Maricá –
Maricá continua no topo da lista dos municípios brasileiros beneficiados pela exploração do petróleo. Entre janeiro e julho de 2026, a cidade recebeu R$ 1,907 bilhão somente em royalties, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O valor colocou Maricá novamente na liderança nacional e representa um aumento em relação aos R$ 1,563 bilhão recebidos no mesmo período de 2025. O município ocupa a primeira posição no ranking pelo quarto ano consecutivo.
Os números demonstram a dimensão da riqueza proporcionada pelos campos do pré-sal, mas também evidenciam um dos principais desafios econômicos de Maricá: reduzir a forte dependência das receitas do petróleo.
Em 2025, a soma de royalties e participações especiais chegou a aproximadamente R$ 4,236 bilhões, correspondendo a cerca de 63% de toda a receita municipal naquele ano.
Do orçamento milionário ao município bilionário
A transformação aconteceu em pouco mais de uma década.
Em 2007, antes da exploração em larga escala do pré-sal, Maricá recebeu cerca de R$ 5,7 milhões em royalties. Em 2017, royalties e participações especiais já alcançavam R$ 746,8 milhões.
A barreira do bilhão foi ultrapassada nos anos seguintes. Em 2018, a arrecadação petrolífera chegou a aproximadamente R$ 1,4 bilhão e, em 2022, alcançou R$ 4,3 bilhões.
Esse crescimento modificou completamente a capacidade de investimento do município e ajudou a financiar políticas públicas, programas sociais, transporte gratuito e grandes obras de infraestrutura.

A própria previsão orçamentária de 2026 mostra o peso do petróleo. De uma receita total prevista de R$ 7,318 bilhões, aproximadamente R$ 3,73 bilhões seriam provenientes de royalties e outros R$ 792,8 milhões de participações especiais.
O desafio da era pós-royalties
Apesar dos valores atuais, royalties e participações especiais não representam uma receita permanente.
Os repasses estão relacionados à produção dos campos, ao preço do petróleo e às regras utilizadas para a distribuição dos recursos. Além disso, o petróleo é um recurso finito.
A discussão sobre como Maricá deverá se sustentar no futuro ganhou importância justamente porque grande parte da estrutura econômica e do orçamento público atual depende dessa arrecadação extraordinária.
O prefeito Washington Quaquá tem colocado a mudança da matriz econômica entre as prioridades do atual governo. Desde o início do mandato, o prefeito vem defendendo a utilização da riqueza mineral atual para criar atividades capazes de gerar renda e arrecadação no futuro, com investimentos em áreas como turismo, tecnologia, indústria, logística e serviços.
Em eventos internacionais realizados em 2026, a Prefeitura chegou a apresentar sua estratégia como uma preparação de Maricá para a “era pós-royalties”.
Turismo, tecnologia, porto e aeroporto
Uma das principais apostas está no turismo.
Projetos como o complexo MARAEY, novos hotéis, equipamentos turísticos e a promoção de Maricá em feiras internacionais fazem parte da tentativa de aumentar a participação do setor privado na economia local.
Outro eixo passa pela infraestrutura logística e industrial.
Em julho, Quaquá apresentou à Petrobras projetos envolvendo o Porto de Jaconé, uma possível usina termelétrica e a expansão das operações do Aeroporto de Maricá. Segundo a Prefeitura, o objetivo é utilizar essa infraestrutura para atrair indústrias, investimentos e novos empregos.
O Aeroporto de Maricá já se consolidou como uma base de apoio às operações offshore. Entre 2022 e 2026, o transporte de trabalhadores ligados ao setor registrou crescimento de 396%, segundo dados divulgados pelo município.
O paradoxo é que parte da estratégia para reduzir a dependência dos royalties passa, neste primeiro momento, justamente por aproveitar a localização de Maricá dentro da cadeia do petróleo para desenvolver atividades empresariais e logísticas que possam permanecer na cidade.
Fundo Soberano é uma das reservas para o futuro
Maricá também criou um Fundo Soberano para reservar parte dos recursos provenientes da exploração petrolífera.
A lógica é evitar que toda a receita extraordinária seja consumida no presente e formar patrimônio capaz de gerar recursos ao município no futuro.
Ainda assim, a redução da dependência não será medida apenas pelo volume acumulado no fundo ou pelo número de projetos anunciados.
O principal indicador será a capacidade de Maricá de aumentar sua economia privada, atrair empresas, gerar empregos permanentes e ampliar receitas próprias que não estejam diretamente vinculadas à produção do petróleo.
Hoje, a cidade continua recebendo bilhões.
O grande desafio dos próximos anos será saber se essa riqueza temporária será suficiente para construir uma economia que consiga se sustentar quando os royalties tiverem um peso muito menor no orçamento municipal.
Uma coisa é Maricá ser uma cidade rica com petróleo. O desafio é conseguir continuar rica sem depender dele.
