Paulo Angioni era um guardião dos valores humanos e fará falta ao futebol brasileiro

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Décadas antes de a preocupação com o indivíduo se tornar pauta fundamental nos debates sobre a formação de valores no futebol, Paulo Sérgio Scudieri Angioni já se inquietava. Em parte, reagia por instinto, administrando capital humano pelo olhar de quem se via incomodado com o processo.
Os anos mostraram, porém, ser mais do que isso. Era a formação profissional atuando em bases retrógradas, subvertendo a ordem em prol da humanização de um segmento, à época, impregnado pelo amadorismo. Janela que se abria para a vida de meninos descartados ao fim de um ciclo.
Eram os primeiros raios do gerenciamento profissional de expectativas de uma maioria ingênua, semianalfabeta. Gente que abria mão dos estudos em prol do sonho juvenil. Expectativa que ia da sobrevivência ao desejo da ascensão social. Do medo de não ser à necessidade de existir.
E Paulo Angioni foi dos primeiros que presenciei dar preferência aos “excluídos”. Anualmente, ao menos uma dezena de meninos era jogada ao léu, descartada no funil da transição das categorias de base da época, condenada ao abandono do clube, da mídia e às vezes até da família. Menos dele.
Administrador e psicólogo por formação, Angioni pedia por vaga em clubes do país e por vezes até convencia alguns dos jogadores a construir nova realidade e recriar as expectativas. Quase sempre, quando infeliz no aproveitamento do atleta, atuava na formação do indivíduo. O que não era pouco.
Na virada do século, lutou pelo alongamento da carreira do jogador de futebol e também pela valorização dos clubes de menor investimento. Considerava alguns deles patrimônio da cultura local. Por mais de quatro décadas foi agente da transformação, figura importante no debate sobre a cultura do descartável.
Não importava o clube que o empregasse: Vasco, Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Olaria, Bahia ou Fluminense, era vital conhecer a cultura da instituição, seus ídolos, times e personagens marcantes. Vinha daí o respeito do ecossistema que desdenha e pouco valoriza o passado.
Com base nessas premissas, foi até o último dia de vida um fiel guardião dos valores humanos. Na semana passada, no hospital, já sabedor da gravidade de sua doença, agradeceu ao presidente do Fluminense por ter liberado o meia Lima para o Santos; pediu atenção a Hércules, e defendeu a inclusão de Martinelli entre os convocados desta data-Fifa.
Sua ausência fará falta. Creiam.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/blogs/gilmar-ferreira/coluna/2026/09/paulo-angioni-era-um-guardiao-dos-valores-humanos-e-fara-falta-ao-futebol-brasileiro.ghtml

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