Milícia cobrava taxas de moradores de condomínio com mais de mil apartamentos e arrecadava R$ 100 mil por mês, diz polícia

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Equipes da Draco/IE no condomínio que foi alvo da operação — Foto: Reprodução


Uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE) revelou que o grupo paramilitar comandado por Gilson Ingrácio de Souza Junior, o Juninho Varão, explorava a cobrança ilegal de taxas e extorquia mais de mil moradores de um condomínio de apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida, no bairro Jardim Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Nove pessoas foram indiciadas por crime de constituição de milícia privada, entre elas um policial militar. A estimativa é a de que o grupo criminoso arrecadava mensalmente com o negócio ilegal valores que variam entre R$ 80 mil e R$ 100 mil.

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Segundo a polícia, a quadrilha cobrava taxas ilegais de R$ 70 a R$ 80 por cada moradia. De acordo com a investigação, o valor cobrado podia dobrar caso houvesse atraso no pagamento da extorsão. O conjunto habitacional explorado economicamente pela milícia tem dez blocos e mais de mil apartamentos. Quem se recusava a pagar a extorsão sofria ameaças de expulsão e até de assassinato. A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) investiga se foi exatamente isso o que aconteceu com o morador Vitor Hugo Pereira Tomaz. Retirado de casa por homens armados, ele foi executado e teve o corpo encontrado, no dia 29 de setembro de 2025, no Rio Guandu. Nesta quarta-feira, agentes da Draco/IE, que investigam a ação do grupo paramilitar, deflagraram uma operação para cumprir dois mandados de prisão e outros dez de busca e apreensão contra suspeitos de integrar o bando. As ordens judiciais foram expedidas pela 3ª Vara Especializada em Organização Criminosa. Os agentes estiveram no condomínio e em endereços ligados aos nove indiciados. Foram apreendidos computadores, celulares, cadernos com anotações, chaves de imóveis, um distintivo falso e uma espécie de porrete ou bastão de madeira. Este último foi encontrado dentro de uma picape.

Porrete e distintivo falso foram encontrados em um carro — Foto: Reprodução

Segundo a delegada Luciana Fonseca, da Draco, as investigações sobre o bando tiveram início nos primeiros meses de 2026. Na ocasião, a especializada recebeu denúncias de moradores do condomínio relatando episódios de extorsão praticada por milicianos.

— Nós realizamos (na época) algumas diligências no local, quando então foram presas três pessoas. Junto a essas pessoas, foram apreendidas armas de fogo e telefones. Nós aprofundamos as investigações mediante a análise dos aparelhos telefônicos e identificamos uma estrutura que foi instituída nesse condomínio. Eles instituíram síndicos que representavam a milícia e realizavam essa arrecadação de valores — explicou a delegada.

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Segundo Luciana Fonseca, a milícia teria indicado dez pessoas que substituíram os antigos síndicos de cada um dos dez blocos de moradias. Os valores cobrados seriam repassados a Filipe Alves da Silva, o Filipinho. Apontado pela polícia como um dos chefes do esquema de cobrança ilegal e homem de confiança de Varão, ele teve a prisão decretada pela Justiça e é considerado foragido. Outro procurado pela polícia é Marcos Francisco dos Prazeres Junior. Ele seria o encarregado de pressionar moradores que se recusassem a pagar a taxa exigida pelos milicianos.

O cartaz que pede pistas sobre o miliciano Juninho Varão — Foto: Disque Denúncia/Divulgação
O cartaz que pede pistas sobre o miliciano Juninho Varão — Foto: Disque Denúncia/Divulgação

— Ele era a pessoa encarregada de pressionar o morador a pagar (a extorsão). Ele é quem ia diretamente às residências e ameaçava com violência física e expulsão — disse a delegada.

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Já um sargento da Polícia Militar, lotado no 7º BPM (Alcântara), é investigado por suposta influência na administração do condomínio e por trabalhar na estrutura de intimidação do grupo. De acordo com a investigação, ele mantinha contato direto com integrantes do núcleo de comando e interferia na gestão do complexo residencial, chegando, inclusive, a participar de reuniões para pressionar o pagamento das cobranças ilegais.

— Ele (o policial) participava ali da logística do condomínio, da criação dos grupos de WhatsApp para controle dos síndicos e porteiros. E, da mesma forma, ele também participava de reuniões, de modo que a sua presença e a sua autoridade faziam com que os moradores se sentissem coagidos a pagar — disse a delegada.

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Nesta quarta-feira, o PM foi alvo de um mandado de busca e apreensão que foi cumprido por policiais da Draco e da Corregedoria da Polícia Militar. Ele chegou a ser levado para a Draco, mas se reservou o direito de ficar calado e não prestou depoimento. Em seguida, foi liberado.

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Apontado como chefe de uma milícia que atua em parte de Nova Iguaçu e da Zona Oeste do Rio, Gilson Ingrácio de Souza Junior tem em seu nome seis mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, segundo dados do site do Conselho Nacional de Justiça. A última ordem de prisão foi emitida pela 4ª Vara Criminal, no dia 3 de fevereiro de 2026. Segundo os autos, Juninho Varão é suspeito de ser um dos responsáveis por autorizar a execução de um homem que integraria uma milícia rival. O crime ocorreu em janeiro de 2025, logo após a vítima ser capturada por homens armados em um bar da localidade conhecida como Jesuítas, em Santa Cruz.

O local faz parte de uma área que está sendo disputada pelo bando de Juninho Varão e por remanescentes do grupo paramilitar de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho. Este último está preso desde dezembro de 2023, quando se entregou na sede da Polícia Federal, na Praça Mauá.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/10/15/milicia-cobrava-taxas-de-moradores-de-condominio-com-mais-de-mil-apartamentos-e-arrecadava-r-100-mil-por-mes-diz-policia.ghtml

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