Teatro (Claudia Chaves): “Personagens profundamente complexos”, diz Thelmo

Tempo de leitura: 6 min


Quando as cortinas de “O Deus da Carnificina”, da dramaturga francesa Yasmina Reza, se abrem, já fica claro que a montagem dirigida por Rodrigo Portella não pretende seguir caminhos óbvios. Os figurinos de século XIX criados por Karen Brusttolin contrastam com celulares em cena, linguagem contemporânea e personagens absolutamente reconhecíveis nos dias de hoje. A aparente contradição, claro, é proposital — e funciona muito bem.

Thelmo Fernandes e Karine Telles (Alê Catan/Divulgação)

Portella transforma o texto em uma espécie de declaração apaixonada sobre o próprio teatro: um espaço onde tempos, códigos e comportamentos convivem sem precisar pedir licença. E essa mistura ganha força justamente porque tudo parece acontecer em permanente equilíbrio entre sofisticação, caos e desconforto.

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Thelmo Fernandes e Karine Telles (Alê Catan/Divulgação)

Em cena, dois casais tentam racionalizar uma briga violenta entre seus filhos na escola, mas o encontro rapidamente vira um campo minado sobre casamento, moralidade, hipocrisia e o desespero contemporâneo de justificar tudo o tempo inteiro — até a barbárie.

De um lado está Alain Reille, vivido com precisão cortante por Thelmo Fernandes: um homem pragmático, agressivamente funcional e quase incapaz de qualquer delicadeza emocional. Ao seu lado, Annette Reille, interpretada por Karine Teles, oscila entre perplexidade, ironia e exaustão.

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Karine Telles, Thelmo Fernandes, Anna Sophia Folch e Angelo Paes Leme
Karine Telles e Anna Sophia Folch (Alê Catan/Divulgação)

No outro casal, Michel Vallon, personagem de Angelo Paes Leme, parece representar aquele tipo contemporâneo que adapta princípios éticos conforme a conveniência do momento. Já Véronique Vallon, interpretada por Anna Sophia Folch, tenta sustentar discursos humanistas enquanto revela, aos poucos, suas próprias fragilidades e pequenas obsessões.

Conforme a discussão cresce e os personagens literalmente retiram partes das roupas em cena, também vão desmontando suas máscaras sociais. O resultado é um espetáculo ácido, inteligente e engraçado — mas sem nunca cair na gargalhada fácil. O humor vem sempre acompanhado de um leve mal-estar, como se o público risse percebendo o quanto reconhece aquelas pessoas.

Anna Sophia Folch
Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch (Alê Catan/Divulgação)
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No fim, “O Deus da Carnificina” fala justamente disso: da fina camada de civilidade que separa pessoas aparentemente educadas de impulsos bastante primitivos.

Conversamos com Thelmo Fernandes sobre a peça, o sucesso de “Arcanjo Renegado” e os próximos passos da carreira.

1 – Qual foi a sensação de trabalhar com Rodrigo Portella?

Eu já namorava a possibilidade de trabalhar com o Rodrigo há muito tempo. Sou muito fã dele, vi quase todos os espetáculos e fiquei completamente louco com “O Motociclista”. Quando surgiu o convite, pensei: vai ser incrível. E toda a expectativa se concretizou. O Rodrigo é um diretor muito afetuoso, inteligente e parceiro dos atores. Foi um dos processos mais incríveis que já vivi. Ele realmente superou todas as minhas expectativas, e espero repetir essa parceria outras vezes.

2 – Como você percebeu os figurinos de época dentro de uma peça tão contemporânea?

Mesmo com o figurino de época, mantivemos a contemporaneidade na interpretação, no texto e na linguagem. Na verdade, o figurino serve para mostrar que essa tendência do ser humano à barbárie vem de longa data, desde a nossa colonização. Foi uma ideia que o Rodrigo teve já no final do processo, mas à qual nos adaptamos super bem. Acho que fechou com chave de ouro o que estávamos propondo.

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3 – Como é transitar entre drama e humor na mesma peça?

Adoro personagens que me permitem trafegar entre humor, tragédia, densidade e ambiguidade. “O Deus da Carnificina” oferece isso a todo o elenco. É um trabalho muito gratificante porque me permite explorar as contradições humanas, algo que sempre busco em qualquer personagem, seja no teatro, cinema ou TV. Não acredito em personagens inteiramente bons ou maus, e o texto da Yasmina Reza nos permite mergulhar profundamente nessas complexidades.

4 – Para você, quem é o Bispo Cristóvão, de “Arcanjo Renegado”?

“Arcanjo Renegado” é uma grande série porque dialoga diretamente com a realidade do Rio e do Brasil. O Bispo Cristóvão é um personagem cheio de camadas: acredita ser um escolhido de Deus, mas está envolvido com política e crime organizado. Isso cria uma identificação muito forte com o público. O frescor do personagem se mantém porque, a cada nova temporada, ele surge mais provocante, surpreendente e instigante para mim como ator.

5 – E os projetos para o futuro?

Quero continuar fazendo grandes personagens e manter minha independência de escolha na carreira. Sou muito grato por poder escolher o que realmente quero fazer. Tenho muita vontade de voltar com os espetáculos ‘Diário do Farol’ e ‘Dignidade’, que foram trabalhos muito especiais para mim. E seguir trabalhando bastante: ‘Arcanjo Renegado’ já vai para a quinta temporada, com a sexta a caminho, além de novos filmes que em breve entram em circuito. Quero continuar exercitando a arte e fazendo bons trabalhos.

Serviço:
Teatro Adolpho Bloch
Rua do Russel, 804 – Glória
Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 17h.

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-2/

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