A nomeação de Michele Montenegro, em 6 de outubro do ano passado, para um cargo de confiança na Secretaria de Estado da Casa Civil ocorreu em um período no qual, segundo a própria pasta, “ainda não existiam os procedimentos de compliance” para a escolha de servidores.
Sob a gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL), Michele conseguiu cavar espaço na estrutura pública usando o nome de “Mia Montenegro”, mesmo carregando uma extensa ficha corrida. No perfil da falsária, que se apresentava como advogada, mas não tem registro na OAB, destaca-se a origem familiar. É filha de almirante e irmã de desembargadora — que, aliás, não convive nem fala com ela.
O que tem causado incômodo nos bastidores do Palácio Guanabara, contudo, é como a assessora — presa pela Polícia Civil nesta quarta-feira (03) na Operação Tela Falsa, sob a acusação de chefiar um golpe de R$ 10 milhões envolvendo obras de arte — conseguiu atravessar a mudança de comando no Executivo.
Michele Montenegro manteve-se intacta — com o mesmo CPF e um salário bruto de R$ 16 mil — na gestão do atual governador em exercício Ricardo Couto. A sobrevivência da moça na administração pública soa como uma ironia diante da principal bandeira de Couto, cujo lema central tem sido justamente “caçar fantasmas” por meio do maior pacote de exonerações em massa já visto no estado.
Apontada como uma “estelionatária ostentação”, Michele Montenegro transitava pelas altas rodas do Rio e mantinha um perfil incensado nas redes sociais, seguido por autoridades e celebridades — enquanto desfrutava da blindagem política na administração estadual.
Mordomias e apadrinhamento: a rotina no Palácio Verde
Embora a assessoria do governo tente desenhar o perfil de uma servidora assídua e “bem convincente” — escalada para gerir o projeto de sustentabilidade Palácio Verde — o que ecoa nos bastidores do Guanabara destoa do discurso oficial.
Segundo servidores que realmente trabalham na Casa Civil, a realidade é que “Mia” andava muito pouco pela secretaria. A falsária só frequentava o lindo prédio que já foi residência da Princesa Isabel para assinar o ponto, uma vez por mês — ou era vista apenas eventualmente. Apesar da escassez de presença, a suposta advogada desfrutava de um pacote de privilégios digno de alto escalão: tinha direito a carro oficial, motorista exclusivo e combustível custeado pelo erário.
Investigações internas apontam que na Casa Civil existe um “personagem oculto” da gestão anterior que não passou aos atuais mandatários o nome de Michele Montenegro nem das outras seis pessoas indicadas por ela. O “personagem oculto”, que traçava o perfil dos funcionários lotados no órgão, também deixou de passar outros nomes que escaparam da degola. Ou seja… tem mais fantasma no Guanabara.
Mais do que blindar a própria permanência, o prestígio de Michele Montenegro — que adorava repetir aos colegas, nas poucas vezes em que dava o ar de sua graça no batente, que é “irmã de desembargadora” — garantiu o loteamento de cargos.
A falsa causídica foi responsável direta por indicar pelo menos seis assessores, nomeados para funções públicas na estrutura do Guanabara — e que, ao que tudo indica, foram exonerados na mesma edição extraordinária do Diário Oficial da última quarta-feira.
Do ‘best seller de superação’ à extensa ‘capivara’ de Michele Montenegro
A derrocada da falsa advogada trouxe à tona um passado que o estado alega ter desconhecido justamente pela falta de filtros de integridade à época de sua entrada. Em 2022, ela chegou a se lançar como escritora, publicando o livro autobiográfico “O gato e a uva: o caminho de volta do inferno”, onde narrava sua queda e uma suposta “volta por cima”, após ter sido presa em 2008 por estelionato.
A tal redenção literária, contudo, ocultava uma folha corrida extensa.
Michele acumula pelo menos 30 processos entre Rio e São Paulo, além de 17 anotações criminais. Seu portfólio de golpes era eclético. Ela é acusada de apropriação indébita de obras de arte de valor comercial astronômico (incluindo peças dos artistas Sérgio Camargo e Ivan Serpa), negociando-as como se fossem suas; de uso fraudulento dos dados de uma ONG paulista de amparo a pessoas em situação de rua para comprar mais de uma centena de ursos e ovelhas de pelúcia personalizados, deixando uma dívida protestada em cartório para revender os brinquedos no Rio.
Apesar de se intitular advogada, mestra e até defensora pública, Michele Montenegro tinha apenas um registro de estagiária na OAB/RJ, já cancelado há anos.
Reação tardia e defesa
No ápice do escândalo, a Casa Civil do Estado agiu às pressas para conter o desgaste político.
A exoneração de “Mia Montenegro” foi publicada em edição extraordinária do Diário Oficial ainda na quarta-feira (03) em que ela foi presa, reforçando a justificativa de que a entrada da servidora se deu na gestão passada e sem as regras atuais de compliance.
A defesa da acusada, representada pelo advogado Paulo Gomes Rangel Neto, alegou de forma sucinta que Michele Montenegro é “mais uma vítima nos fatos investigados” e que sua inocência será provada assim que a banca obtiver pleno acesso aos autos do processo.
COM FÁBIO MARTINS
Com informações da fonte
https://temporealrj.com/michele-montenegro-sobreviveu-faxina-couto/

