O maior cartão-postal do Brasil virou cenário de um cabo de guerra gigante que mistura fé, política, proteção ambiental e — claro — muito dinheiro. Na próxima terça-feira (14), a Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados vai realizar uma audiência pública que promete pegar fogo. O motivo? Debater quem manda de verdade no topo do Corcovado.
De um lado, a Igreja Católica, dona da estátua. Do outro, o Governo Federal, responsável pela administração do Parque Nacional da Tijuca, onde o monumento está localizado. No meio disso, milhões de turistas e uma disputa por uma arrecadação milionária.
Entenda a treta (que é mais antiga do que parece)
A confusão parece simples, mas é um nó jurídico. O monumento do Cristo Redentor é um santuário católico, mas fica cravado no topo do Parque Nacional da Tijuca, uma área de preservação ambiental federal gerida pelo ICMBio.
A Justiça já reconheceu – em caráter não definitivo – que o terreno pertence à União. Só que esse entendimento colide com três projetos de lei que tramitam em Brasília e pretendem ampliar os poderes da Igreja sobre as cercanias do Cristo. Dois deles foram apresentados em 2024 por parlamentares fluminenses, entre eles os senadores Carlos Portinho, Flávio Bolsonaro e Romário, todos do PL, além do então deputado federal Washington Quaquá (PT), hoje prefeito de Maricá.
Na prática, as propostas fortalecem o controle da Igreja sobre o entorno do monumento e, como consequência, ampliam sua participação nas receitas geradas pela visitação. Em meio ao imbróglio, a municipalização do Alto Corcovado chegou a ser cogitada. Uma proposta do deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ) visa transferir toda a administração do Parque Nacional da Tijuca para a prefeitura.
Além da questão financeira, a convivência entre Igreja e governo também tem sido marcada por outros atritos. Já houve relatos de padres e funcionários da Arquidiocese impedidos por fiscais do parque de acessar o santuário, além de problemas de infraestrutura, elevadores quebrados e até a morte de um turista, episódio que reacendeu o debate sobre a falta de estrutura e atendimento de emergência no local.
A proposta que está dividindo opiniões
O deputado Ricardo Abrão (PSDB-RJ), que convocou a audiência, quer passar uma linha divisória nessa bagunça. O argumento dele se baseia na própria Constituição: o Brasil é um Estado laico. Sendo assim, o governo não deveria gerenciar diretamente um espaço religioso.
A ideia do parlamentar é “dar a César o que é de César”:
• Igreja Católica: fica com 100% do controle das atividades religiosas e do santuário.
• Poder Público: cuida apenas da proteção ambiental e da segurança patrimonial da floresta.
A disputa que envolve dinheiro
O debate envolve cifras milionárias. Segundo o último balanço anual consolidado, referente a 2024, a bilheteria do Complexo do Corcovado arrecadou cerca de R$ 137 milhões. A maior fatia ficou com as concessionárias responsáveis pelo transporte de trens e vans.
O ICMBio recebeu cerca de R$ 40 milhões, recursos que ajudam a financiar o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e a gestão de 75 parques nacionais. Já a Mitra Arquiepiscopal recebeu R$ 11,4 milhões graças a um acordo que garante R$ 6 por ingresso vendido, verba que, segundo a Igreja, é destinada à manutenção da estátua.
Por que isso está viralizando?
Defensores da Igreja apoiam a medida, alegando que o descaso do governo com a infraestrutura afasta o turismo e desrespeita a fé cristã.
Por outro lado, grupos ambientalistas estão em pé de guerra. Eles alertam que tirar o topo do Corcovado das mãos do Parque Nacional abre um precedente perigoso. O receio é que a divisão da área resulte em uma privatização disfarçada e em maior exploração comercial de uma das regiões mais simbólicas da Mata Atlântica.
A audiência da próxima terça promete reacender uma discussão que vai muito além da religião.

