Ypê admite presença de bactéria em sabão, mas diz que produtos ficaram retidos na fábrica

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Um dos executivos da Ypê confirmou que a empresa tomou conhecimento, em novembro do ano passado, da presença de uma bactéria em alguns de seus produtos, mas diz que os lotes com problema confirmado não chegaram ao mercado.
Segundo Sergio Pompilio, diretor de assuntos jurídicos e corporativos, a empresa está em diálogo com Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para tentar liberar a venda de outras unidades e vai interromper iniciativas de recall por enquanto. A proposta é um laboratório independente testar 100% dos lotes produzidos neste ano para destravar a venda.
Em entrevista ao EXTRA, Pompilio conta como a empresa está fazendo para lidar com a crise desencadeada por decisão da Anvisa de paralisar a produção e a venda alguns modelos de detergente, sabão para roupas líquido e desinfetantes da Ypê.
O que a Anvisa decidiu hoje sobre os produtos da Ypê que foram alvo de inspeção da agência?
O primeiro ponto que eu queria esclarecer é que a discussão de hoje da diretoria colegiada da Anvisa foi muito focada na manutenção ou não dos efeitos suspensivos do recurso que a Ypê protocolou. Como foi dito na própria reunião, o mérito, toda a discussão em relação a tudo aquilo que a gente vem apresentando desde dezembro do ano passado vai ser discutido depois. E isso é importante para deixar claro, que nós não temos nenhuma divergência com a Anvisa.
A gente está num processo intenso de colaboração de escuta ativa e de bastante humildade para entender o que é necessário para a gente retomar essa confiança junto com o órgão. E por quê? Porque acho que a pergunta mais importante hoje envolve se os produtos são ou não seguros.
O que a Ypê tem dito e o que a Ypê tem falado, é que, de acordo com os nossos controles, com as nossas análises internas, até o momento, os produtos são seguros para o consumidor. Essa é a nossa posição. Mas, ainda assim, como a própria diretoria da Anvisa deixou muito claro hoje, é fundamental que os nossos processos garantam essa segurança. E isso está sendo trabalhado fortemente com eles.
Então, até lá, até que a gente consiga traduzir, transferir, passar, realmente demonstrar e comprovar essa segurança para o órgão, nós propusemos à agência apresentar testes realizados por laboratórios independentes, autorizados pela própria agência, de todos os lotes que já foram colocados no mercado a partir de 1º de janeiro de 2026, exatamente para garantir a segurança dos mesmos junto ao nosso consumidor e, consequentemente, a liberação para uso desse consumidor o mais rápido possível.
Um outro ponto importante é que essa medida abrange apenas alguns itens de fabricação da Ypê. A gente está falando de lava-louças líquido, a gente está falando de lava-roupas líquido, apenas, e a gente está falando de desinfetante. E único e exclusivamente aqueles identificados como lote final 1.
Qualquer outro produto da Ypê, ou mesmo esses produtos, lava-roupa, lava-louça e desinfetante, de outros lotes, eles estão totalmente liberados. Esse é um ponto bastante importante.
Os outros produtos da Ypê, como, por exemplo, o nosso sabão em pó Tixan, o sabão em barra, amaciante, multiuso, eles não estão abrangidos em absoluto nessa discussão e na resolução. Eles podem continuar sendo fabricados, vendidos e usados normalmente.
A bactéria Pseudomonas aeruginosa foi detectada duas vezes em produtos da Ypê, uma vez no ano passado e de novo agora em abril. A Ypê já sabe como essa bactéria foi parar ali? Foi alguma falha específica entre as várias coisas que a Anvisa apontou?
Não é exatamente isso. A empresa tomou conhecimento da presença dessa bactéria patógena no nosso produto apenas em novembro de 2025. Isso é um marco temporal importante, porque isso gerou uma reação da empresa que que refletiu na criação de um plano de ação bastante robusto que vem sendo discutido e apresentado com a Anvisa de forma bastante intensa e aberta e paulatina.
Nós divulgamos recentemente investimentos da monta de mais de R$ 130 milhões, mas você não consegue construir um prédio de um dia para o outro, por mais dinheiro que você tenha. Você precisa de um cronograma e você precisa de medidas atacando pontos de curtíssimo, curto, médio e até médio e longo prazo. E é exatamente isso que faz parte do plano.
Essa constatação que gerou bastante confusão na imprensa relacionada à identificação no momento da fiscalização, na verdade, foi em lotes que estavam segregados dentro da nossa fábrica e foram apresentados para a equipe de fiscalização exatamente para demonstrar que quando nós adotamos essas medidas, nenhum produto contaminado seria colocado no mercado mais.
A presença do patógeno é apenas uma das não conformidades microbiológicas em questão, mas é a mais grave, sem dúvida nenhuma, mas nesses produtos em que havia a não conformidade microbiológica ela estava já dentro de um contexto de separação. Existe um bloqueio desses lotes e nós mostramos isso.
E o que a equipe da Anvisa trouxe dentro dessa situação? Que os nossos processos, os processos de separação, o processo de quarentena e o processo de formalização disso, não estavam adequados. Isso são as boas práticas de fabricação.
Então, não foi constatado isso. A Anvisa não faz teste nessas visitas. Foi constatado uma falha envolvendo práticas de boas práticas de fabricação no que se refere à decisão tomada da empresa de separar esses produtos que estavam não conformes.
O Centro de Vigilância Sanitária falou em ‘sujidades’ encontradas na linha de produção inspecionada: estruturas enferrujadas e partes da fábrica com poeira e gordura. Isso já foi corrigido?
Sim, 100%. Isso se apresenta, inclusive, em algumas publicações que nós fizemos, com imagens mostrando o antes e o depois. E não foi só isso, foram outras medidas que foram implementadas imediatamente e ao longo da própria fiscalização. Nós fizemos isso aproveitando o fato de que a nossa fábrica estava com 3 mil funcionários parados.
Mesmo com a decisão e mesmo com o efeito suspensivo do nosso recurso, que teoricamente nos permitiria retomar, nós optamos por colocar e aproveitar a fábrica parada exatamente para acelerar essas mudanças.
Então, por isso que, em tempo recorde, nós conseguimos adequar todas as questões relacionadas às sujidades e à pintura e a outras questões, inclusive, ali apresentadas, como forma de acelerar todo esse processo de conformidade junto ao órgão.
Agora, não é porque estava enferrujado, não é porque estava sujo, que isso tinha contato com o nosso produto. Todas aquelas áreas que foram apresentadas não eram áreas de contato direto com a nossa produção. Nossa produção tem um alto grau de automação. Então, essas partes são partes intermediárias e que nada tem a ver com o processo em que o produto passa e é conduzido.
A denúncia que levou à inspeção e investigação da Anvisa partiu da Unilever, que é concorrente da Ypê e poderia ter conflito de interesse na questão. A Unilever argumenta que analisar produtos da concorrência e tomar esse tipo de medida é praxe na indústria. A Ypê compartilha desse entendimento?
De forma nenhuma. Não concordamos com a afirmação de que isso é prática da indústria. Muito pelo contrário. Práticas da indústria são práticas em que, através de associações, você se junta exatamente para ter uma melhoria do mercado. Você testar produtos concorrentes não é uma prática da indústria.
A Anvisa delineou um plano de ação com 239 itens para a Ypê retomar uma situação de normalidade. O que esses pontos representam de modo geral e quais deles são mais importantes?
A fiscalização mencionou 76 pontos, mas de acordo com os nossos controles são 88 medidas de apontamento, dentro das quais estão esses 239 pontos.
Eles envolvem a sujidade, a organização, a pintura e coisas relacionadas. Quando a gente fala em mais de 200 medidas, é pelo nível de aprofundamento que a gente tem. Para eu resolver eu posso abrir uma, duas ou três. Num prazo extremamente curto, a gente está falando de uma semana, a gente já passou de 30% de atendimento de grande parte daquelas medidas.
Outras medidas não serão possíveis resolver nesse curto espaço de tempo, porque vão requerer compra de equipamento, vão requerer outras alterações dentro da fábrica, que têm um cronograma específico e que é exatamente um cronograma que nós vamos apresentar para a Anvisa, e aguardar uma nova fiscalização e demonstrar para eles como foi o nosso processo de correção.
Qual é a quantidade de produtos, em toneladas ou unidades, que estão contidos nos lotes que a Anvisa pede para recolher?
Nós temos a convicção que os produtos que hoje estão no mercado fabricados a partir de 1º de janeiro de 2026 não precisarão ser recolhidos. Para isso, a nossa estratégia e o nosso plano apresentado para a Anvisa é testar 100% deles. Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto é que a quantidade dos lotes que foram objeto da denúncia são ínfimos em relação à quantidade de produtos que nós colocamos no mercado. Esses 100 lotes são até uma quantidade bastante grande, que não sei precisar em toneladas, mas eles representam só 2% de todo o volume fabricado exatamente no mesmo período. Então, é um número muito baixo.
A medida atual da Anvisa vai incorrer na necessidade de recolher algum volume de produtos?
A decisão da diretoria colegiada hoje foi exatamente contrária a esse posicionamento. Ela manteve suspensa a produção, a comercialização e o uso do produto. No que se refere ao recolhimento, ela manteve o nosso efeito suspensivo.
Então, hoje, a Anvisa não recomenda o recolhimento do produto no ponto de venda e ela não recomenda o recolhimento junto ao consumidor até que essa segurança seja passada. Se nós tivermos, dentro dessa análise de apresentação de laudos de laboratórios autorizados pela própria agência, a reprovação, a não conformidade de algum desses lotes, aí a gente vai voltar a falar de recolhimento.
Mas a ideia hoje é, com base na comprovação das análises internas que nós temos, agora, através de um laudo externo, de um laboratório externo, comprovar que realmente esses produtos estão conformes e seguros para utilização. Esse é o nosso objetivo.
Uma faixa específica de consumidores que acreditava na existência de uma perseguição política contra a Ypê começou a postar vídeos bebendo, ou sugerindo beber detergente da marca como uma maneira de atestar confiaça. Como que a empresa vê essa reação?
A Ypê é uma empresa 100% brasileira, com 75 anos, que tem presença em mais de 95% dos lares brasileiros. Ela é uma empresa pró-brasileiros, independentemente de posições partidárias, independentemente de crenças. Hoje em dia, as coisas evoluem de forma autônoma no mundo digital. A Ypê é evidentemente, absolutamente contrária a que as pessoas bebam detergente ou qualquer outro produto de limpeza, por razões óbvias.
A empresa tem algum plano para lidar com o dano de imagem que possivelmente vai ocorrer com esse episódio, independentemente da conclusão legal que ele tenha?
Nós não estamos nos preocupando e não estamos falando em campanha de imagem. O nosso objetivo principal aqui é garantir a segurança do nosso consumidor e o retorno da normalidade das nossas operações.
Nós recebemos e contamos com a confiança do nosso consumidor. E é a partir dessa confiança que foi estabelecida nesses 75 anos que a gente vai retomar a nossa reputação e a nossa imagem.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/05/ype-admite-presenca-de-bacteria-em-sabao-mas-diz-que-produtos-ficaram-retidos-na-fabrica.ghtml

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