Decisões tomadas pela cúpula do Comando Vermelho encarcerada no Complexo de Gericinó já extrapolam os limites do Rio e ditam os rumos da facção em todo o território brasileiro. Mensagens trocadas por chefes da facção obtidas pelo GLOBO revelam que o CV passou a ter uma espécie de “diretor de governança corporativa” que — de dentro da cadeia — transmite para comparsas de diferentes estados diretrizes sobre invasões de territórios de rivais, conflitos internos e punições a integrantes da quadrilha.
Uma das conversas interceptadas pela Polícia Civil que expõe a ascendência dos chefes do Rio sobre seus pares de outros estados aconteceu no final de fevereiro de 2025, pouco depois de o CV fechar um acordo de trégua com o Primeiro Comando da Capital (PCC), com quem disputava territórios e rotas há mais de dez anos. Na ocasião, um criminoso de Rondônia, integrante da cúpula do CV no estado, reportou a Edgar Alves de Andrade, o Doca, chefe do tráfico do Complexo da Penha, foragido há mais de uma década, um caso de agressão a integrantes da facção por faccionados do PCC na Penitenciária Edvan Mariano Rosendo, em Porto Velho. “Os irmãos de Rondônia se encontram indignados com esses camaradas que não honram a palavra e querem uma solução”, escreveu o rondoniense.
“Temos que colocar o Samurai na linha para resolver logo essas paradas”, respondeu Doca, mencionando um dos apelidos pelo qual é conhecido Arnaldo da Silva Dias, chefe do tráfico de várias cidades do Sul Fluminense condenado a mais de 50 anos de prisão. Mesmo encarcerado à época na Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho (Bangu 3), no Complexo de Gericinó, Samurai tinha a função de mediar conflitos do CV por meio de celulares que entravam em sua cela. “Com certeza”, concordou o comparsa.
Na semana seguinte, o criminoso rondoniense retomou o contato com Doca: “Samurai passou a visão aqui. Vou bater no Da Roça (Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, outro integrante da cúpula do CV de Rondônia) pra dar o papo lá nos amigos”, escreveu. Segundo o relatório da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD) que menciona a conversa, a atuação de Samurai como mediador de conflitos “evidencia a existência de um diretor de governança corporativa de conflitos regionais” na facção.

