Cigarros, vapes, eletroeletrônicos, bebidas alcoólicas e até medicamentos. Na última década, organizações criminosas brasileiras se diversificaram além do tráfico de drogas e avançaram sobre o comércio clandestino de mercadorias, amplificando seus ganhos com a ilegalidade e desafiando as autoridades e o Estado, de uma forma geral. O contrabando, especialmente do Paraguai, garante a facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) lucros que passam de 500% — ganhos que, segundo especialistas, servem para financiar outras frentes de atuação das quadrilhas, numa estratégia de expansão econômica da ilegalidade.
Os criminosos conseguem mais capital para recrutar apoiadores e “funcionários”, comprar armas, corromper policiais e outros agentes do Estado e amplificar a capacidade logística em torno de suas atividades ilegais.
Anualmente, o contrabando entre o Brasil e o Paraguai movimenta cerca de R$ 60 bilhões, montante que é quase o dobro da balança comercial entre os dois países, que fechou 2025 em US$ 7,4 bilhões (ou R$ 38 bilhões). Os dados constam num estudo publicado em março pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf).
Os números são estimados a partir das apreensões feitas pelas autoridades. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), somente 5% a 10% das mercadorias oriundas de contrabando e descaminho que entram no Brasil pela fronteira com o Paraguai são efetivamente apreendidas.
O interesse das facções no contrabando é explicado através de múltiplos fatores. O primeiro é que há mercado para os produtos trazidos irregularmente do Paraguai, e a presença do PCC e do Comando Vermelho no Brasil afora garante ainda mais capilaridade na distribuição das mercadorias.
Especialistas apontam que a entrada do crime organizado no comércio ilegal de mercadorias começou pelos cigarros, avançou para os combustíveis, depois para as bebidas até chegar aos medicamentos e, mais recentemente, às canetas emagrecedoras.
A virada de chave, porém, se deu através da logística. As organizações criminosas levaram a expertise usada no tráfico de drogas para o contrabando, o que deu escala a um fluxo antes mais pulverizado. É o que explica Luciano Barros, presidente do Idesf.
— As facções otimizaram a logística do contrabando ao máximo. Se antes víamos apreensões de produtos contrabandeados em carros ou ônibus e realizada por múltiplos atores, agora são imensos caminhões com um mix de opções, de cigarros a agrotóxicos, drogas, medicamentos — enumera.
Com essa “hiperespecialização”, o custo médio desembolsado pelas facções para a logística é menor. O estudo do Idesf estima que, em média, esses grupos operam com um custo de distribuição de apenas 22%.
Custos menores elevam as margens de lucro. Os cigarros clandestinos lideram a lista, com lucros estimados em 507%. Telefones celulares (390%), brinquedos (390%), óculos (312%) e baterias (285%) completam a relação dos ganhos da criminalidade com a comercialização ilegal de itens de consumo.
Além dos lucros proporcionados com as atividades criminosas, o contrabando envolve uma delicada questão socioeconômica, pois é crescente o número de pessoas que vivem em cidades brasileiras fronteiriças, como Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná, e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, que participam da logística da ilegalidade como uma fonte de renda, as chamadas “mulas”.
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Recentemente, os medicamentos entraram de vez no radar dos criminosos. Segundo o relatório do Idesf, nos últimos cinco anos apreensões de remédios somaram mais de R$ 100 milhões.
Cada vez mais populares, canetas emagrecedoras são a nova fronteira de desafio para as autoridades competentes. Em 2024, foram 2.544 unidades apreendidas pela Receita Federal. No ano passado, o volume disparou a 30.011 canetinhas, um aumento de 1.080%. Os dados acompanhados pelo Idesf projetam 150 mil unidades apreendidas nos seis primeiros meses de 2026.
Com altas margens de lucro, as canetas viraram o “item da vez” para os contrabandistas, e ajudam a exemplificar o racional da atuação das facções nesse mercado ilegal.
Delegado-executivo da Polícia Federal (PF) em Foz do Iguaçu, Sérgio Luis Stinglin ressalta que, diferentemente do que se observa no Rio de Janeiro, onde facções disputam o domínio de territórios, ainda não se vê na fronteira uma busca por “tomar” a região e monopolizá-la. A lógica é financeira.
— Eles se aproveitam das oportunidades de obter lucro maior e porque há demanda pelos produtos contrabandeados. Comparado com o tráfico de drogas, é menos oneroso perder a mercadoria contrabandeada. E se eventualmente alguém for preso, o tempo da pena é menor (do que por tráfico), a não ser em caso de investigações mais robustas nas quais se identifica a organização — explica o delegado Stinglin.
Para Rodolpho Ramazzini, diretor da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), a atuação das facções no contrabando se explica pela combinação de oportunidade, lucratividade e capacidade de escoamento.
— O crime organizado tem território e capacidade financeira de larga escala. Quando se deparam com um setor produtivo que é altamente tributado e com baixa fiscalização, os criminosos veem uma oportunidade de maximizar os lucros que já têm com o tráfico de drogas e de armas — avalia Ramazzini.
O projeto Mercado Ilegal é uma realização dos jornais O Globo, Valor e Extra e da rádio CBN, com patrocínio de Philip Morris Brasil, Instituto Combustível Legal, Mercado Livre, BAT Brasil e apoio da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), da Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) e da Aegea.
