Teatro (Claudia Chaves): “A busca pela comédia e pela nostalgia”, diz Gustavo Barchilon

Tempo de leitura: 8 min


Entramos no paraíso dos absurdos para assistir a “Titanique”, musical de sátira, paródia e inversão carnavalizada da grande tragédia do século passado. O espetáculo conquistou seguidores — quase uma devoção de fãs de K-pop — com deboche, música, figurinos exuberantes, um ator em papel feminino e Céline Dion como sobrevivente imaginária do desastre, cantando seus sucessos. As letras das canções são o próprio libreto.

(Edgar Machado/Divulgação)

A história de Jack e Rose, imortalizada pelo filme de James Cameron, é recontada pela ótica exagerada de Céline Dion. A cantora narra a viagem, enquanto “My Heart Will Go On”, “It’s All Coming Back to Me Now” e “All By Myself” fazem avançar a dramaturgia.

Marcos Veras, como Jack, é a maior e melhor revelação do elenco no teatro musical. Sua atuação dá corpo ao romantismo adolescente levado ao exagero. A história é povoada por objetos superdimensionados e ridículos. Pequenas piadas e jogos cômicos atravessam o espetáculo; alguns chegam perto do humor pornográfico.

George Sauma faz Cal, um gay histriônico que dá sentido a muitos quiproquós. Wendell Bendelack compõe Victor Garber, o comandante, com um ar inglês à la Peter Sellers: sério e, justamente por isso, engraçado.

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Duas pessoas em trajes de época no palco. À esquerda, uma mulher ruiva com vestido vermelho e preto, braços cruzados, expressão de desaprovação. À direita, uma pessoa com barba e maquiagem, vestido rendado verde e preto, luvas longas, colar de pérolas e um pássaro na peruca ruiva, com as mãos na cabeça
(Edgar Machado/Divulgação)

Luis Lobianco como Ruth, mãe de Rose, realiza algo da ordem do extraordinário. Sua composição não se define pelo figurino feminino, mas pelo domínio absoluto do timing da comédia. Valéria Barcellos, como Iceberg Tina Turner, dá mais um show de criação: sua comicidade é sustentada pelo absurdo. Alessandra Maestrini, como Céline Dion, é uma mistura de diva pop e aparição, um fantasma que se materializa a cada canção.

Entre minhas aventuras, fui à exposição dos remanescentes do Titanic. O clima está lá: a tragédia, o imaginário, a memória do naufrágio. No palco, tudo é virado do avesso. A ideia, inicialmente inusitada, conquista a plateia pelo conjunto dos atores e pelo ritmo que Gustavo Barchilon imprime à direção. O absurdo é construído com precisão, em diálogo com o cinema, a música pop e o teatro musical.

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Três mulheres cantando em palco iluminado por luz azul. A da esquerda, loira, segura um microfone prateado. A central, ruiva, usa vestido vermelho e preto, e a da direita, com cabelo escuro e volumoso, tem a língua para fora.
(Edgar Machado/Divulgação)
Três artistas no palco. Uma drag queen loira de peruca volumosa e vestido prateado brilhante, com expressão de surpresa, está no centro. À esquerda, uma mulher de vestido vermelho e preto com lantejoulas e colar de pérolas. À direita, uma pessoa de barba e peruca castanha, usando vestido bege rendado com faixa preta e luvas escuras, com um pássaro na cabeça. O cenário simula um navio com portas e vigias.
(Edgar Machado/Divulgação)
Atores em fila no palco, com uma mulher de vestido vermelho e um homem de boina e suspensórios à frente, sorrindo e com os braços estendidos, como em uma cena de musical.
(Edgar Machado/Divulgação)
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Barchilon merece destaque. Diretor e produtor corajoso e ousado, é também um verdadeiro showrunner: sabe o que está fazendo e de onde vem sua criação. Sua encenação aproxima Titanique de uma tradição carioca da comédia que atravessa o teatro de revista, as chanchadas, o besteirol e as comédias nonsense. Uma linhagem de exagero, irreverência, paródia e liberdade para brincar com tudo.

Barchilon entende que não basta trazer uma fórmula internacional de sucesso: é preciso encontrar nossa maneira de rir. Faz a plateia se reconhecer nessa mistura de deboche, fantasia e alegria. Por trás da maluquice, há uma brasilidade muito própria: transformar a tragédia em carnaval, o desastre em festa e o absurdo em prazer coletivo.

Cantora loira de vestido longo prateado brilhante, com fenda, em palco escuro. Ela segura um microfone, com a mão esquerda na cintura. Ao fundo, cenário de navio com chaminé e escadas, iluminado por luzes laranja e amarela
(Edgar Machado/Divulgação)
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Sete atores em figurinos de época, alguns com espadas brilhantes, se apresentam em palco com cenário de navio iluminado por luzes azuis e amarelas, e uma cantora no convés superior
(Edgar Machado/Divulgação)
Elenco teatral em cena, com um homem de uniforme militar caído no chão, sapatos dourados e mãos levantadas. Ao redor, seis pessoas vestidas com trajes de época, incluindo uma mulher de vestido vermelho e outra de vestido prateado com microfone, em um palco iluminado.
(Edgar Machado/Divulgação)

“Titanique” é um besteirol que atravessa, sem balançar, o alto-mar. Mesmo quando tudo parece afundar, a gente continua gargalhando.

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Diretor e produtor teatral com formação pela PUC-Rio e experiência no teatro musical brasileiro e internacional, Gustavo Barchilon dirigiu espetáculos como “Something Rotten!” e “Titanique”.

A seguir, ele fala sobre formação, escolhas artísticas e a matemática do humor.

1 – A faculdade teve importância na sua formação? O que você leva dos estudos para a prática de diretor?

A faculdade teve uma importância enorme na minha formação, principalmente porque abriu meu olhar sobre o teatro e me obrigou a ter repertório. Trago isso comigo até hoje, muitas vezes de forma inconsciente, nas minhas escolhas como diretor. Mas existe uma diferença enorme entre estudar teatro e fazer teatro. Na prática, você tem orçamento, prazo, problemas para resolver e uma estreia que não espera.

2 – Como você escolhe os projetos que deseja dirigir? O que observa no teatro e no comportamento do público?

Acho que os projetos surgem de uma combinação entre o que os investidores buscam naquele momento, o que torna uma produção viável e, principalmente, aquilo que artisticamente me desperta vontade de dirigir. Eu sou um viciado em teatro. Assisto a tudo que está em cartaz no Rio, em São Paulo e pelo mundo. Com a queda de público, comecei a perceber dois movimentos muito fortes: a busca pela comédia e pela nostalgia. Eu já acreditava que esses seriam dois caminhos importantes para trazer o público de volta aos teatros.

3 – O que mais o atrai na comédia musical? Como fazer o humor dialogar com o público brasileiro?

Acho que o que mais me atrai na comédia musical é a possibilidade de brincar com diferentes linguagens ao mesmo tempo. O humor é matemática. É tempo, ritmo, pausa, olhar. E acho que uma das minhas principais funções como diretor é construir a respiração do espetáculo. A comunicação com a nossa plateia é essencial. Não me interessa simplesmente reproduzir uma franquia. Quero que o espetáculo dialogue com o público brasileiro, com a nossa cultura, com as nossas referências e com a nossa maneira de rir.

4 – Você considera que o diretor também é autor da obra? Como reconhece sua assinatura em espetáculos tão diferentes?

Sim, eu considero que o diretor também é autor da obra. Acho que imprimo o meu olhar sobre o texto e procuro sempre encontrar novas camadas para a encenação. Me interessa muito entender por que montar aquela peça naquele momento, o que ela tem a dizer hoje e como essa história vai chegar à plateia. Não quero que todos os meus espetáculos sejam parecidos, muito pelo contrário. Gosto de explorar linguagens diferentes no teatro e de encontrar a identidade de cada obra.

5 – Que projetos ainda gostaria de realizar? O que representa, para você, a liberdade de criação?

No teatro musical, qualquer obra de Sondheim é um sonho que ainda não consegui realizar, mas tenho certeza de que uma hora vai acontecer. Sou completamente apaixonado pela obra dele e há anos me dedico a estudá-la profundamente. Também tenho uma ligação muito forte com obras que abordam o judaísmo. São histórias que me interessam muito, tanto artística quanto pessoalmente. Mas acho que, acima de qualquer título específico, meu maior sonho é continuar tendo liberdade para criar, experimentar, me reinventar e dirigir aquilo em que realmente acredito.

Serviço:

“Titanique — O musical”
Teatro Claro Rio
Quintas e sextas, às 20h
Sábados, às 16h30 e às 20h
Domingos, às 16h



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-claudia-chaves-a-busca-pela-comedia-e-pela-nostalgia-diz-gustavo-barchilon/

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