Dados sobre a apreensão de fuzis no ano passado refletem a expansão das facções criminosas por todo o país, revela a pesquisa “A nova cadeia de suprimentos do crime”, do Instituto Sou da Paz. Foram apreendidos 2.137 fuzis em 2025, crescimento de 165% ante os 807 de 2021. Em números absolutos, a maioria das apreensões se deu no Sudeste, mas elas aumentaram substancialmente no Norte e no Nordeste em relação a anos anteriores. A constatação é mais uma evidência de que o enfrentamento às organizações criminosas exige ação federal, em especial no combate ao tráfico de armas.
Entre os cinco estados em que houve maior aumento no número de fuzis apreendidos nos últimos cinco anos, três estão no Nordeste e no Norte. Bahia é o primeiro da lista, com crescimento de 393%; Pará vem logo em seguida com 360%; São Paulo, em terceiro com 330%; e Ceará é o quarto do ranking, com 237%. Em números absolutos, o Rio de Janeiro está em primeiro lugar, com 924 apreensões em 2025, 160% acima dos 355 fuzis recolhidos em 2021.
A pesquisa também revela que, no período, o total de armas confiscadas permaneceu estável, mas houve mais apreensões de armas de grosso calibre, como fuzis ou pistolas. Em 2021, elas foram encontradas em 22 estados. No ano passado, havia fuzis em toda a Federação. Em 2021 não houve apreensão de fuzil na Paraíba. No ano passado, foram 25. “Entre 2024 e 2025, em um período de 12 meses, apreendemos três fuzis .50, além de outros calibres. Os .50 chamaram a atenção, pois são capazes de furar blindados, até derrubar avião”, diz o delegado André Macedo, da Polícia Civil da Paraíba.
Da mesma forma como deve haver trabalho de inteligência para desbaratar as ramificações financeiras do crime organizado, é necessário desmontar os esquemas de fornecimento de armas. O relaxamento de regras para o acesso a fuzis semiautomáticos por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) no governo Jair Bolsonaro beneficiou as facções criminosas, graças ao desvio de armas e munições compradas legalmente. Mesmo com as restrições impostas no atual governo, o crime organizado continuou a ser abastecido não apenas por armas contrabandeadas, mas também por fornecedores internos, que montam fuzis sem numeração em fábricas clandestinas, os “fuzis fantasmas”.
No ano passado, a Polícia Federal desmantelou em Santa Bárbara D’Oeste, interior de São Paulo, uma fábrica com capacidade de produzir 3,5 mil fuzis por ano, destinados a facções criminosas do Rio. Muitas vezes, quando o fuzil apreendido não é americano, ele é montado com peças de fabricantes americanos contrabandeadas. Tal realidade reforça a necessidade de reativar a Força-Tarefa Internacional de Combate ao Tráfico de Armas (Ficta), que vigorou de 2022 a 2023, como defende o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Dela participam a agência americana de investigações e forças policiais brasileiras. O governo não deveria demorar a atender o pedido da PF.
