No primeiro dia de preparação para o jogo contra o Japão, pela segunda fase, a maioria dos holofotes não estava voltada para o campo, onde Vini Jr, Neymar & cia treinavam, mas para o lado da imprensa. Todos queriam entrevistar Kiyomi Nakamura, jornalista japonesa que cobre a seleção desde a Copa de 1998 e que se tornou um dos rostos — e, principalmente, vozes — mais conhecidos do dia a dia da Amarelinha.
De tão requisitada, ela mal teve tempo de trabalhar. E perdeu as contas de quantas vezes lhe perguntaram se o coração fica dividido para este jogo. Uma resposta que tem na ponta da língua.
— Desculpem, japoneses. Mas, para mim, não tem como não torcer para o Brasil — conta..
Kiyomi costuma ser “adotada” por todos os treinadores da seleção, que sempre abrem um sorriso para suas perguntas nas coletivas e costumam brincar com ela. Inclusive o próprio Carlo Ancelotti:
— O seu português é igual ao meu. Por isso nos entendemos — brincou o italiano, certa vez, quando a jornalista teve dificuldade de lhe fazer uma pergunta.
Uma de suas perguntas chegou a viralizar nas redes sociais nos últimos dias. Queria perguntar a Gabriel Martinelli como ele se sentia com a possibilidade de ser campeão do mundo um mês depois de completar 25 anos. Mas se enrolou com o português e não conseguiu construir a frase. O atacante até se esforçou para tentar compreender, mas não conseguiu.
— Eu me enrolei, a pergunta ficou longa… Fiquei com muita vergonha. Mas a maneira como o Martinelli e o assessor de imprensa Fábio (Seixas) lidaram me salvou — relembra, aos risos.
De todos os treinadores que assumiram a seleção desde que Kiyomi passou a cobrir o dia a dia, dois dividem dua preferência. Um deles é Felipão. Segundo ela, foi quem lhe permitiu ter maior reconhecimento no Brasil pela forma afetuosa como a tratava nas entrevistas durante sua primeira passagem no comando.
— O Felipão é diferente. Principalmente antes da Copa de 2014. Ele sempre brincou na coletiva. Então quando andava na rua, os brasileiros perguntavam “Você é a repórter da seleção?”, “Você é a amiga do Felipão?”. Todo mundo passou a me reconhecer. Ficou muito mais fácil trabalhar no Brasil.
O segundo é Dunga, o que é curioso, já que ele não era conhecido por ter uma boa relação com a imprensa durante sua passagem pela seleção. Só que, por ter atuado por quatro anos no Japão (no Júbilo Iwata, entre 1995 e 1998), sempre deu muitas entrevistas para Kiyomi, que chegou a trabalhar como sua intérprete em viagens pelo país asiático.
Isso ajuda a tirar a curiosidade de quem se pergunta o que Kiyomi faz quando a seleção não está reunida. Na verdade, o que qualquer outro jornalista faz. No seu caso, corre atrás de reportagens para enviar para as TVs japonesas para as quais trabalha, principalmente a cobertura de eventos esportivos e entrevistas com jogadores da seleção ou brasileiros que fizeram sucesso na liga japonesa.
Foi por causa de um deles que a história de Kiyomi com o Brasil começou. Em 1998, com Zico como coordenador técnico da seleção que disputaria a Copa na França, a jornalista viajou para passar três meses acompanhando o Galinho e toda a preparação até o torneio. Ali, se encantou pelo país, pelo Rio de Janeiro e pela Amarelinha. Decidiu que era isso o que queria para a sua vida.
—A seleção brasileira não é apenas um time de futebol. Principalmente na época da Copa. Incluindo toda a coisa da paixão do povo, tristeza, felicidade… Pensei: “tenho que morar no Brasil, respirar do mesmo ar, comer da mesma comida, rir ou ficar aborrecida com os mesmos assuntos. Viver como se fosse brasileira”.
E vive assim desde 2001, no Rio. A saudade da família, que segue no Japão, ela compensa com o carinho da que a acolheu por aqui: a do cinegrafista Jorge Ventura. Os dois trabalharam juntos assim que ela se mudou e viraram grandes amigos. São 25 anos de vida que não dão margem para o coração ficar dividido quando a bola rolar na próxima segunda-feira. Antes do apito inicial, porém, há um momento em que ele deve balançar.
— No momento do hino, eu fico emocionada, tanto o do Brasil como o do Japão — admite.

