Personagem da semana: Embolo e o crime de lesa-pátria

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Embolo é expulso em Argentina x Suíça — Foto: David Ramos / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP


Meu personagem da semana é Embolo — mas não apenas ele. É também Nyland, Bruno Guimarães, Lemmens, Campaz e, de certa forma, Neymar. Todos aqueles que terminaram a Copa do Mundo no patíbulo moral.

Um pequeno erro num jogo decisivo de Copa é uma nódoa eterna. Um carimbo, um companheiro perene de viagem, um aposto. Embolo, aquele que foi expulso por simulação quando a Suíça dominava a Argentina? Em alguns casos, o sujeito vira até adjetivo.

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No Brasil, a Copa do Mundo transforma o erro banal em crime de lesa-pátria. Bruno Guimarães teve sua vida de cobrador de pênaltis esquadrinhada. Quantos penais já bateu? Em que canto? Como? Sobrou até para Vini Júnior — que, segundo os críticos, devia ter peitado o técnico e assumido a responsabilidade (mesmo não sendo bom cobrador).

Messi perdeu dois pênaltis nessa Copa — e nos dois casos a Argentina venceu. Nyland, que defendeu o penal de Guimarães, bateu roupa na prorrogação contra a Inglaterra. O belga Lemmens fez o mesmo nos estertores do jogo contra a Espanha. Se algum consolo há para esses atletas é que eles não são brasileiros.

O goleiro Barbosa tinha a melhor frase sobre isso: “o Brasil não tem prisão perpétua, mas fui condenado para sempre em 1950”.

Esse tribunal onipresente, invisível e impiedoso é construído sobre a mitologia que criamos em torno das vitórias. O tri nos consagrou como país do futebol. Nosso complexo de vira-latas se transmutou em orgulho nacional. A camisa amarela passou a representar o que temos de melhor — o improviso, o drible, a graça, o caldeirão multiétnico criativo, o liquidificador humano.

Somos Pelé, somos Mané — adoramos nossos semideuses num altar perene. A eles tudo é permitido e perdoado. Vejamos Romário, o senador que foi pra Copa trabalhar como comentarista, curtir a vida adoidado, dançar, girar em roleta humana. Quem ousou criticar foi rebatido pelo presidente do Senado, o inarredável Davi Alcolumbre, que mencionou “serviços prestados” à nação.

Esses serviços, claro, foram prestados jogando futebol em 1994, há mais de 30 anos. É como se o tetra assegurasse a Romário uma imunidade maior que a parlamentar — a imunidade moral. Ele pode fazer o que quiser que, no nosso imaginário, será sempre herói.

O outro lado da moeda é cruel. Zico amarga até hoje o penal de 1986. Neymar curiosamente talvez venha a pagar pelo pênalti que converteu — uma vez que sua discussão inócua com o goleiro norueguês foi quase um microcosmo de sua Copa do Mundo.

O ex-jogador Paulo André escreveu uma coluna espetacular aqui no GLOBO sobre a relação entre expectativa e realidade que assombra a reta final do jogador.

Ney foi um supercraque. Era pra ter sido melhor do mundo… e não foi. Esperava ser protagonista do hexa — não aconteceu. Sua carreira espetacular (que ainda não acabou) encantou multidões. Mas deslizou no imperdoável pecado de não atender à maior das expectativas.

Por mais que seus fanáticos advogados estrilem e berrem, o tribunal não vai perdoá-lo. Pode ser cruel — pergunte a Rubinho Barrichello, um dos nossos melhores pilotos, cuja memória é o meme do atrasado. Qual foi o pecado de Rubinho Barrichello? Não substituir Ayrton Senna. Não ganhar.

Embolo talvez seja perdoado na Suíça. Lemmens talvez se recupere na Bélgica. Nyland certamente será incensado na Noruega. Para Neymar, parece muito difícil. Vini Júnior, Bruno Guimarães e outros ainda terão outra Copa. Como Ronaldo aprendeu entre 1998 e 2002, a redenção é possível. A mão torcedora que apedreja também afaga — mas, no Brasil, ela não negocia. É taça. Ou eterna danação.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/esportes/gustavo-poli/coluna/2026/07/personagem-da-semana-embolo-e-o-crime-de-lesa-patria.ghtml

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