Crianças e adolescentes podem praticar corrida? Especialistas explicam os cuidados e as distâncias por idade

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Quilômetro por quilômetro, a febre das corridas avança em ritmo acelerado e ganha cada vez mais adeptos pelo país. Para muitos, o apelo é simples: basta disposição e um tênis no pé para sair às ruas e dar uma chance ao esporte. Mas e para crianças e adolescentes, será que é tão simples começar a correr?

Especialistas explicam que a corrida de forma lúdica, como parte das brincadeiras da infância, é mais do que permitida desde cedo: traz benefícios que vão do desenvolvimento motor a evitar o sedentarismo. Porém, quando o assunto é a corrida estruturada como um treino, incluindo a participação em provas, há sim um cuidado que precisa se ter, e a prática não deve começar antes dos 12 anos.

— Correr como parte da brincadeira pode começar na infância, em qualquer idade. Mas a corrida mesmo só deve começar por volta dos 11 a 12 anos. Até essa idade, o foco é brincar e diversificar os esportes. A partir dos 12, pode ser introduzida uma corrida leve e técnicas de movimento e, dos 14, o treino estruturado com progressão de no máximo 10% de volume por semana — diz Ana Paula Simões, médica do esporte e ortopedista, diretora da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE).

É como pensa também Pedro Henrique Deon, professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), onde coordena o Centro do Movimento. Ele explica que o cuidado vai variar conforme a fase de desenvolvimento do indivíduo:

— Na infância, o mais importante é que a corrida não seja tratada como treino de rendimento. Ao longo da adolescência, a prática pode começar a ganhar um pouco mais de organização, mas ainda exige atenção especial. É uma fase em que o corpo está mudando rápido, e isso pede mais cuidado com carga de treino, recuperação, técnica de movimento, hidratação, sono e alimentação. Também é importante observar se o jovem está conseguindo se adaptar bem, sem dor persistente, cansaço excessivo ou perda de prazer pela atividade.

De forma prática, Hugo Tourinho Filho, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP/USP), explica que dos 2 aos 6 anos, quando o foco é o desenvolvimento motor global, as corridas devem ser restritas a tiros curtos integrados a brincadeiras, como pega-pega, sem qualquer foco em desempenho.

Já dos 7 aos 11, ocorre uma fase de importante avanço motor da criança. O cuidado principal é evitar a especialização precoce: a corrida deve ser complementar a outros esportes e realizada em superfícies macias para preservar as estruturas, como ossos, músculos e articulações.

— Dos 12 aos 15 anos, temos a fase de estirão do crescimento. Deve-se monitorar de perto as dores nas articulações para evitar lesões por sobrecarga. O treinamento passa a ser mais estruturado, mas ainda priorizando a técnica sobre o volume. Exercícios educativos de corrida contribuem para que o adolescente possa se adaptar às novas dimensões de seu corpo. E, dos 16 aos 18, quando ocorre a maturação final, permite-se o aumento gradual de volume e treinos de força, desde que supervisionados — complementa o especialista.

Deon destaca que, em todas as faixas etárias, deve-se evitar sempre aumentos bruscos de volume e de intensidade. Quando a corrida já é mais estruturada em forma de treino, é mais importante garantir que o jovem tolere bem a carga, com a recuperação adequada entre as atividades, do que acumular quilômetros na planilha.

— Alguns pontos são fundamentais, como respeitar períodos de descanso, não antecipar distâncias longas, garantir supervisão adequada e lembrar que, nessa fase da vida, o esporte deve contribuir para a saúde e para o desenvolvimento, e não gerar sobrecarga precoce. Quando a progressão é bem feita, a corrida pode ser uma experiência muito positiva. Quando há pressa, excesso ou cobrança desproporcional, o risco é transformar uma prática saudável em fonte de desgaste físico e emocional — diz.

Com que idade pode participar de provas de corrida de rua?

Em relação às provas de corrida de rua, há regras de faixa etária estabelecidas pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) no país. As restrições não são à toa: em maio, uma jovem de 15 anos morreu ao participar de uma meia-maratona (21 km) em Leiden, na Holanda. A causa exata não foi divulgada.

No Brasil, as idades mínimas por distância, considerando a idade completa no dia 31 de dezembro do ano da prova, são:

  • Para distância de 5km: 14 anos;
  • Para distância menores de 10 km: 16 anos;
  • Para distâncias de 10 km a 30 km (incluindo meia-maratona): 18 anos;
  • Para distâncias de 42 km (maratona) para cima: 20 anos.

Há ainda corridas infantis, com distâncias menores, inferiores a 1 km, destinadas especificamente a crianças. Os especialistas explicam que os principais riscos de acelerar antes da hora é gerar uma sobrecarga que o corpo em desenvolvimento ainda não está pronto para sustentar.

— Um esqueleto imaturo submetido a volume de adulto pode sofrer maior risco de fraturas por estresse e lesões na região de crescimento, deficiência energética relativa (RED-S) com atraso puberal e perda de massa óssea e maior risco de hipertermia, porque crianças toleram pior o calor — afirma Ana Paula.

Deon, da PUCRS, acrescenta ainda o risco da perda do prazer pela prática esportiva, como um burnout da corrida. Ele alerta que, às vezes, o jovem até consegue completar uma distância acima da indicada sem se sentir mal, mas isso não significa que aquele esforço está adequado para a sua fase de crescimento.

— O problema é a pressa. Quando a exigência chega antes da base, o esporte pode deixar de ser uma experiência saudável e passar a gerar desgaste físico e emocional — diz.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/esporte/intercolegial/noticia/2026/07/criancas-e-adolescentes-podem-praticar-corrida-especialistas-explicam-os-cuidados-e-as-distancias-por-idade.ghtml

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