O jornalista Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, nesta terça-feira (22/9). O falecimento do imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) foi informado pela família ao jornal O Globo. A causa do falecimento de Zuenir ainda não foi revelada.
Zuenir Ventura é considerado um dos jornalistas e escritores mais importantes do país, especialmente por transformar grandes acontecimentos políticos e sociais em livros-reportagem.
Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1931, ele passou por veículos como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo.
Ele foi eleito no dia 30 de outubro de 2014 como sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, na sucessão de Ariano Suassuna.
Trajetória
De 1968 a Chico Mendes
Uma de suas obras mais conhecidas é 1968 — O ano que não terminou, publicada em 1988. O livro revisita o Brasil e o mundo a partir dos acontecimentos daquele ano, marcado pela repressão da ditadura militar, pelas transformações culturais e pela mobilização política. A reportagem foi publicada duas décadas depois dos acontecimentos e tornou-se uma referência sobre o período, além de inspirar a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.
O próprio Zuenir dizia que 1968 havia deixado de ser apenas uma data histórica. — A sensação é de que 1968 não foi um ano, mas sim um personagem. Tanto que, 50 anos depois, continuamos falando, comentando, explicando o que aconteceu — afirmou ao GLOBO em 2018.
Outro trabalho de grande repercussão nasceu de uma investigação sobre o assassinato de Chico Mendes. Em 1989, Zuenir passou um mês apurando o crime para o Jornal do Brasil. A série de reportagens sobre o seringueiro e líder ambientalista, assassinado em dezembro de 1988, venceu os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo. Anos depois, o material foi ampliado e publicado em livro como Chico Mendes — Crime e castigo, em 2003.
Um Rio dividido pela violência
A desigualdade social e a violência urbana também estiveram no centro da produção de Zuenir. Em Cidade partida, publicado em 1994, o jornalista voltou sua atenção para Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, onde uma chacina havia deixado 21 mortos no ano anterior.
Para escrever o livro, ele visitou diversas vezes a comunidade e acompanhou moradores e organizações da sociedade civil que atuavam contra a violência. A obra retratou as barreiras socioeconômicas que separavam diferentes partes da cidade e recebeu o Prêmio Jabuti no mesmo ano de sua publicação.
A relação de Zuenir com os acontecimentos que retratava também aparece em 1968: O que fizemos de nós, lançado em 2008. Vinte anos depois de seu primeiro livro sobre aquele período, ele voltou aos ideais e comportamentos que marcaram os chamados anos rebeldes e investigou o que havia permanecido daquela geração. A obra aborda temas como feminismo, movimento negro, movimento gay, ambientalismo, drogas e mudanças nos costumes.
Uma carreira dedicada à reportagem
A vocação para a apuração acompanhou Zuenir desde o início da carreira. Depois de começar no arquivo da Tribuna da Imprensa, ele passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Em 1999, tornou-se colunista de O GLOBO.
Para ele, o trabalho do repórter começava nas ruas. — Nada substitui o olho no olho. Muitas vezes, o silêncio em uma entrevista fala mais do que as palavras — afirmou em 2008 à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Em outro depoimento, ao Memória Globo, definiu a profissão como um trabalho de “garimpagem”, responsável por produzir a matéria-prima que posteriormente seria aprofundada pelos historiadores.
Em 2014, Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira deixada por Ariano Suassuna. Em 2022, recebeu o Prêmio Faz Diferença, de O GLOBO, na categoria livros, após lançar uma versão ampliada de Minhas histórias dos outros, obra em que recuperou personagens que atravessaram sua trajetória, entre eles Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.
