“Está algemado?”
A pergunta do juiz Cristian Assis, durante a audiência de custódia, recebeu uma resposta curta do homem acusado de sequestrar e manter a ex-companheira em cativeiro: “Não, senhor”.
A cena é de um contraste difícil de ignorar.
Enquanto Ailton Rodrigues de Souza estava diante da Justiça sem algemas, sua ex-companheira, Emiliane Tamara, de 24 anos, acabava de ser resgatada depois de passar cinco dias presa, amordaçada e acorrentada em Goiás.
Segundo a investigação, a vítima estava presa pelas pernas, pelos braços e pelo pescoço. A situação era tão cruel que ela sequer conseguia esticar as pernas: quando tentava aliviar a dor, a corrente puxava seu pescoço e dificultava sua respiração.
É esse contraste que incendiou as redes sociais.
De um lado, uma mulher encontrada em um cativeiro, submetida a uma rotina de medo e violência. Do outro, o homem acusado de colocá-la naquela situação diante do juiz, sem algemas, respondendo sobre as condições de sua própria prisão.
E a cena ficou ainda mais indigesta quando o juiz perguntou se Ailton havia sido agredido pelos policiais.
Ele respondeu que não. Mas, em seguida, assumiu o papel de vítima e afirmou ter sofrido “pressão psicológica” durante a prisão. Também disse fazer uso de medicamentos para controlar crises nervosas.
A internet não perdoou o contraste.
A pergunta sobre algemas e eventuais agressões policiais faz parte do protocolo da audiência de custódia. O juiz não estava ali para “passar a mão na cabeça” do acusado, mas para verificar se houve abuso durante a prisão.
E isso ficou demonstrado na decisão: Ailton não foi solto. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva, e ele permanece detido enquanto a investigação avança.
O problema, para quem acompanhou a audiência, foi o contraste produzido pelo próprio rito: enquanto a Justiça cumpria o protocolo para verificar se o acusado havia sofrido algum abuso durante a prisão, a vítima ainda carregava no corpo as marcas de uma violência brutal.
Uma cena que, para muita gente, escancarou a sensação de uma legislação extremamente cuidadosa com os direitos de criminosos, mas que nem sempre consegue oferecer a mesma proteção a quem foi vítima.
