Bioinsumos não substituem saneamento básico em Maricá, alerta coordenador do projeto

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Maricá e Rio de Janeiro Os bioinsumos utilizados pelo Projeto Lagoa Viva podem ajudar a degradar a matéria orgânica acumulada no sistema lagunar de Maricá. Entretanto, a tecnologia não substitui a coleta e o tratamento do esgoto produzido diariamente no município.

O alerta é do professor José Antônio Baptista Neto, coordenador-geral do projeto desenvolvido pela Universidade Federal Fluminense em parceria com a Codemar. Segundo o pesquisador, as lagoas acumulam um passivo ambiental formado por matéria orgânica e outros poluentes depositados durante décadas.

Mesmo depois que novas fontes de poluição forem controladas, o material já presente no fundo pode continuar consumindo oxigênio, liberando nutrientes e contribuindo para a baixa qualidade da água.

“O projeto não substitui de forma nenhuma o saneamento básico. O saneamento tem que existir. O Lagoa Viva auxilia na degradação da matéria orgânica que está no fundo da lagoa”, explicou José Antônio ao Maricá Info.

Poluição acumulada permanece no fundo

O esgoto doméstico carrega matéria orgânica e nutrientes como nitrogênio e fósforo.

Quando essas substâncias chegam em grande quantidade a uma lagoa, podem favorecer o crescimento excessivo de algas e microrganismos. Durante a decomposição desse material, ocorre consumo de oxigênio.

O resultado pode ser mau cheiro, mudança na cor da água, redução da biodiversidade e episódios de mortandade de peixes.

Esse processo é conhecido como eutrofização. Uma descrição acadêmica do próprio projeto reconhece que a Lagoa de Maricá sofre há anos com esse tipo de impacto, relacionado principalmente à falta histórica de saneamento.

Segundo José Antônio, o Lagoa Viva tenta atuar sobre a camada de matéria orgânica presente no fundo.

Os microrganismos dos bioinsumos utilizam parte desse material em seus processos metabólicos. Com aplicações contínuas e condições ambientais adequadas, a expectativa é reduzir gradualmente a quantidade de lama orgânica.

Entrada de esgoto pode anular avanços

Um dos desafios é que o tratamento da lagoa acontece ao mesmo tempo em que novos efluentes continuam chegando pelos rios e canais.

De acordo com o coordenador, durante um período de suspensão das aplicações, os pesquisadores observaram nova queda nos níveis de oxigênio dissolvido.

A explicação apresentada pela equipe é que a entrada de matéria orgânica permaneceu praticamente igual, enquanto o trabalho de biorremediação foi reduzido.

“Quando a aplicação parou, a qualidade caiu porque a quantidade de esgoto continuou a mesma. O oxigênio voltou para níveis comparáveis aos encontrados antes do tratamento”, afirmou.

A experiência indica que o projeto pode precisar de aplicações regulares enquanto os canais continuarem transportando cargas elevadas de poluição.

Isso também levanta uma questão sobre a continuidade financeira e operacional do Lagoa Viva: por quanto tempo as aplicações precisarão ser mantidas e como o trabalho seguirá depois do encerramento da atual parceria?

Tratamento começa antes da lagoa

Uma das estratégias utilizadas é aplicar os bioinsumos nos canais, antes que a água chegue às lagoas.

Em dezembro de 2023, o roteiro divulgado pela Prefeitura incluía 14 pontos, sendo 11 em canais que deságuam na Lagoa de Araçatiba e três nas orlas Marine e Zé Garoto.

Em 2024, o projeto também foi ampliado para a região de Jacaroá. Quatro pontos passaram a receber aplicações, incluindo canais no Saco das Flores, Recanto da Amizade e Jacaroá. Na ocasião, a administração municipal relatou redução do mau cheiro após três meses de tratamento.

Tratar os canais pode diminuir a carga orgânica antes que ela alcance o espelho d’água. A medida, porém, não impede que novos lançamentos de esgoto ocorram.

Saneamento avança, mas desafio permanece

Maricá ampliou sua estrutura de esgotamento sanitário nos últimos anos. Em maio de 2026, a Prefeitura informou que o município havia chegado a 14 estações de tratamento em funcionamento.

A expansão das estações e redes coletoras é importante, mas os próprios dados municipais indicam que a universalização ainda não foi alcançada.

O Lagoa Viva pode funcionar como ferramenta complementar, especialmente para enfrentar o material acumulado e reduzir impactos em pontos críticos. Mas a recuperação duradoura depende de impedir que o esgoto continue chegando às lagoas.

Temperatura aumenta o risco

Outro fator de preocupação é a elevação da temperatura.

As lagoas de Maricá são rasas, com trechos próximos de dois metros de profundidade. Em períodos muito quentes, a água pode aquecer rapidamente e perder oxigênio.

Quanto maior a quantidade de matéria orgânica, maior tende a ser o consumo de oxigênio pelos processos de decomposição.

José Antônio alerta que uma combinação de altas temperaturas, baixa oxigenação e elevada carga orgânica pode favorecer episódios de mortandade de peixes.

Por isso, o coordenador considera importante manter o monitoramento e as aplicações, principalmente antes dos meses mais quentes.

Tecnologias precisam caminhar juntas

A principal mensagem é que não existe uma única solução para recuperar o sistema lagunar.

A coleta de esgoto impede novas entradas. As estações fazem o tratamento dos efluentes. Os bioinsumos atuam sobre parte da matéria orgânica. Os laboratórios monitoram os resultados. E ações de fiscalização precisam identificar ligações irregulares e lançamentos clandestinos.

Sem saneamento, o Lagoa Viva terá de enfrentar continuamente uma carga nova de poluição.

Sem tratamento do passivo ambiental, mesmo uma ampliação expressiva da rede pode demorar a produzir mudanças visíveis na qualidade das lagoas.

A recuperação depende da integração entre essas frentes e da divulgação periódica dos resultados para a população.



Com informações da fonte
https://maricainfo.com/noticias-de-marica/bioinsumos-nao-substituem-saneamento-basico-em-marica-alerta-coordenador-do-projeto/

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