Jovens de favelas do Rio vão produzir série da Globo. Projeto abre 120 vagas para nova turma

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Quando o episódio for ao ar, Breno de Souza, de 21 anos, vai esperar os créditos subirem só para ver o próprio nome na tela. Morador do Complexo da Penha, ele é um dos 60 jovens formados pelo Cri.Ativos da Favela que serão contratados para produzir uma série que será exibida em 2027 pela Globo Rio. A turma vai trabalhar em todas as etapas: do brainstorming (apresentação de ideias) passando pelo roteiro e gravação até a finalização.
— É surreal. A minha turma foi de dois anos atrás. A gente tinha uma expectativa, e ela não foi só batida, como foi triplicada. Fico muito feliz de imaginar um episódio passando na TV, e o meu nome ali no final — comemora Breno, que assina os trabalhos com o nome artístico Aqua.
A série vai ao ar na grade da Globo Rio no verão de 2027, em episódios de 26 minutos, e ainda não tem nome definido. A produção vai falar sobre moda, música, empreendedorismo e protagonismo feminino sob o olhar de quem vive a favela todo dia. Segundo os realizadores, é o primeiro projeto da história da emissora inteiramente idealizado, roteirizado e executado por profissionais formados em uma iniciativa social. O conteúdo produzido pela turma vai alimentar o “Movimento Criativo RJ”, programa da Globo Rio.
É a primeira vez também que os jovens formados pelo projeto entram numa produção profissional como equipe contratada e remunerada. Os alunos da nova turma, que começa a ser selecionada agora, também vão acompanhar as etapas de produção e o set de gravação.
— Esses jovens deixam de atuar apenas como alunos e passam a integrar, de forma remunerada, uma equipe profissional de produção audiovisual, participando de todas as etapas de criação dos episódios. Quando talento encontra oportunidade, o futuro deixa de ser uma promessa e passa a ser realidade — afirma Mariana Romano, coordenadora do Instituto Heineken.
Da parte visual dos amigos ao set profissional
Breno de Souza, o Aqua, de 21 anos, morador do Complexo da Penha, exibe com orgulho o certificado do curso
Divulgação/Favela Filmes
Antes do curso, Breno já mexia com imagem por conta própria. Começou no ensino médio, há mais de cinco anos, cuidando da parte visual dos artistas do Ainda Label, coletivo de musicistas e cantores independentes que nasceu no Complexo do Alemão. Ele também integra o Ruído, coletivo de audiovisual. Foi por meio do boca a boca nesses projetos que ele conheceu o Cri.Ativos.
— Conheci o Cri.Ativos pelos coletivos de que eu participo e pelas pessoas que se tornaram uma rede de apoio e de compartilhamento de informações. São pessoas oriundas da favela que produzem arte e audiovisual. O fato de a gente fazer a mesma coisa faz com que compartilhemos quando tem algo que beneficie a gente — diz.
O curso, ele conta, mostrou o tamanho do mercado que existia do outro lado.
— Tudo que eu sabia, tudo que eu aprendi antes do Cri.Ativos, foi por conta própria. Quando eu entrei, vi que era um leque muito maior, um mundo muito mais grandioso. Curso de audiovisual normalmente é caro. E os gratuitos não dão o acesso que o Cri.Ativos deu para a gente — afirma.
O acesso, no caso, era a equipamento profissional e a aula fora da sala.
— Não era que todas as aulas eram dentro da sala, com quadro e coisa teórica. Realmente tinha as câmeras, a gente tinha que ir para os eventos e produzir material para aprender na prática como se produz.
‘O network estava entre a gente’
Breno entrou no curso de olho nas grandes marcas que patrocinam o projeto. Saiu com outra ideia na cabeça.
— Passei o curso com essa ideia, mas ela foi mudando, porque eu vi que o network estava entre a gente, entre os próprios alunos. São pessoas de favela, pessoas pretas, periféricas, que tentam ganhar a vida, tentam vencer e estudar aquilo que amam, que é arte.
Foi por essa rede que ele chegou ao primeiro emprego. Um colega de turma avisou de uma vaga na comunicação da Secretaria municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, onde trabalha hoje, e disse que ele era a pessoa certa. Quando a oportunidade chegou o portfólio já estava pronto.
— Quem me deu esse portfólio foi o Cri.Ativos. Eles abriram portas para eu produzir um material rico em conteúdo e fizeram com que eu pudesse mostrar o meu trabalho ao máximo — diz.
Depois do curso, emendou trabalhos para a Sony Music, fotografou o Rio Fashion Week e cobriu um show de Marina Sena, sua cantora favorita. Dois anos após a formatura, a turma continua sendo chamada para freelas pelo projeto.
— Eles demonstram que não foi só um curso que acabou ali. Estão reverberando aquilo e fazendo com que a gente possa ser integrado sempre de alguma forma dentro do mercado — afirma.
Como funciona o curso
O Cri.Ativos da Favela é uma iniciativa da Favela Filmes em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) e apoio do Instituto Heineken e da Caixa Econômica Federal. São quatro meses de formação gratuita em audiovisual para jovens de 18 a 29 anos moradores de favelas e periferias da capital e da Região Metropolitana do Rio.
Equipe do projeto Cri.Ativos da Favela, iniciativa da Favela Filmes com a Cufa
Divulgação/Favela Filmes
A formação passa por criação de roteiro, direção, planejamento e pré-produção de vídeo, captação de imagem e som, iluminação, edição e finalização, além de fotografia e produção. O currículo inclui ainda inteligência artificial (IA) aplicada à produção criativa, fundamentos de cultura digital, montagem de portfólio e palestras sobre empreendedorismo e mercado audiovisual. Durante toda a formação, os alunos têm apoio psicossocial. Parte das aulas práticas acontece no Hub Criativo Caixa.
Criado em 2023, em São Paulo, o projeto já passou por Salvador e Belém antes de voltar ao Rio.
Inscrições abertas para 120 vagas
A nova edição do Cri.Ativos da Favela no Rio vai formar 120 jovens. As inscrições estão abertas desde o último sábado (dia 1º) e vão até 30 de agosto, pelo site do projeto. O curso é gratuito do começo ao fim, sem cobrança de taxa.
Podem se inscrever jovens de 18 a 29 anos moradores de favelas e periferias da capital e da Região Metropolitana do Rio. A seleção é feita por formulário de inscrição disponível nesse site, que também pede o envio de um vídeo do candidato.
A organização vai avaliar há quanto tempo o candidato está envolvido com audiovisual, o desejo de seguir profissionalmente na área e sua atuação no território por meio de coletivos periféricos ou de projetos artísticos ligados a audiovisual, fotografia ou música. Depois vem a curadoria dos vídeos enviados e a validação das inscrições a partir dos pré-requisitos.
— O programa de formação integra ao currículo o uso de inteligência artificial aplicada à produção criativa e os fundamentos da cultura digital. Combina teoria e experiência real de set, com parte das aulas práticas acontecendo no Hub Criativo Caixa, e participação na produção de conteúdos que serão exibidos no programa “Movimento Criativo RJ”, da TV Globo — diz John Oliveira, idealizador e gestor do Cri.Ativos da Favela.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/blogs/corre-de-cria/post/2026/08/jovens-de-favelas-do-rio-vao-produzir-serie-da-globo-projeto-abre-120-vagas-para-nova-turma.ghtml

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