Tudo é chocante na morte da médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, em perseguição policial a suspeitos de um assalto em Cascadura, Zona Norte do Rio. Não só pela perda trágica de mais uma vida, mas pelas circunstâncias. Depois de efetuarem vários disparos, policiais militares cercaram seu carro e ordenaram que ela saísse (um deles bateu com o fuzil na porta). “Desce irmão! Vai morrer! Vai morrer irmão, desce!”, gritou um dos policiais, como mostrou reportagem do GLOBO. Andréa já estava morta.
Ginecologista e cirurgiã, com mais de 27 anos de serviços prestados, ela voltava de visita à casa dos pais. Pelo relato dos PMs, eles faziam policiamento de rotina quando foram informados de que ocupantes de um Corolla Cross (modelo do carro da vítima) praticavam assaltos. Alegam ter avistado um carro desse modelo, um Jeep Commander e uma moto que fugiram ao perceber aproximação. Acusam os ocupantes dos veículos de ter disparado depois da ordem de parada.
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Ainda que suspeitos tivessem disparado, a situação não justifica o revide. Cenas de bangue-bangue nas ruas sempre geram risco, por isso mesmo devem ser evitadas. Parece evidente que um carro do mesmo modelo e cor pode não ser o procurado. Mais evidente ainda: a médica não atirou contra os policiais. Nada justifica o fuzilamento, que certamente será objeto de investigação — há indícios de que as câmeras nas fardas estavam descarregadas.
Tão revoltante quanto tudo isso é constatar que se trata de erro recorrente nas forças de segurança. Um erro que custa vidas, destrói famílias e expõe o despreparo dos agentes. Em dezembro de 2024, Juliana Leite Rangel, de 26 anos, foi alvejada por agentes da Polícia Rodoviária Federal durante blitz na BR-040, quando ia para uma ceia de Natal com a família (ela sobreviveu). Em 2015, os mototaxistas Thiago Guimarães, de 24 anos, e Jorge Lucas Martins Paes, de 17, foram mortos por engano por um PM na Pavuna, Zona Norte do Rio, quando estavam numa moto. Jorge Lucas carregava um macaco hidráulico, que policiais dizem ter confundido com um fuzil.
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Um dos casos mais rumorosos foi o fuzilamento do músico Evaldo Rosa com 62 tiros por soldados do Exército em Guadalupe, Zona Norte do Rio, em 2019. Seu carro também foi confundido com o de bandidos. Em 2024, o Superior Tribunal Militar absolveu os militares, alegando falta de provas. A impunidade é o pior recado que a Justiça pode dar em tais casos.
No caso da médica, as câmeras corporais e as armas dos acusados foram postas à disposição dos investigadores, e a polícia parece empenhada em esclarecer o crime. Seria desastroso se cedesse ao corporativismo para proteger os agentes. Mais que investigar e punir os policiais se comprovada a culpa, é preciso aprimorar a formação e o treinamento dos PMs. Compreende-se que correm risco permanente diante de bandidos bem armados, mas devem agir com cautela e seguir todos os protocolos diante dos cidadãos, especialmente quando não há indícios claros de crime. Alguns erros são irreparáveis.

