Economistas alertam que avalanche de benefícios, crédito e perdões de dívida às vésperas da eleição vai estourar as contas públicas e virar inflação e juros altos para o consumidor
Parece presente de pai para filho, mas a conta tem endereço certo para chegar: o bolso do contribuinte. Às vésperas da eleição, o governo Lula abriu de vez as torneiras e atingiu a impressionante marca de **R$ 270 bilhões** em recursos, empréstimos e isenções. A promessa é de alívio imediato no bolso do eleitor, mas economistas e opositores fazem o alerta: essa farra fiscal vai explodir em inflação, juros altos e alta de preços nos supermercados logo ali na frente.
Nesta terça (13), veio mais uma leva dessa dinheirama. O alvo da vez foi a classe dos Microempreendedores Individuais (MEIs) no lançamento do programa *Prospera MEI*. O pacote traz anúncios fortes: o **perdão total de R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias** de 3,6 milhões de pequenos negócios com a União, o **”Pix MEI”** (repasses de até R$ 5 mil sem necessidade de devolução) e o aumento do teto de faturamento de R$ 81 mil para R$ 110 mil.
Mas afinal: é socorro real ou uma estratégia eleitoreira cobrada com juros no futuro?
O ‘Trenzinho de Presentes’ da reta final
A medida para os MEIs é vista como o prato principal de um banquete quase que diário para a população que passou os três primeiros anos de governo comendo o pão que o diabo amassou e que vê a chance de tirar a barriga da miséria agora, em pleno ano eleitoral:
- Isenção do Imposto de Renda (Fevereiro): Isenção garantida para quem ganha até dois salários mínimos via Medida Provisória.
- Derrubada da “Taxa das Blusinhas” (Maio/Setembro): Recuo do governo para zerar a alíquota de 20% do Imposto de Importação em compras de até US$ 50 na Shein, Shopee e AliExpress.
- Programa Move Brasil (Julho): Linhas de crédito subsidiado de R$ 30 bilhões com garantias estatais para caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativo.
- Gás do Povo e Luz do Povo (Agosto): Injeção de R$ 25 bilhões na ampliação de subsídios para contas de energia e vale-gás para famílias de baixa renda.
- Reajuste do Bolsa Família (17 de Setembro): Aumento de 15% no valor base, elevando o benefício médio para R$ 691 e injetando R$ 5,8 bilhões extras.
- Ozempic no SUS (19 de Setembro): Anúncio da inclusão e distribuição de “canetas emagrecedoras” contra a obesidade na rede pública.
- Desenrola 3.0 (25 de Setembro): Assinatura de Medida Provisória para renegociação e compra de dívidas de pessoas físicas com aval do Tesouro.
- Consignado do Setor Privado e Reforma de Casas (Outubro): Abertura de margens de crédito consignado para celetistas e recursos para reforma habitacional.
- Pacote Prospera MEI e Anistia (13 de Outubro): Perdão de R$ 12,6 bi em dívidas públicas, fundo para compra de dívidas bancárias com 90% de desconto, “Pix MEI” de até R$ 5 mil e elevação no teto de faturamento.
A fatura vem depois
Enquanto a propaganda celebra as entregas, o mercado e especialistas soltaram o alerta vermelho: essa conta simplesmente não fecha. Levantamentos do economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper, mostram que a imensa maioria desses bilhões é injetada por meio de manobras e brechas por fora do limite oficial de gastos do governo, o que “desmoraliza” as regras fiscais do país.
Para economistas como Felipe Salto, ex-diretor da [Instituição Fiscal Independente (IFI), o disparo desses pacotes em ano eleitoral sem fontes definitivas de receita coloca o equilíbrio das contas públicas em xeque e pressiona a trajetória da dívida pública.
Na mesma linha, Marcos Lisboa, ex-Presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica, reforça que estímulos artificiais ao consumo funcionam como uma ilusão temporária: ao aquecer a economia do jeito errado sem respaldo produtivo, o resultado inevitável é a disparada da inflação e a manutenção de juros altos por mais tempo — penalizando justamente o bolso de quem achava que estava saindo no lucro.
O presente de hoje é o imposto de amanhã
No fim das contas, a matemática é simples: o benefício que entra no Pix hoje corre o risco de ser engolido amanhã no caixa do supermercado, no posto de gasolina e na conta de luz. O eleitor acha que está recebendo um presente, mas na verdade está assinando um crediário com juros abusivos para pagar depois da votação.
Vendo o governo liberar no ano eleitoral o que não liberou no mandato inteiro, o eleitor pode até pensar que a solução para o país é ter eleição todo ano! Mas a realidade é que não existe almoço grátis. A conta vem depois.
