O Brasil está novamente flertando com uma crise econômica — e quem faz o alerta é ninguém menos que Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central.
- A conta já começou a chegar
- Mais gasto, menos crescimento
Em entrevista ao videocast Desenquadrando, da Folha, o economista comparou o cenário atual ao período que antecedeu a forte recessão do governo Dilma Rousseff e afirmou que o próximo presidente pode receber uma verdadeira bomba fiscal nas mãos.
“Agora já não tem mais dúvida, vai ser uma herança complicada mesmo, maldita, que sugere que nós estamos caminhando para uma situação difícil”, afirmou.
Para Fraga, o problema é conhecido: ano eleitoral, gasto público em alta e uma política econômica sem coordenação. De um lado, o Banco Central tentando segurar a inflação. Do outro, o governo pressionando pelo aumento das despesas.
“Por que a gente não aprende?”, disparou.
O economista classificou o cenário como um “cabo de guerra” e alertou que o crescimento artificial da economia no curto prazo não resolve o problema — apenas empurra a conta para frente.
“Estamos aqui, outra vez achando que esquentar a economia a curto prazo vai resolver os nossos problemas, e não vai.”
A conta já começou a chegar
E, segundo Fraga, os primeiros sinais de alerta já apareceram.
A primeira onda teria atingido o crédito pessoal, com milhões de brasileiros inadimplentes. Depois, o problema avançou para o varejo, setor que trabalha com margens apertadas, estoques e forte dependência de crédito.
“Esse setor foi dizimado”, afirmou.
O alerta chama atenção porque acontece justamente em um momento em que o desemprego está em nível historicamente baixo. Para Fraga, porém, o dado positivo do mercado de trabalho não conta toda a história.
Mais gasto, menos crescimento
Fraga também atacou o histórico de expansão das despesas públicas. Segundo ele, os gastos do governo passaram de cerca de 25% do PIB, três ou quatro décadas atrás, para aproximadamente 33% atualmente.
Ou seja: o Estado cresceu — mas o Brasil não entregou crescimento na mesma proporção.
“Não teve austeridade”, resumiu.
Na avaliação do economista, o país teve crescimento “medíocre” do PIB per capita nas últimas três décadas, em parte por causa da política fiscal.
E foi justamente ao lembrar do passado que Fraga fez uma das comparações mais incômodas da entrevista.
Segundo ele, o primeiro governo Lula foi um período de esperança após o Plano Real. Mas, depois, o país teria voltado aos velhos hábitos.
“Aquilo ali foi um momento maravilhoso. Mas, depois, em um ataque assim meio de amnésia, os velhos vícios e as velhas ideias voltaram.”
Para Fraga, o recado é claro: o Brasil pode estar repetindo a velha receita de gastar mais agora e deixar a conta para depois. O problema é que, desta vez, a fatura pode chegar justamente na mesa do próximo governo.
