O taxista Mikail Andrade, de 32 anos, foi uma das pessoas que prestaram os primeiros socorros à arqueóloga Tania Andrade Lima, de 81 anos, baleada três vezes durante um assalto em 15 de outubro, na Rua General Venâncio Flores, no Leblon, Zona Sul do Rio. Na ocasião, Andrade passava pela região durante seu horário de almoço quando ouviu os disparos e viu a professora aposentada do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) caída no chão.
- Qual é o segredo para envelhecer bem? Especialistas explicam o que fazer para viver mais e melhor
- Desabafo: ‘Ele quer pegar na minha ferida mais aberta’, diz filho de Cissa Guimarães sobre perfil que exaltou condenado pela morte de seu irmão
Era começo da tarde de uma quinta-feira quando ele deixou o carro e correu para ajudar a vítima, acompanhado de outros dois homens e uma mulher.
Ao perceber que Tania sangrava no braço, o taxista improvisou um torniquete com um fio de carregador de celular para tentar estancar a perda de sangue. A experiência que teve durante uma breve passagem pelas Forças Armadas o ajudou a agir naquele momento. Apesar da hemorragia, ele conta que a professora permaneceu calma enquanto recebia os primeiros socorros:
— Eu fiz um torniquete nela usando um fio de carregador para tentar estancar o sangue do braço. Depois, vi na reportagem que a bala tinha atingido três lugares, mas, naquele momento, a gente só tinha identificado o ferimento no braço.
- Delimitação: Prefeitura do Rio define limites do Argentino, novo bairro da Zona Norte
Para agilizar o atendimento, Mikail pediu ajuda a um motociclista que passava pelo local e a outro taxista, que entrou em contato com a base do programa Segurança Presente, localizado na Praça Antero de Quental, a cerca de um quarteirão de distância. A iniciativa foi uma tentativa de evitar que Tania precisasse esperar pela chegada de uma ambulância. Assim que os policiais chegaram ao local, Andrade informou o que havia acontecido e contou sobre o torniquete.
Na sequência, os policiais colocaram Tania na viatura e a levaram para o Hospital municipal Souza Aguiar, na Gávea.
Durante o atendimento, o taxista diz que, além da preocupação com o estado de saúde da arqueóloga, sentiu a insegurança de presenciar um episódio de violência em uma rua do Leblon. Sem saber a idade da vítima, ele a enxergou como alguém de sua própria família.
- O direito de viver: baile, prontuário afetivo e celebrações humanizam os cuidados paliativos em hospitais do Rio
— A gente sente uma sensação de insegurança. Independentemente de idade, cor ou classe, a violência não está respeitando mais nada. Eu vi ali uma senhora que interpretei como se fosse a minha avó, como se fosse a minha mãe. A gente sente uma insegurança muito grande. Acontecer isso numa rua do Leblon… Estamos falando da Zona Sul do Rio — afirma.
Duas semanas após o episódio, Mikail diz que a sensação de insegurança permanece e relata outros casos de crimes na mesma via. Segundo ele, moradores e trabalhadores da região continuam preocupados com a falta de segurança.
— Depois desse episódio com a dona Tania, se você falar com outros moradores, vai ver que já aconteceram três ou quatro furtos de celulares. Você não se sente mais seguro nem para almoçar — diz o taxista.
- Saúde: Hospital Miguel Couto, uma das maiores emergências do Rio, completa 90 anos
Em um áudio, cuja transcrição foi compartilhada com O GLOBO, a idosa agradece àqueles que, mesmo diante do perigo, se mobilizaram para ajudá-la.
— Apesar de ter levado 3 tiros à queima-roupa, alguns homens que viram o que estava acontecendo não se intimidaram e correram para me socorrer apesar do perigo. Naquele momento, não tive como registrar todos o que me socorreram nem tampouco pude agradecer do fundo do meu coração a solidariedade que me prestaram — afirma a arqueóloga.
Segundo a Polícia Civil, Tânia foi seguida por criminosos após sair de uma agência bancária na região. Ao ser abordada pelos bandidos, tentou impedir que levassem sua bolsa, mas foi derrubada e arrastada.
- Veja detalhes: Nova subida da Serra de Petrópolis terá túneis novos, menos curvas e tempo de viagem reduzido; veja os detalhes
Um dos assaltantes disparou três vezes contra ela e fugiu na garupa de uma motocicleta conduzida por um cúmplice, levando seus pertences. A arqueóloga foi atingida no pescoço, no braço esquerdo e no polegar da mão direita.
Imagens de câmeras de segurança mostram que três homens e uma mulher correram para socorrê-la. Mikail estava entre eles.
Idosa é baleada em tentativa de assalto no Leblon
Após ficar internada no Hospital Miguel Couto, a arqueóloga foi transferida para a Casa de Saúde São José, no Humaitá, onde passou por um procedimento para a retirada de um projétil alojado no pescoço e por uma cirurgia para reconstituição da mão. Ela já recebeu alta e segue se recuperando.
Num relato, Tania afirmou estar emocionada com as manifestações de apoio recebidas, mas disse sentir constrangimento com a atenção dedicada ao caso. Para ela, outros episódios de violência acontecem diariamente na cidade e não recebem a mesma visibilidade.
- Caso de polícia: Criminosos do Rio se uniram aos de Volta Redonda para tomar domínio de facção rival; PM ocupa comunidade com 40 homens
— Em um momento em que a gente se vê em meio a tanta desumanidade, como é reconfortante receber tantas manifestações de força e de apoio que restauram a nossa crença na humanidade. Fico muito constrangida com toda essa atenção voltada ao meu caso específico, já que dezenas de outros ocorrem diariamente, alguns muito mais violentos do que o meu, mas que não chamam tanta atenção. Eu não sou diferente de ninguém — diz ela.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/A/D/AJqGDjRMubKcY82CDFqQ/18160150-18052012-ri-exclusivo-material-encontrado-nas-escavacoes-arqueologicas-da-zona-po.jpg)
A arqueóloga disse esperar que a mobilização em torno do caso contribua para reduzir a violência no Rio:
— Torço para que essa mobilização sirva para diminuir a escalada de violência que vem assolando a nossa cidade, o nosso querido Rio de Janeiro.
- ‘Tive que andar 40 minutos até minha seção’: espera de eleitores por ônibus em São Gonçalo (RJ) chega até a uma hora
A Polícia Civil afirmou que os criminosos que atacaram Tania integram uma quadrilha especializada em roubos e furtos na Zona Sul. Segundo o delegado Alexandre Netto, titular da 14ª DP (Leblon), a quadrilha possui ligação direta com o Comando Vermelho (CV). O agente afirma que a organização criminosa, com cerca de 11 pessoas envolvidas nos crimes, escolhe a Zona Sul pelo alto poder aquisitivo dos moradores e das pessoas que circulam pela área.
— Já temos conhecimento de pessoas dentro dessa facção que dão suporte para que esse crime aconteça. Então não é uma ação isolada, é uma estrutura bem organizada, bem arquitetada, cujo objetivo é realizar roubos, furtos na região — afirmou o delegado.
O delegado explicou que a quadrilha é extremamente organizada, na qual cada integrante possui funções bem definidas. Ele ainda detalhou as tarefas de cada membro do grupo:
— Normalmente, essa atuação acontece no primeiro momento com um elemento que vai identificar uma vítima vulnerável, pessoas ou lugares em que essa quadrilha vai atuar. Temos o batedor, que é outra pessoa que vai analisar o caminho que será percorrido, verificando se há blitz, algo utra ação da polícia ou de outra instituição de segurança pública. Os elementos atuam com violência e grave ameaça. Normalmente estão conduzindo uma motocicleta porque é mais fácil se evadir daquela região.
- Segurança pública: Tecnologia implantada em Niterói identifica disparos em tempo real e contribui para prisão de suspeitos envolvidos nos tiroteios
Na última quinta-feira, policiais civis da 9ª DP (Catete) prenderam um suspeito de integrar uma quadrilha especializada em saidinhas de banco. Ele é apontado como responsável por monitorar as vítimas e repassar informações sobre elas aos cúmplices e, de acordo com os investigadores, foi identificado em pelo menos cinco assaltos, incluindo o episódio da arqueóloga.
Segundo as investigações, o homem atuava como olheiro do grupo e observava a movimentação em agências bancárias para identificar pessoas que sacavam dinheiro. Em seguida, ele fazia contato com os demais integrantes do bando, que acompanhavam as vítimas e faziam as abordagens na saída das agências.
Perseguição em Botafogo
Na quarta-feira, um dos homens apontados como chefe da organização criminosa especializada em roubos na Zona Sul foi morto durante uma perseguição policial em Botafogo, também na Zona Sul. Luiz Fernando Rodrigues dos Santos foi localizado por meio de trabalho de inteligência policial com apoio da Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública (Civitas).
Suspeito de roubos na Zona Sul morre após troca de tiros em Botafogo
- Entenda: Por que o interior do Estado do Rio vota diferente da capital
As investigações prosseguem para identificar todos os envolvidos na tentativa de latrocínio — roubo seguido de morte —, esclarecer a dinâmica da ação criminosa e apurar a possível participação dos investigados em outros roubos praticados na região.
*Estagiária sob supervisão de Claudia Meneses
