A Imperatriz Leopoldinense anunciou o enredo que levará para a Marquês de Sapucaí no carnaval de 2027 — e, mais uma vez, o carnavalesco Leandro Vieira mergulha em uma narrativa em que pesquisa, memória popular e espiritualidade caminham juntas.
Com “A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia”, a escola de Ramos vai transformar em desfile a história real de uma calunga de maracatu desaparecida por mais de três décadas.
Para quem acompanha o carnaval apenas pela avenida, talvez o termo “calunga” ainda soe distante. Mas, dentro das tradições dos maracatus de baque virado de Pernambuco, essas bonecas ocupam lugar central: são objetos sagrados ligados à proteção ancestral, ao culto aos eguns e à preservação espiritual dos grupos.
E é justamente uma dessas figuras que está no centro da trama da Imperatriz.
Dona Júlia, a boneca ligada ao Maracatu Porto Rico, desapareceu no fim dos anos 1970 após ser levada para um museu. O objeto chegou a ser considerado perdido até reaparecer décadas depois, em Olinda, levado por um estudante a um terreiro sob a alegação de que a peça “assombrava” sua casa.
A história ganhou repercussão após a imagem da boneca ser exibida em um telejornal pernambucano. Reconhecida por integrantes antigos do maracatu, Dona Júlia finalmente retornou ao grupo de origem, em um reencontro cercado de rituais e celebração.
Foi nessa narrativa que Leandro Vieira encontrou o caminho para o próximo desfile da escola.
Mais do que contar o desaparecimento de uma boneca, a proposta parece ampliar o olhar sobre as tradições dos maracatus e sobre as relações entre memória, espiritualidade e encantamento dos objetos dentro da cultura afro-brasileira.
A própria origem de Dona Júlia ajuda a dimensionar o peso simbólico da história. A calunga foi confeccionada a pedido do babalorixá Eudes Chagas para guardar os axés ligados à ancestralização de Maria Júlia do Nascimento, a histórica Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante e uma das figuras mais importantes da tradição maracatuzeira pernambucana.
Nos últimos anos, a Imperatriz consolidou uma trajetória marcada por enredos que dialogam com narrativas populares brasileiras sem abrir mão da leitura visual grandiosa característica da escola. Em 2027, o caminho parece seguir nessa direção — agora atravessando mistério, desaparecimento, reencontro e memória ancestral.
A escola será a última a desfilar na segunda-feira de carnaval, no dia 8 de fevereiro.



