A luz terá papel central no projeto que pretende mudar a feição de um dos recantos mais representativos da história do Rio. Concebida para ser a estrela do Praça Onze Maravilha — o plano de requalificação urbana da área que vai do Catumbi ao Santo Cristo, passando pelo Sambódromo e adjacências —, a Biblioteca dos Saberes, assinada pelo premiado arquiteto burquinense Francis Kéré, superou a fase de apresentação e aprovação do conceito e ganha formas cada vez mais bem definidas à medida que o projeto executivo avança.
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No centro da biblioteca, Kéré vislumbrou a Árvore do Conhecimento. A estrutura monumental vai se projetar para o alto, como um tronco robusto cuja forma vazada permitirá a ventilação do espaço e a entrada da luz do sol. Uma espécie de farol às avessas, capaz de servir como ponto de referência para quem passa, ao mesmo tempo em que ilumina o interior da construção.
— A luz tem muitos, muitos significados no meu trabalho. É uma fonte de energia, mas também pode ser percebida como algo espiritual. Em muitas culturas vemos que a luz é celebrada. E percebemos que a luz no Rio apresenta diferentes momentos ao longo do dia que são tão bonitos, tão intensos. Às vezes, a luz é filtrada; outras vezes, a luz e a sombra se misturam para criar algo realmente único — disse Francis Kéré ao GLOBO, na semana passada, após participar de evento na CASACOR Rio no Palácio Capanema, como parte da Semana de Arte do Rio. — Ao longo do dia, a luz vai mudando, dando significado aos padrões. As pessoas poderão tentar lê-los e fazer suas próprias interpretações. É isso que queremos transmitir com esse conceito.
Livros e mais
A Biblioteca dos Saberes vai ocupar uma área de cerca de 40 mil metros quadrados, a maior parte no local onde hoje está o Terreirão do Samba. A ideia é que o espaço produza sobre o Praça Onze Maravilha o mesmo efeito atrativo que o Museu do Amanhã desempenha no Porto Maravilha. As previsões mais recentes são de que, depois do carnaval de 2027, sejam dados os primeiros passos concretos do projeto, que inclui, entre outras intervenções, a derrubada do Elevado Trinta e Um de Março e o surgimento, em seu lugar, da Avenida da Democracia.
Francis Kéré, Miguel Pinto Guimarães e suas equipes trabalham no projeto da Biblioteca dos Saberes
Leandro Joras
Para além dos conceitos básicos que definem biblioteca como aquele lugar de guarda e acesso a livros e outras publicações, o espaço pensado por Kéré pretende acolher amplo espectro de atividades: haverá áreas de convivência, espaço para exposições, cursos, palestras, estudo, teatro, música… Tudo em perfeito diálogo com a história do lugar.
— O Rio é tão vibrante, tem tanta energia, e isso é uma fonte de inspiração para o meu conceito. Estou muito feliz por ter a oportunidade de trabalhar aqui. E tenho visto muitas coisas. As pessoas que me trouxeram até aqui me permitiram realmente viajar pela cidade, conhecer pessoas e vivenciar de verdade a força desta cidade. Então, se eu puder contribuir colocando algumas coisas em prática, quero que o meu trabalho seja como um catalisador, algo que ajude a revelar ainda mais aquilo que o Rio é — diz o arquiteto, vencedor do Prêmio Pritzker, o mais importante da atividade, em 2022.
O novo equipamento será vizinho de outro ícone da arquitetura na cidade: o Sambódromo de Oscar Niemeyer. Longe de concorrer com o templo do carnaval carioca, a Biblioteca dos Saberes foi pensada para dar os braços à Passarela do Samba em perfeita harmonia.
— Eles (Kéré e equipe) têm uma devoção muito grande pelo Niemeyer. Acho que as curvas que ele traz para o projeto são um pouco niemeyerianas. A partir do novo desenho viário com a derrubada do viaduto, a biblioteca vai se conectar com o Sambódromo por meio de uma praça. Fica muito evidente a ligação entre os dois equipamentos. A relação é importante porque precisamos tratar as costas do Sambódromo, que sempre ficaram escondidas, principalmente ali no setor ímpar, em paralelo ao viaduto — explica o arquiteto e urbanista Miguel Pinto Guimarães, cujo escritório foi escolhido por Kéré como parceiro local na empreitada.
Em pelo menos um aspecto, no entanto, a Biblioteca dos Saberes vai se diferenciar bem do Sambódromo. Na cor. Seguindo uma certa assinatura cromática presente em muitos de seus projetos, Kéré escolheu cores que remetem aos tons do barro, do chão.
Raízes do Brasil
— Ele queria muito trazer as raízes do Brasil. É um vermelho do pau-brasil, do manto do Tupinambá. Queria trazer essas raízes para essa composição. É algo que ele faz. Se você olhar as obras dele na África, há um pouco dessa cor de terra. Ele traz a presença do elemento terra. Todas essas referências estão nas imagens e na ideia que ele apresentou — diz Miguel Pinto Guimarães.
Na semana passada, Kéré, Miguel e suas respectivas equipes mergulharam em três dias consecutivos de trabalho conjunto no Rio. O ritmo acelerado é para que tudo esteja pronto quando o viaduto vier abaixo e a luz verde para a obra da biblioteca for acesa.
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/rio/noticia/2026/10/biblioteca-dos-saberes-e-a-estrela-do-projeto-de-revitalizacao-da-praca-onze.ghtml
Biblioteca dos Saberes é a estrela do projeto de revitalização da Praça Onze
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