O músico Clodoaldo Queiroz de Oliveira, conhecido como Gustavo, da dupla sertaneja Tony e Gustavo, foi condenado a 28 anos de prisão pelo feminicídio da companheira, Karen Mancini. A pena deverá ser cumprida inicialmente em regime fechado. Karen tinha 39 anos e trabalhava como auditora do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Ela foi morta dentro de casa, em abril de 2024, em Lumiar, distrito de Nova Friburgo, na Região Serrana.
A decisão foi tomada pelo Conselho de Sentença do Tribunal do Júri de Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Os jurados reconheceram o homicídio triplamente qualificado por motivo fútil, uso de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.
O laudo de necropsia apontou traumatismo cranioencefálico como causa da morte. Segundo as informações apresentadas no processo, Karen sofreu mais de uma centena de golpes. O Memorial Vidas Marcadas, mantido pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), registra mais de 120 lesões pelo corpo, cerca de 30 delas no rosto.
Na sentença, a juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce ressaltou a brutalidade do crime e o fato de o réu não ter prestado socorro. A magistrada também registrou que, segundo o perito responsável pela necropsia, a quantidade de lesões poderia ser classificada como tortura por ter provocado sofrimento desnecessário à vítima.
“Com audácia extremamente reprovável, espancando a vítima de forma brutal dentro de sua própria residência, onde morava com o réu, golpeando-a por todo o corpo, em especial na região da cabeça. O réu sequer prestou socorro a Karen, que teve como causa mortis ‘traumatismo craniano encefálico’, como demonstrou o laudo de necropsia, tornando ainda mais gravosa sua conduta”, escreveu a magistrada.
De acordo com a decisão, o desentendimento entre o casal foi considerado uma motivação fútil. A quantidade e a extensão das agressões fundamentaram o reconhecimento do meio cruel, enquanto o ataque dentro da residência impossibilitou a defesa de Karen.
Histórico de violência e isolamento
O relato publicado pelo MPRJ aponta que Karen vivia um relacionamento abusivo marcado por controle financeiro, agressões físicas e psicológicas e afastamento progressivo de familiares e amigos.
O relacionamento começou após um período de sucessivas perdas pessoais. Em 2018, Karen passou por uma separação e perdeu os pais em um intervalo de três meses.
O agressor passou a morar na casa dela e assumiu o controle de cartões e das finanças, além de contrair dívidas em seu nome. O histórico também inclui a administração de medicamentos controlados sem prescrição e o incentivo ao consumo abusivo de álcool.
Familiares e amigos tentaram intervir. Karen chegou a pedir uma medida protetiva e procurou tratamento para dependência, mas retomou o contato com o agressor. Distante da rede de apoio, foi submetida a episódios cada vez mais graves de violência até ser morta.
Trajetória de Karen
Formada em Contabilidade, Karen foi aprovada em 16 concursos públicos. Trabalhou como auditora da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) antes de assumir o cargo no TCE-RJ, que considerava uma importante conquista profissional.
Ela tornou-se referência na área de controle externo e também criou um curso preparatório que ajudou outros candidatos a ingressar no serviço público. Familiares a descrevem como uma mulher inteligente, dedicada, alegre e solidária.
A história de Karen integra o Memorial Vidas Marcadas, iniciativa do MPRJ destinada a preservar a memória de vítimas de feminicídio e apresentar as trajetórias das mulheres para além dos crimes que interromperam suas vidas.
