Quarenta e três anos depois da morte de Garrincha, o New York Times publicou um obituário dedicado a um dos maiores jogadores da história do futebol. O texto entrou no site do jornal americano em 10 de julho e foi publicado na edição impressa da última segunda-feira, com o título “Garrincha, o brilhante e ferido herói brasileiro das Copas do Mundo”.
O atraso é proposital. A reportagem faz parte da série “Overlooked No More”, algo como “Não mais esquecidos”, criada para contar a história de pessoas importantes que não receberam um obituário do jornal quando morreram. Lançado em 2018, no Dia Internacional da Mulher, o projeto começou reconhecendo que, desde a fundação do diário, em 1851, a seção havia privilegiado homens brancos e deixado de fora mulheres, negros e outros personagens relevantes.
Assinado pelo jornalista Jeré Longman, o texto acompanha a trajetória de Manoel Francisco dos Santos desde a infância em Pau Grande, na Baixada Fluminense, até a transformação no jogador conhecido como “Alegria do Povo”. O jornal chama atenção para o corpo que parecia contrariar as exigências do futebol: a perna esquerda arqueada para fora e a direita, mais curta, inclinada para dentro. Justamente desse desequilíbrio nasceu um drible imprevisível, capaz de deixar marcadores sem saber para que lado Garrincha seguiria.
O obituário recupera o papel do ponta-direita nos títulos mundiais de 1958 e 1962. Na segunda conquista, depois da lesão de Pelé, Garrincha assumiu o protagonismo da seleção e teve atuações decisivas especialmente contra Inglaterra e Chile. Mais do que números, o New York Times apresenta o brasileiro como um talento quase impossível, cuja maneira livre e provocadora de jogar transformava partidas em espetáculo.
A homenagem também não ignora a parte trágica da biografia. Fora de campo, Garrincha enfrentou problemas familiares, financeiros e uma longa dependência de álcool, enquanto o corpo que havia produzido alguns dos lances mais celebrados do futebol se deteriorava rapidamente. Ele morreu no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos, por complicações relacionadas ao alcoolismo.
Ao incluir Garrincha na série, o jornal não tenta corrigir o esquecimento do jogador, ainda reverenciado no Brasil, mas uma ausência de suas próprias páginas. O obituário tardio funciona como reconhecimento da dimensão internacional de um craque cuja história reúne genialidade, alegria, exploração e abandono. Publicado durante a reta final da Copa do Mundo de 2026, o texto também apresenta Garrincha a uma nova geração e devolve ao “Anjo das Pernas Tortas” o espaço que o New York Times admite não ter lhe oferecido quando deveria.

