos dias com o início das obras do MARAEY, empreendimento turístico-residencial previsto para a região entre a Lagoa de Maricá e o Oceano Atlântico.
O projeto tem mobilizado diferentes visões sobre o futuro da área, envolvendo debates ambientais, discussões no campo jurídico e manifestações de grupos contrários ao empreendimento. Ao mesmo tempo, há moradores da região que enxergam na chegada do MARAEY uma possibilidade de ordenamento, preservação, geração de empregos e melhorias para comunidades tradicionais.
É o caso de Washington da Costa, presidente da Associação de Moradores e Pescadores de Zacarias. Nascido na comunidade, ele afirma ser descendente de uma família que vive há mais de 150 anos no local.
Em entrevista ao Maricá Info, Washington relatou episódios de degradação, queimadas, descarte irregular de materiais, insegurança e tentativas de invasão na região da restinga. Para ele, o abandono da área também representa risco ambiental. “Eu prefiro 80% preservado do que 100% largado”, afirmou.
Morador relata mudanças na restinga ao longo dos anos
Washington conta que sua relação com a restinga começou ainda na infância, quando acompanhava o pai durante as pescarias.
“Desde os dez anos eu ia pescar com meu pai. A gente ia de bicicleta, andava cinco, seis quilômetros para dentro da reserva. A gente acampava na reserva à noite”, relembrou.
Segundo ele, a realidade mudou ao longo dos anos. O que antes era uma área frequentada por pescadores e moradores tradicionais passou a ser marcada por medo e insegurança.
“Hoje a gente não acampa mais, porque se você acampar na reserva está arriscado a ser assaltado. Está muito perigoso”, disse.
Washington associa parte dessas mudanças ao crescimento populacional de Maricá e à chegada de pessoas de outros municípios, o que, segundo ele, aumentou a pressão sobre áreas sensíveis da cidade.
Ele também relata que a comunidade já precisou agir, junto ao poder público municipal e ao Instituto Estadual do Ambiente, o INEA, para impedir tentativas de invasão de terras na região.
“Há uns anos, tentaram invadir as terras. A gente, junto com os órgãos competentes do município e com o INEA, conseguiu arrancar cercas de pessoas que vieram de fora para invadir o local”, afirmou.
Queimadas, lixo e retirada de materiais
Um dos pontos mais fortes da entrevista é o relato de Washington sobre os impactos ambientais que afirma ter visto ao longo dos anos.
Segundo ele, a restinga já sofreu com queimadas, descarte de lixo, retirada de materiais e incêndios provocados por ações criminosas.
“Eu vi muita gente botando fogo em carro na reserva. Esse fogo acabava afetando a restinga, pegando muito fogo e, às vezes, queimando dez, quinze hectares de mata”, contou.
Para o pescador, os incêndios causaram danos que ainda podem ser percebidos na vegetação e na fauna da região.
“Hoje, se você for andar na reserva, não encontra as frutas que encontrava antigamente. Hoje dificilmente você encontra um araçá. Eu encontrava cachorro-do-mato, muito tatu, muita cobra. Hoje você não encontra quase isso”, afirmou.
Washington também relatou que, em algumas queimadas, moradores encontravam animais mortos pelo fogo.
“Quando a gente ia onde estava a mata pegando fogo, via os animais todos queimados. Era tartaruga, jabuti, cobra, tatu. Então, as coisas vão se acabando”, disse.
Violência também aparece no relato
Além da degradação ambiental, Washington afirma ter presenciado episódios de violência na região da restinga.
“Eu já presenciei assassinato na restinga. Claro que eu não vi a pessoa matando a outra, mas eu, pescando à noite, escutava os tiros e, no outro dia, a gente via que a pessoa estava morta”, relatou.
Para o presidente da associação, a ausência de fiscalização permanente contribuiu para que a área fosse usada de forma irregular por pessoas de fora da comunidade.
Hoje, segundo ele, a presença de uma estrutura de segurança ajuda a evitar novas ocupações desordenadas.
“Hoje, graças a Deus, nós temos a segurança do container. Se o container saísse dali, Zacarias viraria uma grande favela”, afirmou.
Defesa de uma brigada de incêndio permanente
Washington também defende a criação de uma brigada de incêndio permanente para atuar na proteção da restinga.
Segundo ele, moradores costumam acionar o poder público quando percebem focos de incêndio, mas a resposta poderia ser mais rápida se houvesse uma equipe preparada no próprio local.
“Eu briguei muito por uma brigada de incêndio no local, porque, se a gente tivesse uma brigada, conseguiria salvar a restinga mais rápido, apagar o incêndio mais rápido”, afirmou.
A proposta, segundo Washington, poderia envolver uma parceria entre a Prefeitura de Maricá e o MARAEY.
“Eu propus há um tempo uma brigada de incêndio junto à empresa e à prefeitura, para ficar 24 horas tomando conta da reserva”, disse.
MARAEY como possível aliado da preservação
Questionado se acredita que o MARAEY pode ajudar a proteger a restinga contra invasões, lixo, queimadas e violência, Washington afirmou que sim, desde que o empreendimento cumpra compromissos com a comunidade e com a preservação ambiental.
“O MARAEY vindo, uma das coisas que tem que fazer pela comunidade é estruturar a comunidade”, afirmou.
Entre as prioridades citadas por ele estão saneamento básico, calçamento, diálogo com os moradores, regularização das moradias e geração de empregos.
“Tem que ter saneamento básico, calçamento, conversar com os moradores e legalizar os moradores. O que a gente quer é a documentação de todo mundo”, disse.
O tema da regularização é uma das principais preocupações de moradores antigos da comunidade. Segundo Washington, muitos viveram a vida inteira em Zacarias sem ver a situação fundiária resolvida.
“Tem pessoas que faleceram e não viram as coisas fluindo. A gente está aqui, mas tem medo de que amanhã um juiz bata o martelo e diga: ‘vamos tirar todo mundo’. Então, o que a gente quer é a documentação de todos”, afirmou.
Geração de empregos é prioridade para Zacarias
Além da preservação da restinga, Washington aponta a falta de emprego como um dos principais desafios enfrentados pela comunidade.
“O que falta hoje na comunidade é geração de emprego. Os nossos filhos vão trabalhar onde?”, questionou.
Para ele, o MARAEY pode representar uma oportunidade para moradores de Zacarias e de outras regiões de Maricá, especialmente com a chegada de cursos de capacitação e futuras vagas no empreendimento.
“Hoje eles estão dando curso para capacitar o pessoal para trabalhar. Quem vai ser gerente, quem vai ser camareira, chefe de cozinha. Isso vai ser ótimo para a comunidade, porque os mais jovens não precisam sair da comunidade para trabalhar em outro município, nem em outro estado”, afirmou.
Washington também defende que o turismo pode gerar novas fontes de renda para os pescadores, artesãos e pequenos comerciantes locais.
“A gente vai ter onde vender nossos peixes, onde vender nosso artesanato. Vai atrair turista”, disse.
Ele cita cidades da Região dos Lagos como exemplos de municípios que movimentam suas economias a partir do turismo.
“Arraial, Búzios, Cabo Frio vivem em cima do turismo. Maricá também tem que focar no turismo, para trazer gente com dinheiro para o município e para dentro de Zacarias, para gerar emprego e renda para a comunidade”, afirmou.
Futuro da pesca artesanal preocupa moradores
Apesar de presidir uma comunidade de pescadores, Washington demonstra preocupação com o futuro da pesca artesanal.
Segundo ele, os filhos dos pescadores já não demonstram o mesmo interesse em seguir a profissão, principalmente pela falta de perspectiva econômica.
“Do jeito que está indo, a pesca vai acabar. Meu filho não quer seguir minha profissão, minha filha não quer, os filhos dos meus amigos também não querem seguir a profissão de pescador”, afirmou.
Para Washington, a única forma de manter a tradição é criar condições para que a pesca continue gerando renda.
“Se a gente não tiver investimento em cima da pesca e na comunidade, ninguém fica”, disse.
Ele acredita que o turismo pode ajudar a preservar a atividade, criando novos mercados para o pescado local.
“Se eu tiver renda e passar isso para o meu filho, ele não vai querer sair do bairro. Ele vai querer ficar na pesca”, afirmou.
Relação com a empresa e licenciamento
Washington também comentou a relação entre a comunidade e o MARAEY. Segundo ele, a empresa mantém diálogo com moradores e órgãos públicos.
“A empresa chegou, conversa com a comunidade e conversa com os órgãos competentes. Ela não invadiu nada, ela comprou. E ela respeita”, afirmou.
Para o presidente da associação, o tempo de tramitação do projeto e o processo de licenciamento demonstram que o empreendimento vem sendo submetido às exigências legais.
“Ela está desde 2009 tentando fazer o empreendimento, com todas as licenças cabíveis que os órgãos competentes dão à empresa. Olha quantos anos ela está. Isso é sinal de que respeita a comunidade”, disse.
Washington comparou a postura atual com experiências anteriores vividas pela comunidade, quando, segundo ele, antigos donos de terras cercaram áreas e dificultaram a vida dos moradores.
“Antigamente, outros donos da terra chegaram, cercaram a gente aqui dentro, e parecia que a gente estava preso igual gado dentro de um curral”, relatou.
Segundo ele, o diálogo atual envolve a empresa, a Prefeitura, o Judiciário e o INEA.
“Eles conversam, vão ao prefeito, vão ao juiz, vão ao INEA. Graças a Deus, com todas as licenças, as obras vão começar para gerar renda para o município”, afirmou.
Restinga no centro do debate
A fala de Washington Costa se soma a um debate mais amplo sobre o futuro da Restinga de Maricá.
O início das obras do MARAEY recolocou o tema em evidência e mobilizou diferentes setores. De um lado, há preocupações ambientais e questionamentos sobre os impactos do empreendimento. De outro, há moradores que vivem há gerações na região e acreditam que o projeto pode ajudar a combater o abandono, ampliar a fiscalização, gerar empregos e estruturar a comunidade.
Para Washington, a preservação da restinga precisa ser acompanhada de presença, controle e cuidado permanente.
“Eu prefiro 80% preservado do que 100% largado”, reforçou.
Com as obras iniciadas, o desafio será acompanhar se os compromissos anunciados pelo empreendimento serão cumpridos na prática e se as melhorias esperadas por Zacarias, como emprego, infraestrutura, regularização e valorização da pesca artesanal, chegarão de fato à comunidade.

