O próximo governador do Rio de Janeiro terá de enfrentar vários fronts na segurança pública, área apontada como a de maior preocupação pelos eleitores fluminenses este ano: os enfrentamentos vão da redução do número de roubos à retomada dos territórios sob controle do crime organizado. Os dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL), apresentam como meta o resgate das áreas de domínio do tráfico e da milícia. Mas de formas diferentes.
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O ex-prefeito da capital aposta no apoio das Forças Armadas no início das ocupações das áreas hoje em poder do crime. O presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), na convocação de novos policiais, embora não descarte ajuda da União. Os dois adversários são a favor de extinguir o status de secretarias da Polícia Militar e Civil, unindo as duas em uma só pasta.
Um estudo da PM do fim do ano passado mostra que só 15 das 92 cidades não tinham áreas sob controle do crime. O problema aumenta na Região Metropolitana: segundo dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), quatro milhões de pessoas moram sob controle do tráfico.
Coordenadora do Geni, Carolina Grilo lembra que nesses territórios, além de impor regras próprias com uso de força, o crime organizado controla serviços como venda de gás e de internet e outros delitos são impactados a partir disso.
— A existência de territórios onde a polícia não pode circular para um patrulhamento de rotina faz com que se criem locais onde é possível uma pessoa foragida se esconder, estacionar um veículo roubado, fazer o transbordo de uma carga roubada — afirma, alertando também que os criminosos ainda usam o mercado formal para lavagem de dinheiro.
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A retomada dos territórios não é só uma promessa dos candidatos, mas uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) na ação de descumprimento de preceito fundamental 635, a “ADPF das favelas”. O governo fluminense apresentou uma proposta para iniciar o resgate pelo Itanhangá, na Zona Sudoeste da capital, alvo de uma guerra entre Comando Vermelho (CV) e a milícia. O plano recebeu o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR) e aguarda manifestação do relator, Alexandre de Moraes. Em paralelo, o estado finaliza o plano tático para a ocupação.
Mas antes mesmo da decisão da Corte, o projeto já é alvo de divergências entre os candidatos. Paes anunciou que não vai segui-lo: prefere começar pelo Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo — berço político do adversário. Ruas diz que vai aproveitar o que já estiver estruturado, mas estuda ampliar para outros locais.
Em suas entrevistas e no programa de governo, Paes diz que vai fazer parcerias com a Polícia Federal e Forças Armadas. O ex-prefeito do Rio conta com a ajuda dos militares para auxiliar as forças estaduais na retomada dos territórios e no combate ao tráfico de armas. Mas a vontade pode esbarrar na articulação política. Paes apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que já se negou a decretar Garantia da Lei e Ordem para uso dos militares em áreas urbanas.
Em sabatina na semana passada ao RJ1, da TV Globo, Paes afirmou que a escolha por São Gonçalo como primeiro alvo não é política.
— O complexo do Salgueiro está entre a Baía de Guanabara e a BR-101, numa cidade onde metade da população vive com medo, sob o jugo do crime organizado. Vamos priorizar, mas não quer dizer que não vá acontecer o mesmo nos complexos do Alemão e da Penha — disse o ex-prefeito sobre as ações de retomada.
Para retirar áreas do controle do crime organizado, Ruas quer convocar os excedentes dos concursos das forças de segurança e fazer novos concursos para aumentar o efetivo, além de pedir o auxílio dos militares. O deputado estadual quer mudar a forma de avaliação interna dos índices de criminalidade, criando metas para a retomada de territórios.
— O delegado e o comandante do batalhão da área vão receber a missão. Vão ter de provar que naquelas comunidades foram reestabelecidos o direito de ir e vir e a liberdade econômica. Vou propor esse gabinete permanente para que a gente possa ter ações coordenadas — acrescentou.
O controle sobre o território é feito pelo crime com o uso da força. Ao longo das últimas décadas, o arsenal das facções só cresceu no Rio. Depois das pistolas, os criminosos começaram a comprar armas automáticas e fuzis com capacidade até de derrubar helicópteros. Mais recentemente, os ataques entre quadrilhas inimigas passou a contar com drones capazes de soltar granadas do céu. Apesar do poder bélico, essas armas de guerra não são completamente fabricadas no país.
Ex-policial federal e pesquisador da Universidade de Coimbra, Roberto Uchoa conta que as quadrilhas atuam em diversas frentes para contrabandear os armamentos: de desvio das corporações, caçadores, atiradores e colecionadores (Cacs) até as ghost guns — armamentos montados no país a partir de importação de peças de materiais plásticos e fabricação das partes metálicas, o que dificulta o trabalho de rastreio.
— O fuzil é instrumento de implementação de medo e poder pela sua presença e ameaça do que pode causar. A forma para combater o tráfico de armas é o trabalho de investigação e de formiguinha, que não vai trazer ganhos políticos, mas pode trazer resultados — conclui.
Para combater essa modalidade de tráfico, Ruas defende ampliar a fiscalização nas estradas, criando o “Escudo Fluminense”, que impeça a chegada das armas às facções. O deputado promete usar drones e scanners de carga em pontos estratégicos, portos, aeroportos e na Baía de Guanabara.
Em seu plano de governo, Paes volta a lançar mão de parcerias com a União para enfrentar os traficantes de armas. Entre suas propostas está firmar acordos com a Polícia Federal e o Exército e ampliar a estrutura da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) da Polícia Civil.
