A polícia israelense anunciou, nesta segunda-feira, a detenção de dez pessoas suspeitas de envolvimento em ataques de colonos contra uma fotojornalista americana, um prefeito francês e diplomatas europeus durante visitas à Cisjordânia ocupada na semana passada. Segundo a polícia, foram realizadas operações em diferentes pontos do território. Veículos e possíveis evidências relacionadas aos ataques, que os colonos intensificaram para prejudicar a colheita anual de azeitonas dos palestinos, foram apreendidos.
— Após os graves incidentes de violência do fim de semana passado, incluindo o ataque a um profissional da imprensa e o suposto ataque contra civis estrangeiros, uma operação de detenção foi efetuada antes do amanhecer — declarou o general Moshe Finchi, comandante da polícia israelense na Cisjordânia.
As pessoas, cujos nomes não foram divulgados, “foram detidas sob suspeita de participação nos incidentes violentos, violação da ordem de um comandante militar sobre uma zona militar fechada e uma construção ilegal”, acrescentou.
Na sexta-feira, colonos israelenses mascarados espancaram e feriram gravemente Heidi Levine, fotojornalista do Washington Post, enquanto ela cobria a colheita de azeitonas no vilarejo palestino de Abu Falah. No dia seguinte, colonos atacaram um comboio de diplomatas da Bélgica, da França, da Polônia e da Igreja Católica que visitava o vilarejo de Taybeh, a cerca de seis quilômetros dali. O prefeito francês Bernard Baudoux foi agredido, e um veículo do consulado belga foi danificado.
De acordo com a rede britânica BBC, Levine sofreu fraturas em quatro vértebras, quebrou uma costela e teve cortes pelo corpo. Ela também precisou passar por uma cirurgia em um dedo ferido durante o ataque. A fotojornalista relatou que foi derrubada pelos agressores, chutada repetidamente e teve suas câmeras e seu celular arrancados.
Em entrevista à BBC nesta segunda, diretamente de seu leito hospitalar no centro de Israel, Levine afirmou que a situação poderia ter sido muito pior. Ela usava um colete à prova de balas identificado com a palavra “IMPRENSA” na frente e nas costas.
— Nós, jornalistas, nem sempre queremos usar coletes à prova de balas e capacetes; eles são pesados e podem incomodar. Quando as outras pessoas não estão usando, você se sente meio ridículo, mas todos nós estávamos usando, e sou grata por isso — disse.
- Entenda: Colonos israelenses espancam fotojornalista do Washington Post durante ataque a palestinos em colheita na Cisjordânia
Ela acrescentou que acredita que teria sofrido ferimentos mais graves, especialmente na cabeça, se não estivesse usando os equipamentos de proteção.
O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, classificou o ataque contra Levine como um “ato desprezível de terror cometido por covardes mascarados” e afirmou que os responsáveis deveriam passar anos na prisão. Após o anúncio das detenções, ele também comemorou a medida nas redes sociais.
“Um acontecimento muito positivo para encontrar e punir aqueles que atacaram e espancaram violentamente Heidi Levine”, escreveu ele no X.
- Guga Chacra: Com eleições adiadas, Palestina ensaia futuro sem Fatah e Hamas
O presidente de Israel, Isaac Herzog, também telefonou para a jornalista. Segundo Levine, ele chamou os agressores de arruaceiros e prometeu fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para que fossem presos.
Herzog afirmou ter dito à fotojornalista que o “comportamento desprezível dos autores desse ataque não representa os cidadãos nem os valores do Estado de Israel”.
Já o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que o presidente dos EUA, Donald Trump, “não quer ver atritos nem nada do tipo — uma crise na Cisjordânia”.
Violência durante a colheita
Os ataques aconteceram em meio ao aumento da violência de colonos na Cisjordânia, que atingiu níveis recordes, segundo registros da Organização das Nações Unidas (ONU). A escalada se intensificou durante a colheita anual de azeitonas, atividade essencial para o sustento de muitas famílias palestinas.
- Veja: À sombra da violência de extremistas, palestinos e israelenses colaboram para se opor à tomada de terras na Cisjordânia
De acordo com a organização israelense de direitos humanos Yesh Din, foram registrados 269 incidentes de violência diretamente relacionados à colheita nos 20 dias anteriores ao domingo. Desse total, 98 envolveram agressões físicas contra trabalhadores, além de roubos de azeitonas e danos e incêndios em oliveiras.
Uma equipe da BBC testemunhou um dos ataques de colonos perto de Abu Falah na sexta-feira. Segundo uma autoridade local, 12 palestinos ficaram feridos no episódio, incluindo quatro pessoas com dupla cidadania palestina e americana, além de Levine.
- Leia também: Israel critica Nobel da Paz para jurista que liderou comissão da ONU que apontou genocídio em Gaza
Pelo menos 96 palestinos foram mortos por forças israelenses ou colonos na Cisjordânia desde o início do ano, segundo dados da ONU. Vinte e cinco dessas mortes ocorreram no contexto de ataques de colonos. No mesmo período, quatro israelenses, entre integrantes das forças de segurança e civis, foram mortos por palestinos no território, de acordo com a organização.
Apesar da condenação internacional aos ataques, o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, questionou as evidências em vídeo e os depoimentos relacionados aos episódios de Abu Falah e Taybeh. O governo classificou os ataques como “alegados” e afirmou que eles ocorreram em meio ao que chamou de uma “campanha coordenada para difamar Israel” e os colonos da Cisjordânia.
Netanyahu, que enfrenta uma difícil eleição para um novo mandato em 27 de outubro, tentou reforçar sua base de direita e questionou as circunstâncias dos ataques atribuídos aos colonos israelenses.
- Massacre: Três anos após 7 de Outubro, Israel tem protestos por investigação e homenagens às vítimas; Hamas exalta ataque
Levine criticou a resposta do premier e afirmou que ele deveria ter enviado uma mensagem clara para exigir o fim das agressões.
— É chocante para mim. É como levar um grande tapa na cara — disse à BBC, ao comentar a reação de Netanyahu.
A oposição israelense, por sua vez, considerou que os ataques contra estrangeiros prejudicam a imagem do país e acusou o primeiro-ministro de permitir a violência.
O ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Maxime Prévot, condenou o ataque contra a delegação diplomática e afirmou que Israel, como potência ocupante, tem a obrigação de proteger os palestinos, garantir a segurança de diplomatas e jornalistas e levar os responsáveis à Justiça. A União Europeia também exigiu que os envolvidos fossem plenamente responsabilizados.
- Leia mais: Israel eleva alerta militar antes do aniversário de 7 de outubro e ameaça ‘resposta poderosa’ a possíveis ataques
Israel ocupa a Cisjordânia e Jerusalém Oriental desde a guerra de 1967 e construiu cerca de 160 assentamentos que abrigam 700 mil judeus. Os palestinos reivindicam esses territórios, juntamente com a Faixa de Gaza, para a criação de um futuro Estado. Os assentamentos são considerados ilegais pelo direito internacional.
Embora o comissário de polícia israelense, Daniel Levy, tenha afirmado que a lei se aplica a todos na Cisjordânia, independentemente de identidade ou filiação, processos contra colonos acusados de atacar palestinos são raros.
Entre 2005 e 2025, mais de 93% das investigações da polícia israelense sobre crimes de motivação ideológica cometidos por israelenses contra palestinos na Cisjordânia foram encerradas sem apresentação de denúncia formal à Justiça, segundo a Yesh Din.
