O primeiro impacto de “ConfuZo”, mais um trabalho da genial Cia. Dos à Deux, nasce da imagem. Antes mesmo que qualquer palavra seja pronunciada, o palco apresenta duas figuras que sintetizam o universo do espetáculo. À direita, Artur Luanda Ribeiro, o Homem-Luz, pedala incessantemente uma engenhosa bicicleta-gerador que alimenta a própria iluminação da cena. À esquerda, André Curti, o Homem-Árvore, atravessa o palco quase nu, carregando sobre a cabeça uma árvore seca que, em seguida, repousa sobre suas costas como um fardo inevitável.
Essas duas imagens inaugurais já anunciam os temas centrais da montagem: a solidão, o estranhamento, o desejo de pertencimento e o esforço permanente para continuar existindo. Um personagem não pode interromper o movimento, sob pena de apagar a luz; o outro carrega o peso de suas raízes, mesmo quando o mundo insiste em rejeitá-las.

A encenação é construída por símbolos de grande potência visual. O teatro de sombras amplia a dimensão poética da narrativa, enquanto o enorme aro inclinado remete imediatamente às proporções e à geometria do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci. A árvore, transformada em cruz pessoal, evoca personagens que atravessam a história carregando seus próprios sacrifícios, de Cristo ao Zé-do-Burro, de O Pagador de Promessas. Já a bicicleta, em seu movimento incessante, lembra uma máquina futurista, quase um organismo vivo, cuja velocidade revela tanto a urgência da sobrevivência quanto o desgaste silencioso de quem jamais pode parar.

Tudo na montagem parece buscar um delicado estado de equilíbrio. A iluminação, concebida como parte da dramaturgia; a música de Federico Puppi, que pulsa junto aos corpos; o texto, escrito por André Curti e Artur Luanda Ribeiro, que assume a forma de um longo poema cênico; os figurinos-instalação de Karen Brustollin; e a interpretação dos atores, marcada por uma impressionante precisão física, formam um conjunto de rara harmonia. No caso de André Curti, o desafio de equilibrar a árvore sobre o corpo transforma cada deslocamento em gesto dramático; em Artur Luanda Ribeiro, o pedalar contínuo faz do próprio esforço a matéria da cena.

Há julgamento, exclusão e desprezo dirigidos ao diferente. Mas há também resistência. Há permanência, movimento, velocidade e a obstinação de continuar, mesmo quando tudo parece escurecer. É justamente dessa tensão entre fragilidade e persistência que ConfuZo extrai sua extraordinária força poética. A impressionante realização do projeto de engenharia elétrica e poética concebido por André Batistela amplia ainda mais a força simbólica da encenação.
Em seu primeiro espetáculo em que a palavra assume um lugar central na dramaturgia, sem renunciar à linguagem visual que consagrou a companhia, a Cia. Dos à Deux reafirma por que ocupa um lugar de destaque entre os grandes criadores do teatro contemporâneo.
Depois do espetáculo, os criadores conversaram com o público sobre o processo de criação.
1 – Por que, depois de tantos anos dedicados ao teatro visual, vocês sentiram que era o momento de deixar a palavra entrar em cena?
André Curti e Artur Luanda Ribeiro: A palavra surgiu por necessidade, não por uma decisão estética. Durante o processo criativo, percebemos que havia questões que já não podiam ser expressas apenas pelo gesto. Ela entra como mais uma camada da dramaturgia, sem substituir a linguagem visual que sempre caracterizou a companhia. O texto nasce do corpo e retorna a ele. Não vem para explicar a cena, mas para intensificar sua potência poética. É quase um grito, uma palavra que aparece apenas quando se torna indispensável.
2 – Vocês comentaram que o texto nasce do gesto e depois volta ao corpo. Como funciona esse processo de criação entre escrita e movimento?
Nosso processo nunca começa pela escrita tradicional. Primeiro investigamos imagens, movimentos, estados físicos e sensações. Aos poucos, percebemos o que precisa ser dito e o que deve permanecer apenas no corpo. Escrevemos, cortamos, reescrevemos, até chegar ao essencial. O corpo acaba funcionando como um editor do texto. Se uma palavra não acrescenta algo à cena, ela desaparece. Buscamos uma escrita que respire junto com a atuação.
3 – O Homem-Árvore e o Homem-Luz carregam um enorme esforço físico. Em que momento esse desgaste deixou de ser apenas uma exigência da atuação e passou a fazer parte da dramaturgia?
Isso aconteceu naturalmente durante os ensaios. O esforço físico não era um efeito que queríamos mostrar; ele acabou revelando o próprio sentido da obra. O Homem-Luz precisa pedalar durante praticamente toda a apresentação para gerar energia e manter a iluminação da cena. São 28 quilômetros pedalados por sessão. Já o Homem-Árvore carrega um peso real de 4,5 quilos, o que modifica seu equilíbrio, sua respiração e sua maneira de existir no palco. O cansaço não é representado: ele acontece diante do público e se transforma em dramaturgia.
4 – Em vários momentos vocês falaram sobre pertencimento, desterro, raízes e a experiência de viver entre Brasil e França. Como essas vivências pessoais atravessam “ConfuZo”?
Vivemos muitos anos entre os dois países e essa experiência nos fez refletir sobre o que significa pertencer. O Homem-Árvore nasce desse sentimento de deslocamento. Ele deseja criar raízes, mas encontra resistência. A árvore deixa de ser apenas um elemento da natureza para se tornar uma metáfora das memórias, das escolhas e das histórias que carregamos. Talvez todos nós sejamos, em algum momento, essa árvore tentando encontrar um lugar onde possa permanecer.
5 – Apesar de tratar de temas como exclusão, cansaço e escuridão interior, o espetáculo também fala de resistência. O que vocês esperam que o público leve consigo ao final da apresentação?
Não buscamos oferecer respostas. Gostamos da ideia de que cada pessoa complete o espetáculo a partir de sua própria experiência. Mas esperamos que o público perceba que, mesmo quando tudo parece escurecer, ainda existe movimento, desejo e possibilidade de transformação. A luz e a árvore representam formas diferentes de resistência. No fundo, ConfuZo fala da urgência de continuar existindo, criando e buscando um lugar no mundo.
Serviço:
CCBB Rio – Teatro I
Quartas a sábados, às 19h
Domingos, às 18h


