Clínica de estética na Zona Sul do Rio é investigada pela Polícia Civil após mortes de três pacientes

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Isabely Viana e Jéssica da Cruz morreram após cirurgias estéticas na clínica — Foto: Montagem sobre fotos de reprodução


Jéssica Conceição da Cruz, de 34 anos, só queria se sentir mais bonita. Em 14 de julho, internou-se numa das unidades do Grupo de Saúde Celita Toledo — todas localizadas na Rua Soares Cabral, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio — para realizar um conjunto de procedimentos: remodelamento costal, lipoaspiração e abdominoplastia, por R$ 12,8 mil no total. Após receber alta, porém, ela teve dor intensa e febre, foi reinternada e passou por sucessivas intervenções. Na manhã do último dia 19, Jéssica morreu após dois meses internada. De acordo com o depoimento de seu companheiro à polícia, o documento de óbito aponta peritonite fecal por complicação cirúrgica decorrente de perfuração intestinal.

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A morte da paciente é um dos três óbitos de pacientes da clínica investigados pela Delegacia do Consumidor (Decon) da Polícia Civil do Rio. Além desses casos, outras 24 vítimas procuraram a especializada para denunciar complicações após cirurgias plásticas, entre elas mutilações, deformações, necrose, ferimentos que permaneceram abertos por meses e necessidade de novos procedimentos.

No entanto, segundo o delegado Wellington Vieira, titular da Decon e responsável pela investigação, o número de possíveis vítimas pode ser maior. Isso porque, de acordo com ele, algumas mulheres estariam sendo coagidas a não prestar depoimento pela dona da clínica, Celita Toledo, candidata a deputada federal pelo Republicanos.

Procurada, a defesa de Celita não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Outro óbito é o de Isabely Viana, de 42 anos, que morreu cinco dias após realizar uma abdominoplastia. Segundo o material de apuração reunido pela família, ela entrou para a cirurgia em 12 de junho deste ano. Durante o procedimento, apresentou uma queda brusca dos sinais vitais e teve uma parada cardiorrespiratória. Isabely ficou cinco dias no CTI antes de morrer em 17 de junho.

O terceiro óbito ainda será detalhado pela polícia e pelos familiares. A Decon apura se as mortes estão relacionadas aos procedimentos realizados na rede de saúde. Os inquéritos estão em fase de finalização e, até o momento, ninguém foi indiciado. A delegacia ainda se coloca a disposição de qualquer paciente que tenha sido lesionado.

Na Rua Soares Cabral funcionam unidades interligadas do Grupo Celita Toledo: a Clínica Celita Toledo, utilizada para consultas e atendimentos ambulatoriais; o Laranjeiras Plastic Day Hospital, destinado às cirurgias; e o Hospital Ênio Serra, para internações em CTI. A Polícia Civil passou a investigar o local depois que pacientes denunciaram deformações após procedimentos.

Numa ação realizada em 4 de agosto, agentes encontraram medicamentos vencidos e levaram quatro pessoas para prestar esclarecimentos. O proprietário do Plastic Day Hospital, Adriano da Silva Nascimento, foi preso e levado para a sede da especializada. Ele pagou R$ 10 mil de fiança e responde em liberdade. Na delegacia, segundo a polícia, permaneceu em silêncio.

As denúncias chegaram à polícia acompanhadas de relatos de mulheres que afirmam ter ficado com sequelas após diferentes procedimentos. Há casos de pacientes que relatam deformações nas mamas depois da colocação de próteses e outras que descrevem complicações no abdômen e no umbigo. Algumas dizem ter passado meses com ferimentos abertos e precisado de cirurgias de reparo.

Uma dessas mulheres é Daiana Maurina Dias, psicanalista e estudante de Psicologia. Ela conta ter economizado durante 17 anos para realizar uma cirurgia no abdômen. Procurou a clínica Laranjeiras Plastic Day e pagou R$ 16 mil por procedimentos no abdômen, uma lipoescultura e uma intervenção nos glúteos.

Daiana afirma que foi encaminhada para um local diferente daquele que esperava e que encontrou condições que lhe causaram preocupação. Depois da cirurgia, segundo seu relato, teve sangramento, fraqueza intensa e complicações que evoluíram para necrose na região operada.

— Depois de um mês, eles falaram que iam fazer um reparo em mim, porque estava um buraco, e ajeitar. Foi desse jeito que eles deixaram minha barriga. Eles costuraram meu umbigo para fora, fizeram essa costura em mim e depois tudo abriu de novo. Necrosou na primeira vez, necrosou na segunda — relata.

Ela também afirma que o segundo procedimento ocorreu em condições que considerou inadequadas:

— Fiquei num ambiente que tinha rede de esgoto, não tinha nenhuma estrutura. Tenho toda a declaração das pessoas que me viram no estado em que eu estava lá.

Daiana relata que hoje convive com alterações no abdômen, dores e uma hérnia umbilical diagnosticada posteriormente. Ela afirma ter fotografias, exames, documentos e registros que podem ser apresentados à investigação. Após oito meses em silêncio, Daiana decidiu tornar o caso público. Segundo ela, ao começar a falar sobre o que havia vivido, encontrou outras mulheres que também relatavam complicações e dificuldades para serem ouvidas:

— Não quero transformar minha história em um ataque pessoal. Quero que ela seja investigada. Quero apresentar aquilo que vivi, aquilo que os meus documentos registram e aquilo que outras mulheres também estão relatando.

Cirurgias a preços reduzidos

A investigação também apura a possível atuação de médicos estrangeiros sem especialização em cirurgia plástica. Segundo a Decon, há suspeita de que profissionais vindos de outros países estejam no Brasil para cursos de pós-graduação e atuem posteriormente em cirurgias de forma irregular. A informação ainda está sob investigação.

Um dos pontos levantados no material entregue à reportagem é a diferença entre a qualificação atribuída a um médico em documento apresentado a uma paciente e o registro público encontrado no Conselho Federal de Medicina. Segundo o levantamento, o documento hospitalar indicava que o profissional que faria a anestesia era um “médico anestesiologista”, enquanto a consulta pública do registro apontaria que ele não possuía especialidade registrada. A informação precisa ser confirmada diretamente nos registros oficiais e pela investigação.

A rede de Celita Toledo divulga programas de cirurgias com valores abaixo dos normalmente praticados no mercado. Entre os procedimentos anunciados está a colocação de prótese de silicone por cerca de R$ 6 mil, segundo os materiais de divulgação reunidos na apuração.

O próprio grupo afirma ter realizado mais de 8,3 mil procedimentos. Em uma publicação nas redes sociais, Celita Toledo disse que as pacientes que fazem reclamações terão de comprovar a origem das complicações: “ Todas as pessoas que estão fazendo reclamação, que vão fazer ocorrência, vão ter que provar de que é aquela intercorrência dela”.

Na campanha ao Congresso, ela usa o lema “saúde acessível se faz com ação” e afirma ter dedicado sua trajetória ao cuidado de pacientes. Ao Tribunal Superior Eleitoral (TRE), informou possuir R$ 21,2 milhões em bens. A médica não foi encontrada pelo GLOBO. Já o Republicanos informou que não tinha conhecimento das investigações. Acrescentou que “considera fundamental que todos os fatos sejam devidamente apurados pelas autoridades”. A candidatura de Celita está mantida.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/09/25/clinica-de-estetica-na-zona-sul-do-rio-e-investigada-pela-policia-civil-apos-mortes-de-tres-pacientes.ghtml

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