A maldição das bets está drenando dinheiro do bolso do consumidor. No Rio, as apostas online movimentam cerca de R$ 2,2 bilhões por ano — mais de três vezes o valor estimado das compras de Natal.
O alerta vem de pesquisa do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ), feita com 1.024 moradores da Região Metropolitana do Rio. 22,8% já apostaram online.
E a conta pode sair cara. 22,3% dos apostadores dizem ter ou já ter tido dificuldade para parar, 29,1% já sentiram culpa e 34,8% foram criticados pelo hábito. Outros 42% admitiram que, depois de perder dinheiro, voltaram a apostar para tentar recuperar o prejuízo.
O mercado é gigante: o gasto médio é de R$ 96,30 por mês, e o IFec estima 1,9 milhão de apostadores, movimentando cerca de R$ 182 milhões mensais.
E de onde sai o dinheiro? Do salário, principalmente. Para 69,9%, é a principal fonte usada nas apostas. Em média, 5,5% da renda mensal vai para as plataformas. O Pix é usado por 97,4%.
O impacto já aparece nas dívidas: 5,1% dizem ter se endividado por causa das apostas. Entre quem possui dívidas, 45,9% estão com pagamentos atrasados.
E há outro efeito: dinheiro que poderia ir para o comércio, contas ou poupança acaba nas plataformas. Sem apostar, 33% guardariam ou investiriam o valor; 21,9% comprariam itens de mercado; 21,8%, roupas; e 11,2% pagariam contas.
Sinal de alerta na saúde
Os dados do Ministério da Saúde também chamam atenção. Os atendimentos relacionados a transtornos associados a jogos e apostas passaram de 92 em dezembro de 2023 para 265 em janeiro de 2025 e chegaram a 836 em janeiro de 2026. Em maio deste ano, foram 722.
A pesquisa não atribui automaticamente esse aumento às bets, mas registra a alta dos atendimentos no mesmo período de expansão das apostas.
Entre os que nunca apostaram, 7,9% dizem evitar as plataformas por medo do vício e de perder dinheiro.
E a pressão por controle cresce: 45,3% defendem fiscalização mais rigorosa, 40,1% são favoráveis ao fim das apostas online e 23,3% querem a proibição da publicidade das bets.
Enquanto o comércio espera pelo dinheiro do consumidor no Natal, as bets já estão levando uma fatia cada vez maior do bolso — e, para alguns, o prejuízo não termina quando a aposta acaba.
