A Alfa Rodobus, empresa que passou a operar as linhas de ônibus de São Paulo que eram da UPBus, empresa investigada por ligação com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC), também está ligada à organização criminosa, segundo a Polícia Civil de São Paulo. As investigações embasaram a terceira fase da Operação Vectura Corrupta, que mira o controle financeiro e operacional do PCC sobre 12 empresas de ônibus e foi deflagrada nesta quinta-feira (17) para cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão.
A Polícia Civil analisou conversas de WhatsApp do celular de José Daniel Satilite, apontado como integrante do PCC que seria responsável por intemediar interesses da facção com empresários, advogados, políticos e agentes públicos. Ele teve o aparelho apreendido em uma operação realizada em 5 de junho de 2025. Segundo as investigações, José Daniel teria “relacionamento direto” com integrantes de “elevado escalão” da organização criminosa, além de constar como sócio em empresas que são controladas pelo PCC.
Em uma dessas conversas, José Daniel encaminha o rol de empresas de ônibus que seriam da facção, e cita a Alfa Rodobus Transportes como uma das integrantes. Segundo as investigações da Polícia Civil, 12 das 22 empresas que operam o transporte público municipal estariam sob o comando do PCC.
“Chama a atenção ainda que após a Operação Fim da Linha e a consequente rescisão da concessão em face da Qualibus/UPBus, a empresa que a sucedeu na exploração das linhas antes operadas pela UPBus foi justamente a empresa Alfa Rodobus, de tal sorte que é extremamente preocupante o vínculo de tais empresas — alguns já confirmados — com o crime organizado”, afirma a Polícia Civil em documentos da investigação, obtidos pelo GLOBO.
Outro ponto que os investigadores destacam é o papel de Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, empresa pública municipal responsável por formular e gerir os contratos de concessão de ônibus, planejar o sistema de transporte público e fiscalizar a prestação de serviço das empresas. Levi foi preso nesta quinta. Ele assumiu a presidência da SPTrans pela primeira vez em 2020, durante a gestão Bruno Covas. Depois, passou a ocupar cargos na Secretaria de Mobilidade e Trânsito, e entre 2023 e janeiro de 2025 voltou a ser presidente da SPTrans.
Segundo as investigações, Levi “teria ciência” das tratativas das empresas com o crime organizado, com base em diversas menções a ele em conversas de integrantes do PCC. Daniel não era interlocutor de Levi, de acordo com os investigadores, mas eles chegaram a ter “encontros periódicos” para tratar da troca de empresas após a deflagração da Operação Fim de Linha. Em uma das mensagens, Daniel fala que é preciso “iniciar a conversa com o Levi da SP Trans” e, dias mais tarde, ele diz que “já temos a resposta do Levi”. Em nota, a defesa o escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa Levi, afirma que foi “surpreendido, na manhã desta quinta-feira, com a notícia de sua prisão”.
“Levi dos Santos Oliveira, primário e sem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área. A defesa ainda não teve acesso aos autos, nem às circunstâncias que fundamentaram a medida. Tão logo tenha acesso ao conteúdo da decisão e aos elementos que a embasaram, adotará as medidas jurídicas cabíveis, com confiança nos meios legais para o pronto esclarecimento dos fatos e a revogação de sua segregação”, acrescentou a defesa.
