A Polícia Civil de São Paulo investiga a compra de dois Porsches, uma BMW e uma lancha por um grupo suspeito de vender dados de pessoas mortas a empresas do setor funerário. A apuração, que faz parte da segunda fase da Operação Luctus, aponta a participação de policiais civis, empresários e um servidor municipal em um esquema que teria utilizado informações sigilosas sobre óbitos recentes para abordar familiares e oferecer serviços funerários.
Uma das empresas citadas na investigação é a concessionária Velar SP, escolhida em 2023 pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para administrar seis cemitérios municipais, entre eles Vila Alpina, Itaquera e Freguesia do Ó. O grupo é suspeito de crimes como corrupção, acesso indevido a informações sigilosas, lavagem de dinheiro e delitos contra a administração pública.
Segundo a investigação, policiais civis tinham acesso aos sistemas do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) e do Instituto Médico Legal (IML), de onde obtinham informações sobre mortes recentes e dados de contato de familiares. As informações eram repassadas a uma empresa de telemarketing ligada ao grupo, que procurava os parentes para oferecer produtos e serviços, como transporte e caixões.
As ofertas seriam feitas por valores acima dos praticados no mercado, sem que os familiares fossem informados sobre a possibilidade de gratuidade ou a existência de tarifa social. Serviços de traslado de caixões, por exemplo, chegariam a custar R$ 30 mil.
O acesso antecipado às informações permitiria que a empresa chegasse às famílias antes das concorrentes, em um momento de fragilidade emocional dos parentes. Funcionários de hospitais públicos e particulares também são suspeitos de ajudar na abordagem às famílias.
Bens de luxo e suspeita de ocultação patrimonial
Entre os bens identificados pelos investigadores estão dois Porsches 718 Boxster, avaliados em cerca de R$ 700 mil cada. Os veículos teriam sido adquiridos em setembro de 2024 e eram idênticos, inclusive na cor branca. Um deles já teria sido vendido. Para os policiais, a escolha por dois carros iguais pode ter sido uma tentativa de dificultar eventuais investigações.
Segundo reportagem publicada pela Folha de São Paulo, há indícios de que os automóveis eram utilizados por Osvaldo Pereira da Silva, um dos diretores da Velar SP, e pelo policial civil Paulo Henrique Pierini Guimarães, que atua no Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc). Documentos da Junta Comercial apontariam que os dois são sócios em uma empresa de gestão patrimonial.
Questionada pelo GLOBO, a prefeitura de São Paulo afirmou que a segunda fase da Operação Luctus foi concluída e veículos das marcas BYD e BMW foram apreendidos nesta quinta-feira. Chaves de outros veículos, entre elas uma pertencente a um veículo da marca Porsche, também foram recuperadas pela polícia. As equipes ainda mantêm diligências em andamento para formalização da apreensão de uma embarcação do tipo lancha. A prefeitura também informou que o material reunido “será submetido à análise pericial e empregado no aprofundamento das investigações, visando à completa elucidação dos fatos, identificação de eventuais envolvidos e adoção das medidas judiciais, administrativas e disciplinares cabíveis”.
A Velar SP, por sua vez, afirmou em nota que tomou conhecimento da investigação “pela imprensa e ainda não teve acesso aos autos nem à decisão judicial que fundamentou as diligências”. Além disso, a concessionária reafirmou seu compromisso “com a lisura de sua atuação e com o respeito às famílias atendidas” e “repudia quaisquer práticas ilícitas e esclarece que já havia se colocado à disposição das autoridades para colaborar no esclarecimento dos fatos e de eventuais ilicitudes praticadas por quem quer que seja”. A concessionária também afirmou que permanece à disposição das autoridades para contribuir com o pleno esclarecimento dos fatos.
As buscas da operação alcançaram, além da concessionária, outras três empresas do setor funerário, um escritório de contabilidade, uma delegacia e a SP Regula, agência municipal responsável pelo acompanhamento das concessões. Um servidor do órgão é suspeito de participar do esquema. Acerca das menções à SP Regula, a prefeitura de São Paulo enviou a mesma nota e reafirmou que “além da responsabilização penal dos envolvidos, a investigação também busca identificar vulnerabilidades sistêmicas e oportunidades de aprimoramento dos mecanismos de controle interno, governança, integridade e proteção de informações sensíveis, contribuindo para a mitigação de riscos institucionais”.
O GLOBO ainda procura a defesa de Osvaldo Pereira da Silva, um dos diretores da Velar SP, e do policial civil Paulo Henrique Pierini Guimarães, que atua no Denarc. O espaço segue aberto para manifestações.
